• Letra Espírita

Religiosidade independe de sexualidade



Existem mais coisas entre a heteronormatividade e o amor genuíno do que supõe a nossa vã filosofia. Parafraseando um dos ditados mais populares para se concluir que não se conhece todas as verdades do Universo, percebemos que a sexualidade humana é um void quase tão infinito quanto nosso espírito imortal.

Ao obter a resposta de que nós, espíritos, não temos sexo, Allan Kardec logo questiona, em “O Livro dos Espíritos”[1], pergunta 201, Parte Segunda, Capítulo IV: “Em nova existência, pode o Espírito que animou o corpo de um homem animar o de uma mulher e vice-versa?”, recebendo a seguinte resposta dos espíritos da Codificação: “Decerto; são os mesmos os Espíritos que animam os homens e as mulheres”. Aqui, Allan Kardec restringe-se ao sexo biológico, que está inerente tão somente à matéria. Pesquisando-se um pouco, chegaremos à conclusão de que a lei de atração magnética no nosso planeta é regida por duas polaridades: ativas e passivas e, por isso, o sexo biológico também segue esta regra desde muito antes da criação do espírito através da libido, como nos diz Gibson Bastos, psicólogo carioca e espírita, no livro “Além do Rosa e do Azul”[2]: “No reino mineral, (a libido) garante a interação atômica; no reino vegetal, se expressa através da polarização sexual (…); no reino animal, apresenta-se como instinto sexual, expressa-se morfologicamente e funcionalmente nas formas de macho e fêmea; no reino hominal, (…) conta com os recursos que o ser imortal possui: a razão, o sentimento e uma noção de moral”. Portanto, a sexualidade humana vai além da sua função biológica. A ciência atual considera que ela possui quatro componentes: sexo biológico – percepção dos órgão genitais que o indivíduo possui; identidade de gênero – identificação (ou não) psicológica do indivíduo com seu sexo biológico; papel sexual – adesão (ou não) às normais estabelecidas socialmente para cada sexo biológico; por fim, orientação sexual – atração afetivo-sexual de um indivíduo por outro de sexo diferente ou igual. Este último, subdivide-se em heterossexual (atração pelo sexo oposto), homossexual (atração pelo mesmo sexo) e bissexual (atração pelos dois sexos). Como podemos inferir, existem condicionamentos que vão além da expressão morfológica para a expressão da sexualidade no ser humano, segundo André Luiz, no livro “Ação e Reação” (apud BASTOS, 2008, p. 21), “(…) o sexo, na essência, é a soma das qualidades passivas ou positivas do campo mental do ser (...)”, assim a sexualidade é inerente ao espírito, não à matéria.

Nas obras da Codificação, Allan Kardec não abordou o tema, porém, há inúmeras obras complementares que tratam da sexualidade humana e todas às quais temos sido expostos discorrem o assunto da mesma forma: como vimos anteriormente, o espírito pode transitar entre uma e outra polaridade biológica e energética neste planeta em diversas encarnações. Suponhamos, então, que por inúmeras vezes seguidas um espírito reencarna na polaridade feminina e numa próxima encarnação, por necessidade de suas provas[3], o ser necessite reencarnar na polaridade masculina. Este trará em suas tendências, muito provavelmente e por questões de hábito, as influências da polaridade feminina que poderá, então, definir sua sexualidade. Desta forma, como espírito imortal, nós, homens e mulheres, possuímos percentual que caracteriza ambos os sexos masculino e feminino, tendendo mais para um ou outro conforme nossas experiências encarnatórias através do milênios. É o que nos informa o benfeitor Emmanuel, em “Vida e Sexo”[4], capítulo 21: “O homem e a mulher serão, desse modo, de maneira respectiva, acentuadamente masculino ou acentuadamente feminina, sem especificação psicológica absoluta. A face disso, a individualidade em trânsito, da experiência feminina para masculina ou vice-versa, ao enxergar o casulo físico, demonstrará fatalmente os traços da feminilidade em que terá estagiado por muitos séculos, em que pese ao corpo de formação masculina que o segregue, verificando-se análogo processo em referência à mulher nas mesmas circunstâncias”. Contudo, é forçoso lembrar que esta é apenas uma tendência “(…) o que não assegura possibilidades de comportamento íntimo normal para todos, segundo a conceituação de normalidade que a maioria dos homens estabeleceu para o meio social”, conforme esclarece André Luiz em “Sexo e Destino” (apud BASTOS, 2008, p. 24). Ainda, segundo o espírito Ramatis, conforme entrevista publicada pelo Letra Espírita[5] em junho de 2017, a homossexualidade pode constituir prova para um espírito, mesmo que não traga as tendências da polaridade masculina ou feminina quando reencarna: “Considerando-se nada existir com propósito nocivo, fescenino, imoral ou anormal, as tendências homossexuais são resultantes da técnica da própria atividade do espírito imortal, através da matéria educativa. Elas situam o ser numa faixa de prova ou de novas experiências, para despertar-lhe e desenvolver-lhe novos ensinamentos sobre a finalidade gloriosa e a felicidade da individualidade eterna. Não se trata de um equívoco da criação, porquanto, não há erro nela, apenas experimento, obrigando a novas aquisições, melhores para as manifestações da vida”.


Conforme podemos perceber, todas as manifestações da sexualidade humana se tornam naturais à luz da Doutrina Espírita que nos esclarece que elas fazem parte do processo evolutivo do ser e que, toda e qualquer tentativa de se ditar o que é normal parte da convenção adotada pela sociedade. Em referência à heteronormatividade, esta convenção é causadora de muitos conflitos internos para quem não se enquadra na “normalidade”. A raiz do preconceito encontra-se, principalmente, na suposição de que tod@ homossexual ou bissexual é um ser promíscuo e, portanto, “pecaminoso”. Porém, basta tirar alguns minutos para observar a sociedade e perceberemos que a promiscuidade também está presente no comportamento de seres heterossexuais. Com relação ao impulso sexual, em qualquer manifestação de orientação sexual, é a libido a responsável por movimentar este impulso, sendo energia criadora, no aspecto sexual ou não. Aliada ao instinto, em qualquer ser humano, pode levar a desastrosos comportamentos. O exercício de tod@s nós é sublimar esta força criadora aliando-a ao amor, conforme orienta Joanna de Ângelis em “Amor, Imbatível Amor”[6]: “A libido, sob os seus impulsos, como força criadora, não produz tormento, não exige satisfação imediata, irradiando-se, também, como vibração envolvente, imaterial, profundamente psíquica e emocional. Quando o sexo se impõe sem o amor, a sua passagem é rápida, frustrante, insaciável...” Sublimar a libido, portanto, não significa abster-se do intercurso sexual, em qualquer condição de sexualidade manifestada, mas expargí-la com amor, racionalizando o instinto bruto. À luz do Espiritismo, sendo assim, percebemos que o sexo é “desbestializado”, é natural em qualquer condição sexual, porém, a geração de débitos perante as leis divinas e, logo, a consciência de cada um, é devida ao comportamento adotado por nós diante da nossa sexualidade. A irresponsabilidade, a promiscuidade, a sobreposição da sensação da matéria sobre a razão e os sentimentos inerentes ao espírito, a falta de moralidade, são alguns componentes que tornam o ato sexual “condenável” tanto para heterossexuais quanto homo ou bissexuais.

Constatamos, desta forma, que nossa sexualidade não pode ser impeditivo de sermos tarefeiros da Seara do Cristo, como sugerem muit@s irm@s em centros espíritas, já que ela é inerente ao espírito imortal, é natural e não define nosso caráter, mas o modo como a experimentamos (seja hetero, homo, bissexual), sim. Ao contrário, como espíritas devemos receber a tod@s que desejam contribuir para o adiantamento de nossa casa planetária e, portanto, da nossa própria elevação espiritual através dos trabalhos de caridade e amor. Referindo-me à minha própria particularidade, levei muitos anos para superar a culpa que irm@s fratern@s da Doutrina acabaram por incutir em mim através de crenças limitantes e perdi muito tempo achando que não poderia contribuir para a causa do Cristo. Ledo engano! Religiosidade independe de sexualidade. Esta é a conclusão a que chegamos. Por isso, man@, não se deixe ficar para trás. Aceite-se, seja como é buscando ser sempre melhor moralmente e espiritualmente, trabalha no amor, encontre seu espaço na casa de oração com que mais se afiniza e mãos à obra! Irm@s dirigentes, jamais se esqueçam de que não somos julgadores de outrem, mas de nós mesm@s. Dêem espaço para que tod@s, indistintamente, tenham oportunidade de contribuir no bem. Olhem para aquel@ que se dispõe ao trabalho como realmente são: seres humanos, sem rótulos. A tod@s, vale o lembrete: usemos da nossa impulsão sexual e criadora em favor d@ próxim@, sejamos nós hétero, homo, bi, sem hipocrisia e sem nos escondermos, reconhecendo nossas sombras (nossas chagas morais) e procurando trazê-las para luz. Devemos tod@s lembrar que o projeto para Terra Regenerada é do Cristo, para Ele trabalhamos, em nome Dele servimos. Ele, junto à Fonte Criadora de toda vida, nos convida a tod@s ao trabalho. Então, man@, a tarefa na Seara do Cristo também é sua.

[1] KARDEC, Allan. “O Livros dos Espíritos”. Tradução de Guillon Ribeiro – 87ª ed. – Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2006.

[2] BASTOS, Gibson. “Além do Rosa e do Azul – Recortes Terapêuticos sobre Homossexualidade à Luz da Doutrina Espírita”. 2ª ed. – Rio de Janeiro: CELD, 2008.

[3] Referência 1. Parte Segunda, Capítulo IV, pergunta 202.

[4] EMMANUEL; XAVIER, Francisco Cândido. “Vida e Sexo”. 1ª ed – Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1970.

[5] Fonte: <https://www.letraespirita.blog.br/single-post/ramatisehomossexualidade> acessado em 02/04/2018 às 11h42min.

[6] DE ÂNGELIS, Joanna; FRANCO, Divaldo. “Amor, Imbatível Amor”. Salvador: LEAL, 1998.

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