• Letra Espírita

Uma análise sobre a fala de Chico Xavier e o Regime Militar

Atualizado: 4 de Abr de 2019



Jackelline Furuuti


O período é a década de 1960.


Todos os povos tentavam se recuperar da Segunda Guerra Mundial, a economia norte americana enfim acelerando, as coisas entrando nos eixos. No Brasil, o clima é de grande liberdade, curtição e rebeldia ao som de um bom Rock'n Roll dos Meninos de Liverpool.


O feminismo em atividade, ditando modos, moda, cortes de cabelo e roupas cada vez mais libertadoras. Entre um excesso e outro, todos experimentaram os extremos que afinizavam. Os liberais extravasaram sua liberdade e os moralistas extravasaram as barreiras do bom senso. Silenciosamente iniciava-se o período dos excessos.


Como todo cidadão de bem, nenhuma das partes envolvidas queriam mal algum a quem quer que fosse, mas o perigo morava na libertinagem e na censura, polos que entraram em conflito.


Na Bíblia Sagrada, aprendemos sobre a abdicação na passagem de Abraão, que teve sua fé posta em prova quando Deus lhe pedia o sacrifício de Isaque. Abrir mão do que mais se amava em nome de Deus sempre foi um ato de fé.


Considerada uma das revelações Divinas, meio de simplificar e tornar popular as Leis de Deus, o Espiritismo conquistou imensa notoriedade neste período e ganhou espaço na mídia televisiva, o que acelerou a disseminação da doutrina nos quatro cantos do país.


A televisão trazia ao povo brasileiro, através de Chico Xavier, as palavras consoladoras da espiritualidade. Era a dose de esperança que aquele povo, já perdido em seus devaneios e escolhas, se apoiava. Era a fé de dias melhores.


Este espaço era limitado para artistas e pessoas que não ferissem a "ordem", portanto, tudo o que fosse ingenuamente ofensivo, era censurado. "E para não dizer que não falei das flores", até poetas e compositores tiveram suas obras barradas pela censura.


Chico, defensor inabalável da Doutrina e entendendo ser o seu trabalho de grande importância, provavelmente não viu outra saída senão concordar com o que fosse necessário para ter sua vida e consequentemente seu trabalho espiritual preservado. Era o seu "sacrifício" em favor da divulgação dos ensinamentos recebidos da espiritualidade.


Além do mais, Chico ao condenar os temerosos atos de tortura e censura, só traria ainda mais revolta e caos, o que contrariaria totalmente as diretrizes espirituais que trata todos os conflitos de forma edificante e consoladora.


Não via Chico então, outra saída senão ser a favor desta forma de organização.


Na verdade, tal declaração teria ação semelhante à de uma mãe que vendo o seu filho chorar, sopra o seu ferimento dizendo que esse sopro irá tirar sua dor e curar a ferida. A mentira está no "sopro curador", mas a verdade se preserva com a cura da ferida através do tempo.


Entendia ele que aquele período era uma necessidade que nos foge a compreensão.


Chico certamente não concordava com a tortura e assassinato de qualquer ser e nem com o desequilíbrio que tomava conta de ambos os lados, entretanto, sabiamente entendia as lições recebidas nesta situação, afinal, não é obra de Deus o caos, mas ele é a consequência das nossas más escolhas. De modo que só faria mais chama a declaração indignada de um pacificador. Chico foi sábio. Abriu mão de sua própria opinião, que era obviamente sintonizada às Leis Divinas, para preservar sua missão uma vez que nenhum efeito positivo seria notado se ele naquela ocasião declarasse palavras de revolta e indignação.


Com o tempo seus atos mostrariam ao povo qual a real opinião dele sem que fosse necessário sequer voltar ao assunto.


Talvez, inspirado pelos poetas e compositores de quem tanto Chico servira de instrumento, ele se fez entender nas entrelinhas de sua declaração, na qual podemos observar que entre uma palavra e outra, Chico colocava como poder maior o plano espiritual, falava sobre a ordem, mas não a torturadora e assassina, mas sim, a que através dessas duras provas, absorvíamos. Chico dava aula sobre espiritualidade e resignação, conforme aprendemos bem em O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec.


Aprendemos naquele período grandes ensinamentos, sim, aprendemos. Aprendemos a exercitar ao máximo nosso poder criativo, nossa forma de expressão, e, não há como negar que para os artistas censurados, apesar de sofrido, este foi o período de maior qualidade cultural que atravessamos, pois exigiu que todos chegassem no limite de suas inteligências.


Chico entreviu o que pouco de nós vimos desta fase. Entendeu que este "barulho" despertaria muitas consciências acomodadas que fariam e fazem a diferença até os dias atuais.


Certamente Chico não foi favorável aos excessos de nenhum dos lados, mas sim a ordem e moral cívica, porém, totalmente diferente da ordem interpretada pelos homens daquela época e talvez desta também.


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