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A Angústia e as Lições de Paulo, O Apóstolo de Jesus



Por: Marcelo Pereira


E, então, disse Jesus - João 16:21,24:


A mulher que está dando à luz sente dores, porque chegou a sua hora; mas, quando o bebê nasce, ela esquece a angústia, por causa da alegria de ter nascido no mundo um menino.

Assim acontece com vocês: agora é hora de tristeza para vocês, mas eu os verei outra vez, e vocês se alegrarão, e ninguém lhes tirará essa alegria.

Naquele dia vocês não me perguntarão. Eu lhes asseguro que meu Pai lhes dará tudo o que pedirem em meu nome.

Até agora vocês não pediram nada em meu nome. Peçam e receberão, para que a alegria de vocês seja completa.


Nos desertos de nossa vida,

Nos tormentos de nossa travessia,

Nas angústias de nossa trajetória...


…a imersão em inevitáveis experiências é sempre encarada como um evento de injustificáveis desconfortos, de dores arbitrárias, de sombras à esperança, e que, portanto, nos levam inexoravelmente a afundar no mundo de nossas sensações incompreensíveis.


Nesse cenário, a experiência da dor e do sofrimento é a impressão contraditória de uma vivência desejável, em face a um mundo que faz palco ao teatro da ilusão da felicidade inevitável, como a única realidade, um idílico campo onde floresce a imaginação de uma vida desabitada pela desventura e pela decepção.


Pela força dessa fuga, não raro acostumamos o olhar humano a ser traduzido em uma perspectiva “para fora de si”, como uma escapadela inconsciente das próprias intimidades, em projeção a cena florescente dessa aparente realidade, que encobre a vida como ela é, com todas as suas vicissitudes e desafios.


Todavia, esse afastamento de si é provisório, essa ilusão é insustentável permanentemente, alegoricamente como um castelo erguido em solos movediços de falsas impressões, mas que impulsivamente somos inclinados, em um tropismo natural, a voltar a si, e a encarar nosso universo particular, onde ecoam os sons dormentes de nossa consciência.


A desilusão, a agonia, a tristeza, a angústia se tornam companhias indesejadas e, por vezes, até mesmo ignoradas, o que nos leva a descrer do amor em nossas vidas, e a considerar inválidos os processos que defluem dessa experiência, de (re) nascer pelos braços da esperança, nutrida na fé.


Na parábola da mulher em trabalho de parto, Jesus assinala a presença da angústia, como fruto de um futuro desconhecido, em comparação à aflição dos discípulos diante de Sua iminente morte. E que tal sensação nem será lembrada, quando a vivência do amor, no caso o filho nascido Homem, preencher de alegria o coração embevecido, assim como os discípulos hão de granjear esse sentimento, quando Cristo lhes fosse novamente entregue, ocasião em que a ansiedade e o medo que lhes assistiram terá desaparecido.


O apóstolo Paulo edifica a sua fé na crença inabalável do amor de Deus em nós, o que o encoraja a enfrentar os inevitáveis martírios por que haveria de suportar no percurso de sua peregrinação missionária. Dissera o apóstolo dos gentios: “Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: "Por amor de ti enfrentamos a morte todos os dias; somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro". Mas, em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou” Romanos 8:35-37.

Açoites, humilhações, desprezo, anátemas … foram instrumentos que lhe dirigiram seus algozes na tentativa de desestimular a sua voz e a sua força na predicação do evangelho de Cristo, e nem mesmo a ciência dessas desventuras lhe fora razão suficiente para enfraquecer a sua fé, onde depositava a certeza da vitória do amor que lhe esperava no horizonte infinito, e o próprio Jesus adverte a beleza dessa experiência, ao orientar a Ananias em ir ao encontro de Paulo: “Vá! Este homem é meu instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e seus reis, e perante o povo de Israel. Mostrarei a ele o quanto deve sofrer pelo meu nome" (Atos 9:15,16).


Viver Cristo seria viver as próprias experiências de Cristo, pois afirmara Paulo de Tarso: “Mas de nada faço questão, nem tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus” (Atos 20:24), e esse sofrimento cristogênico de Paulo nos lembra o código de conduta ensinado pelo Mestre da galileia, vivido na ética do amor e da fé, como fermentos indissociáveis a qualquer experiência humana, sabedores de que o material sobre o qual são elas atuado não desconhece a presença de dúvida e da dor.


A palavra consoladora de Cristo não há de ser encarado somente no seu efeito meramente retórico, vivido apenas no apego de sua linguagem encantadora e, portanto, superficialmente aliviadora, mas principalmente como frutos que hão de brotar resilientes às dificuldades do solo e do ambiente em que se fez semeado, como sóis esclarecido na parábola do semeador (Mateus 13:1-9, Marcos 4:3-9 e Lucas 8:4-8), que reforça o nosso compromisso moral com as lições extraídas nessa escola da vida, e que há de ser aprendida em caráter pessoal, inevitável e intransferível.


A angústia é a sensação nutrida na dúvida improdutiva, pois que exercida desabrigada da fé. O sufoco iminente ao desconhecido, o medo de não saber, decorrente dos mistérios de nossa peregrina caminhada, não deve suscitar o desespero emocional, já que devemos reconhecer a beleza do porvir, nascido de cada alvorecer das novas experiências.

Pelo contrário, ancorado nas observações de Soren Kierkegaard (filósofo e teólogo dinamarquês - 1813/1855) a angústia pode ser a possibilidade real de liberdade, “que ocorre frente à percepção de que o futuro não é determinado, que há possibilidades de escolha e, portanto, liberdade”, e para quem a “fé não constitui, portanto, um impulso de ordem estética, é de outra ordem muito mais elevada, justamente porque pressupõe a resignação.” (KIERKEGAARD, Soren. Temor e Tremor. In: Os pensadores. Editora Abril Cultural. São Paulo, 1979. p. 231).


Em um sopro de esperança imorredoura face aos martírios da vida humana, o apóstolo Paulo nos diz: “Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados. Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; Trazendo sempre por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também nos nossos corpos; E assim nós, que vivemos, estamos sempre entregues à morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também na nossa carne mortal. De maneira que em nós opera a morte, mas em vós a vida. E temos, portanto, o mesmo espírito de fé, como está escrito: Cri, por isso falei; nós cremos também, por isso também falamos. Sabendo que o que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também por Jesus, e nos apresentará convosco. Porque tudo isto é por amor de vós, para que a graça, multiplicada por meio de muitos, faça abundar a ação de graças para glória de Deus. Por isso não desfalecemos; mas, ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente;” (2 Coríntios 4:08-17)


No testemunho de Paulo, é gravado indelevelmente em nossa consciência espiritual a mensagem de que tudo é amor, pleno e integral, que Deus nos faz misericordiosamente banhado dessa luz benfazeja. Uma alegria gratificante a que devemos humildemente reconhecer, em eflúvios vibracionais a emanar pulsante de nossos corações.


Não podemos reconhecer como quimeras as oportunidades da vida, nem como vãs as lições que dela são naturalmente decorrentes. Lembremos que cada amanhecer é como uma epifania de nossa vida renovada. É uma nova chama em que se revigora a nossa esperança. O (re) nascer diário em nossa vida é uma atitude que há de ser consentânea com as nossas práticas de vida, que se há de ser banhada pela amorosa presença de Cristo, como guia e amigo, nessa infinita peregrinação.

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