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Feminismo e Espiritismo: um diálogo possível e necessário

Atualizado: 7 de Jul de 2019



Yasmin Pires

Com a Doutrina Espírita, a igualdade da mulher não é mais uma simples teoria especulativa; já não é uma concessão da força à fraqueza, mas um direito fundado nas próprias leis da Natureza. Dando a conhecer essas leis, o Espiritismo abre a era da emancipação legal da mulher, como abre a da igualdade e da fraternidade. (KARDEC, Revista Espírita, Janeiro 1866, p. 18)

Sabemos que no planejamento de uma nova reencarnação, nos propomos a vir à Terra em corpos à priori femininos ou masculinos, conforme as nossas necessidades evolutivas. Isto quer dizer que, a rigor, tomar para si uma perspectiva que defenda a supremacia do homem ou da mulher na sociedade não faz sentido, já que tivemos experiências em ambos os corpos, animados por ambos os gêneros. “Feminino” e “masculino”, neste caso, devem ser entendidos como polaridades energéticas que coexistem dentro de um mesmo espírito e, que na culminância do processo evolutivo, se veem em pleno equilíbrio, conforme nos explica Divaldo Franco em Sexo e Consciência.

Todavia, no formato em que a humanidade terrestre se encontra, observamos um amplo panorama histórico de desigualdade entre homens e mulheres, seja no que diz respeito aos seus direitos legais, ao jugo distinto que recai sobre cada um, à parcela de representatividade que têm, ao prestígio e respeito atribuído diferentemente a eles, entre outros fatores.

Em vista destas circunstâncias, emerge o feminismo como luta política para que os direitos das mulheres sejam garantidos tal e qual o dos homens. É importante frisar que aqui se defende uma postura de igualdade, e não de subversão da atual estrutura, que pretende colocar a mulher como superior ao homem (isso é, em geral, difundido como femismo, e não feminismo).

Posto isto, de que forma o feminismo e o espiritismo confluem?

Em sua empreitada missionária de codificação da Doutrina Espírita, Allan Kardec sempre se mostrou muito prudente nas relações que estabeleceu entre a política e o Espiritismo, se mantendo longe de possíveis aproximações com os jogos de poder pertinentes ao partidarismo, ao vil interesse dos homens pelo poder e ao Estado. Por outro lado, devemos considerar que existe uma concepção de política mais abrangente, que tem implicação no âmbito das nossas relações humanas em sociedade e no seu entorno.

Neste sentido, falar de feminismo e espiritismo não é fazer uma aproximação de viés partidário, que se afinize com vertentes de direita ou de esquerda, e sim adentrar o amplo campo de debate dos direitos humanos, o qual concerne a toda e qualquer perspectiva política. Isto quer dizer que este diálogo se funda na lei de amor e de caridade do Cristo, que deve suscitar em nós a empatia e a luta pelo fim da opressão feminina.

Para fazer com que a dinâmica deste sistema de opressão seja mais clara, mencionemos alguns fatos: na América Latina, as mulheres recebem 25,6% a menos do que os homens, trabalhando nos mesmos cargos, conforme pesquisa da Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe, datada de 2016. Ainda no ano passado, o Fórum Brasileiro de Segurança pública estimou que uma mulher é estuprada a cada onze minutos no Brasil. Além disso, a organização ActionAid constatou neste mesmo período que 86% das brasileiras já foram assediadas nas ruas. E essas são só algumas das inúmeras formas que o machismo assume. De modo mais sutil e à parte das estatísticas, ele está velado em nossa cultura, em nossas “piadas”, nos olhares, nas cobranças, no menosprezo e no severo julgamento às mulheres.

Em uma abordagem histórica, podemos nos remeter também ao modo com o qual a mulher já foi impedida de votar ou mesmo estudar. Na Revista Espírita de janeiro de 1866, Kardec relata que naquela época, era discutido se conceder um diploma de bacharel a uma mulher era algo prudente ou se era uma “monstruosa anomalia”. Assim, o codificador do espiritismo nos afirma que tais direitos da mulher só puderam começar a serem requisitados a partir do momento em que se constatou que elas eram portadoras de uma alma, e não meros instrumentos de prazer do homem.

Mas sob a perspectiva espírita, podemos nos indagar: por que isto ocorre? Ora, porque na verdade, a desigualdade de gênero é senão uma manifestação de nossas falhas morais. O egoísmo e a arrogância são como frestas em nossa formação moral onde os preconceitos se instalam. E é por isso que a humanidade viu emergir várias estruturas de opressão no seu curso, seja entre colonizadores e colonizados, brancos e negros, trabalhadores e proletariados, e, também, entre homens e mulheres.

Dito isto, Joanna de Ângelis, que em uma de suas encarnações foi Juana Inés de la Cruz – tida como a primeira feminista da América Latina – em seu texto Feminismo, publicado através de Divaldo Franco em Encontro com a Paz e a Saúde, nos chama atenção para o modo com que as mulheres devem investir na demanda e na conquista de seus direitos. É preciso que estejamos sintonizadas com a ânsia de nos equipararmos aos homens nos direitos adquiridos e no respeito de sua liberdade, sem que isto represente ceder aos desvarios da vida mundana ou ser irresponsável com aqueles que nos cercam. Não devemos, portanto, nos perder nas voragens da promiscuidade, intoxicação química, alcoolismo, ou individualismo exacerbado, atitudes estas que culturalmente reforçam o ideal masculino.

Simultaneamente, isto não quer dizer que estamos em condições de julgar como as diversas vertentes do feminismo empreendem suas lutas, pois cada ser vive o seu momento evolutivo na liberdade de conceber seu mundo e suas ações da maneira que acha prudente. Às espíritas feministas e aos espíritas pró-feminismo, porém, cabe analisar as pautas do movimento social sob as máximas cristãs de amor e caridade, evitando os extremismos.

Por fim, no horizonte de resolução deste problema e em tempos de transição da Terra de um mundo de provas e expiações para local de regeneração, devemos considerar que a luz da palavra de Jesus veio para influenciar a sociedade, modificando-a em prol de seu melhoramento. Enquanto isso, é pertinente que nos engajemos naquilo que está ao nosso alcance, construindo e edificando meios de promover tal transformação social.

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#Feminismo