• Letra Espírita

ESPÍRITOS DE PESSOAS EM COMA


Isabel Miranda


Como espíritas, aprendemos que cada encarnação se presta a acrescentar novos aprendizados, reparar erros do passado ou até mesmo cumprir missões importantíssimas ao avanço da humanidade.[1] Viemos ao mundo material para fazer, entender ou experimentar coisas que não nos seriam fáceis ou mesmo possíveis no mundo espiritual.


Nesse sentido, situações como o coma, em que a pessoa aparentemente não participa da vida material, costumam nos causar muitas dúvidas. Haveria um propósito nessas vidas? Como agir nesses casos? Certamente, não existe uma resposta única e definitiva para todas as situações, mas podemos, sim, fazer algumas considerações – em especial, analisando o que ocorre com o espírito da pessoa em estado de coma.


A diferença entre coma e morte cerebral


Em primeiro lugar, é importante traçar algumas distinções entre o coma e a morte cerebral.[2]


O coma é considerado uma desordem da consciência. Quando a pessoa está em coma, geralmente, não há indícios de que a pessoa esteja alerta - isto é, a pessoa não abre os olhos, nem tem reflexos básicos como engolir e tossir. Tampouco há indícios de que a pessoa perceba o seu entorno - isto é, que ouça o que as pessoas falam ou entenda o que acontece à sua volta.


No entanto, as desordens de consciência são diferentes da morte cerebral. Na morte cerebral, a pessoa não é capaz de respirar ou manter batimentos cardíacos sem a ajuda de aparelhos. Não há qualquer possibilidade de a pessoa recuperar a consciência, tamanho o dano sofrido. Em alguns casos, a expressão “coma irreversível” é usada como sinônimo de “morte cerebral”, o que contribui para a confusão.


Sem embargo, há distinção essencial entre as duas condições, pois todos já ouviram falar de casos em que a pessoa saiu do coma, mesmo depois de vários anos nesse estado. Um exemplo incrível e recente é o de Munira Abdulla, mulher que permaneceu inconsciente desde o acidente de carro que sofrera em 1991, até 2019 – ou seja, despertou depois de ter passado quase 28 anos nesse estado.[3]


Por outro lado, com a morte cerebral, abre-se a possibilidade da doação de órgãos - que, deve-se destacar, é compatível com a doutrina espírita e incentivada pela espiritualidade superior.[4]


Kôma, o sono profundo


A palavra coma vem do grego kôma, que significa “sono profundo”.


Sabemos que, durante o sono, o espírito se desprende das amarras da carne. Portanto, é possível que o espírito se veja livre das eventuais deficiências físicas do corpo, mesmo aquelas de ordem psicológica ou intelectual - nos casos em que a deficiência só existe no corpo, isto é, não decorre de desajustes do corpo espiritual.[5]


Assim, o sono físico pode permitir, por exemplo, que o cego enxergue, que o mudo fale, e que a pessoa em coma recupere a consciência, na forma de espírito, conseguindo realizar as diversas atividades possíveis ao espírito durante o sono[6] - desde as mais nobres, como praticar a caridade e ouvir palestras,[7] passando pelas corriqueiras, como encontrar com amigos e familiares (tanto encarnados quanto desencarnados),[8] até as menos enriquecedoras, como praticar zombarias.[9]


O fato de a pessoa estar em coma, ao contrário do que o nome sugere, não significa que ela esteja dormindo o tempo todo - tal como o sono é averiguado em nosso corpo, com suas fases etc. A literatura médica aponta que, nos casos de coma com melhor prognóstico, verifica-se que o paciente em coma também experiencia o sono.[10]


O que acontece com o espírito durante o coma


Finalmente, chegamos à questão - quando a pessoa está em coma e não está propriamente dormindo, o que acontece com seu espírito?


A resposta à Questão 407 do Livro dos Espíritos pode elucidar esse ponto:


407. É necessário o sono completo para a emancipação do Espírito?


Não; basta que os sentidos entrem em torpor para que o Espírito recobre a sua liberdade. Para se emancipar, ele se aproveita de todos os instantes de trégua que o corpo lhe concede. Desde que haja prostração das forças vitais, o Espírito se desprende, tornando-se tanto mais livre, quanto mais fraco for o corpo”.[11]


Assim, é possível entender como algumas pessoas que sofreram desordens da consciência, uma vez despertas, recordam-se das pessoas que a visitaram e de coisas que lhe foram ditas – o espírito, desprendido, recupera as faculdades que faltam ao corpo prostrado e, tal como acontece no sono, é capaz de apreender o seu entorno, de forma consciente.


Aplica-se, aqui, a mesma lógica manifestada na resposta à Questão 422 do Livro dos Espíritos que, embora não trate propriamente do coma, trata de situação próxima o suficiente para a analogia ser feita:


422. Os letárgicos e os catalépticos, em geral, veem e ouvem o que em derredor se diz e faz, sem que possam exprimir que estão vendo e ouvindo. É pelos olhos e pelos ouvidos que têm essas percepções?


Não; pelo Espírito. O Espírito tem consciência de si, mas não pode comunicar -se.


a) — Por quê?


Porque a isso se opõe o estado do corpo. E esse estado especial dos órgãos vos prova que no homem há alguma coisa mais do que o corpo, pois que, então, o corpo já não funciona e, no entanto, o Espírito se mostra ativo”.


Por outro lado, há casos em que a pessoa esteve em coma e não se recorda de nada desse período, ou mesmo esquece pessoas e fatos da vida anterior ao coma. Sob o aspecto médico, o esquecimento é normal, pode fazer parte do processo de recuperação do paciente[12] e, sob o aspecto espiritual, o esquecimento não significa que o espírito tenha se mantido inerte durante o coma – a mesma lógica se aplica durante o sono, pois estamos em atividade mesmo quando não nos lembramos dos nossos sonhos.[13]


Lições trazidas pela doença incapacitante


No romance espírita Vinte Dias em Coma,[14] o leitor acompanha a história de Nestor, um ganancioso homem de negócios, de trato rude com todos os que o cercam, nem mesmo pelos filhos consegue demonstrar carinho. Está casado há 26 anos com Berenice, que, cansada de sua grosseria e prepotência, pensa em se divorciar. O coma de 20 dias traz relevantes transformações na vida de Nestor e dos que o cercam.


Para evitar “spoilers”, ficamos com a reflexão final da obra, mostrando que o coma pode cumprir um papel fundamental de aprendizado:


“Seria de bom proveito, vez ou outra, provocarmos um ‘coma’ em nós mesmos, sem a necessidade de acidentes ou hospitais, mas um ‘coma’ imaginário, onde pudéssemos realizar, nesse exercício mental, uma análise do que nossos familiares, nossos amigos, nossos conhecidos, poderiam dizer a nosso respeito, se oportunidade tivessem, e nós, a de ouvi-los, sem que soubessem. Dessa forma, poderíamos analisar a nossa vida, os nossos atos, os nossos impulsos e as nossas reações, no intuito de exercitarmos melhor os ensinamentos do mestre Jesus que, inevitavelmente, nos proporcionaria a tão desejada felicidade e uma consciência mais tranquila, com a qual, e com o nosso amor, faríamos o nosso próximo mais feliz e seríamos muito mais amados por todos os que nos cercam”.


Dilemas dos familiares e profissionais da saúde responsáveis pelo paciente sem perspectiva de melhora


Frequentemente, a família do paciente em coma se vê numa situação angustiante, especialmente nos casos em que o coma tem prognósticos mais pessimistas. É possível que o próprio paciente tenha indicado os cuidados paliativos ou procedimentos que gostaria ou não de receber quando, porventura, não estivesse consciente – caso do coma. Isso nem sempre torna mais brando o fardo dos familiares.


A comunidade médica traça importantes distinções no que tange aos cuidados do paciente terminal ou sem perspectiva de cura.[15] A ortotanásia é admitida no Brasil e se encontra regulamentada da seguinte forma: “Na fase terminal de enfermidades graves e incuráveis é permitido ao médico limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do doente, garantindo-lhe os cuidados necessários para aliviar os sintomas que levam ao sofrimento, na perspectiva de uma assistência integral, respeitada a vontade do paciente ou de seu representante legal”.[16]

Em artigo publicado pela Associação Médico Espírita do Brasil, há uma importante reflexão sobre o tema:


“O kardecismo tem por bem considerar a importância da continuidade do investimento na vida em detrimento da retirada voluntária desta, sendo assim contra a eutanásia. As pesquisas que trouxemos neste artigo são convergentes aos princípios kardecistas e certamente contribuem com a ampliação do conceito de ortotanásia.


Enquanto os métodos que evidenciam a vida e a comunicação espiritual se desenvolvem, as neurociências abrem uma nova possibilidade investigatória sobre a preservação da consciência nos indivíduos em estado vegetativo, em coma ou ECM [estado de consciência mínima]. Espera-se que o acesso aos exames de neuroimagem seja cada vez maior e pesquisas sobre o tema sejam conduzidas no Brasil”.[17]


As palavras de Chico Xavier e Emmanuel sobre o espírito da pessoa em coma


Por fim, é sempre bom buscarmos instrução e alento nas palavras de Chico e Emmanuel, que falaram sobre os espíritos dos pacientes em coma:


Pergunta: O que se passa com os espíritos encarnados cujos corpos ficam meses, e até mesmo anos, em estado vegetativo (coma)?


Resposta: Seu estado será de acordo com sua situação mental. Há casos em que o espírito permanece como aprisionado ao corpo, dele não se afastando até que permita receber auxílio dos Benfeitores espirituais. São Pessoas, em geral, muito apegadas à vida material e que não se conformam com a situação. Em outros casos, os espíritos, apesar de manterem uma ligação com o corpo físico, por intermédio do perispírito, dispõem de uma relativa liberdade. Em muitas ocasiões, pessoas saídas do coma descrevem as paisagens e os contatos com seres que os precederam na passagem para a Vida Espiritual. É comum que após essas experiências elas passem a ver a vida com novos olhos, reavaliando seus valores íntimos. Em qualquer das circunstâncias, o Plano Espiritual sempre estende seus esforços na tentativa de auxílio. Daí a importância da prece, do equilíbrio, da palavra amiga e fraterna, da transmissão de paz, das conversações edificantes para que haja maiores condições ao trabalho do Bem que se direciona, nessas horas, tanto ao enfermo como aos encarnados (familiares e médicos)”.[18]


[1] Sobre o tema da reencarnação e seus diferentes objetivos, recomenda-se a leitura da obra de Evelyn Freire de Carvalho, A Imortalidade da Alma, Série Conhecendo o Espiritismo. Ed. Letra Espírita, 2020, pp. 17-19 (O que é reencarnação e qual sua finalidade?) e pp. 26-30 (Quais os tipos de reencarnação?).

[2] A autora não é profissional da saúde, mas buscou informações médicas sobre as diferenças entre esses dois estados nas páginas <https://www.nhs.uk/conditions/coma/> e <https://www.nhs.uk/conditions/brain-death/>.


[3] https://www.nytimes.com/2019/04/24/world/middleeast/woman-coma-27-years.html.

[4] Sobre o assunto, esclarecem Chico Xavier e Emmanuel, com base nos ensinamentos de André Luiz:


Pergunta: O que a Doutrina Espírita pode falar a respeito de doação de órgãos, sabendo-se que o desligamento total do espírito pode às vezes ocorrer em até 24 horas e que, para a medicina, o tempo é muito importante para a eficácia dos transplantes? O Espiritismo é contra ou a favor dos transplantes?


Resposta: O benefício daqueles que necessitam consiste numa das maiores recompensas para o espírito. Desse modo, a Doutrina Espírita vê com bons olhos a doação de órgãos. Mesmo que a separação entre o espírito e o corpo não se tenha completado, a Espiritualidade dispõe de recursos para impedir impressões penosas e sofrimentos aos doadores. A doação de órgãos não é contrária às Leis da Natureza, porque beneficia, além disso, é uma oportunidade para que se desenvolvam os conhecimentos científicos, colocando-os a serviço de vários necessitados” (Francisco Cândido Xavier, com a colaboração do espírito EMMANUEL. Plantão de Respostas Pinga Fogo II, disponível em <http://www.espiritismobrasil.com/e-books/Chico_Xavier_livros/Chico_Xavier_-_Livro_382_-_Ano_1995_-_Plantao_de_Respostas_Pinga_Fogo_II.pdf>). [5] Na literatura espírita, encontram-se diversos relatos de espíritos deformados por danos sofridos em vida – por exemplo, consumo de drogas, aborto – ou, até mesmo, danos sofridos após a morte, no caso de perseguição por inimigos no umbral. Nesses casos, é possível que, em uma próxima encarnação, o corpo seja afetado pelos danos do espírito – algumas vezes, esse é um passo necessário para a cura do espírito. [6] Para aprofundamento, veja-se o Livro dos Espíritos, em especial, as respostas às Questões 400 a 406. [7] No romance espírita Alguém Chorou por Mim, de Fernando do Ó, acompanhamos a intensa atividade espiritual de uma família durante o sono, em prol do bem. [8] Com relação aos encontros entre encarnados, vejam-se as respostas às Questões 413 a 418 do Livro dos Espíritos. [9] “Quando encarnados, na Crosta, não temos bastante consciência dos serviços realizados durante o sono físico; contudo, esses trabalhos são inexprimíveis e imensos. Se todos os homens prezassem seriamente o valor da preparação espiritual, diante de semelhante gênero de tarefa, certo efetuariam as conquistas mais brilhantes, nos domínios psíquicos, ainda mesmo quando ligados aos envoltórios inferiores. Infelizmente, porém, a maioria se vale, inconscientemente, do repouso noturno para sair à caça de emoções frívolas ou menos dignas. Relaxam-se as defesas próprias, e certos impulsos, longamente sopitados durante a vigília, extravasam em todas as direções, por falta de educação espiritual, verdadeiramente sentida e vivida” (Francisco Cândido Xavier, pelo espírito ANDRÉ LUIZ, Missionários da Luz, Ed. FEB, 1945, pp. 82-83). [10] https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19524464. [11] Grifou-se. [12] https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/986753. [13] Conforme resposta à Questão 403 do Livro dos Espíritos. [14] Wilson Frungilo Jr., Vinte Dias em Coma, Ed. IDE, 2011. [15] Além da eutanásia ativa, caracterizada pelo ato intencional de proporcionar a alguém uma morte indolor para aliviar o sofrimento causado por uma doença incurável ou dolorosa, também existe a eutanásia passiva: omitir ou suspender arbitrariamente condutas que ainda seriam indicadas e que poderiam trazer benefícios ao paciente; a ortotanásia: condutas médicas restritivas, lastradas em critérios médicos e científicos de indicação ou não-indicação, optando-se conscienciosamente pela abstenção de algo que serviria somente para prolongar a vida artificialmente, sem proporcionar melhora à existência terminal; e a distanásia: morte decorrente de um abuso na utilização dos recursos médicos, mesmo quando flagrantemente infrutíferos para o paciente, de maneira desproporcional, impingindo-lhe maior sofrimento ao identificar, sem reverter, o processo de morrer já em curso, como definidos pela Dra. Ewalda von Rosen Seeling Stahlke em <https://sistemas.cfm.org.br/normas/visualizar/pareceres/PR/2010/2285>. [16] RESOLUÇÃO CFM Nº 1.805/2006. Disponível em:

<http://www.portalmedico.org.br/resolucoes/cfm/2006/1805_2006.htm>. [17] Julio Peres, O indivíduo em estado vegetativo pode estar consciente? Disponível em <http://www.amebrasil.org.br/html/outras_veg.html>. [18] Francisco Cândido Xavier, com a colaboração do espírito EMMANUEL. Plantão de Respostas Pinga Fogo II, disponível em <http://www.espiritismobrasil.com/e-books/Chico_Xavier_livros/Chico_Xavier_-_Livro_382_-_Ano_1995_-Plantao_de_Respostas_Pinga_Fogo_II.pdf> (grifou-se).

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