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O Espiritismo é Livre!


Rafaela Paes de Campos


Como bem se recordam aqueles que adentram às sendas do estudo da Doutrina Espírita, as comunicações dos Espíritos iniciaram-se de forma difusa, ganhando com o tempo o interesse e metodologia de Allan Kardec, com o auxílio de médiuns espalhados pelo mundo todo, resultando na Codificação que hoje serve de base aos chamados Espíritas! Observe que não houve uma centralização de trabalhos, dando a cada médium a oportunidade de exercer sua faculdade e, com a confrontação das respostas oferecidas pela comunicação recebida, perceberam-se as suas similaridades então traduzidas no Pentateuco Kardequiano.


Entretanto, com o passar do tempo, parece que houve um esquecimento coletivo dos adeptos à Doutrina a respeito do caráter científico e filosófico que a observação e experimentação variada proporcionam para a vinda e compreensão das ideias que são, até hoje, novas! É o que nos traz a Introdução de “O Livro dos Espíritos” quando menciona que:


Acrescentemos que o estudo de uma doutrina, como é o caso da Doutrina Espírita, que subitamente nos lança numa ordem de coisas tão nova e grandiosa, só pode ser feito de maneira proveitosa por homens sérios, perseverantes, isentos de ideias preconcebidas e impulsionados por um firme e sincero propósito de alcançar um resultado. (KARDEC, 2018, p. 26).


O Espiritismo demanda estudo, e até por isso podemos compreender os motivos que levam a Doutrina a contar com uma literatura tão vasta e ser, o Espírita, um leitor quase compulsivo. É preciso! As ideias apresentadas pelos Espíritos são novas e, para tudo que é novo, deve haver aprofundamento.


Assim como nos primórdios dessa que hoje nos serve como religião, a diversidade de ideias segue sendo de suma importância para que, o que já não é tão novo, siga se renovando! Tendo em vista que um dos pilares do Espiritismo é o exercício da fé raciocinada, deve haver constante renovação das premissas apresentadas no século XIX, uma vez que a vida e as suas entrelinhas estão em constante evolução, uma das Leis básicas, inclusive!


Contudo, o avanço do tempo parece ter trazido consigo um nítido engessamento da liberdade exercida e pregada como importante por aquele que trouxe à materialidade o Espiritismo. No livro “Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo”, o autor Paulo Henrique Figueiredo explica essa constatação:


A característica fundamental do Espiritismo proposto por Allan Kardec está na universalidade do ensino dos Espíritos. Para que ele ocorra, o movimento espírita precisa ser estabelecido em milhares de pequenos grupos, agindo de forma independente, dialogando com os Espíritos e transmitindo aos demais os resultados. (FIGUEIREDO, 2019, p. 643).


Há, sim, milhares de pequenos grupos traduzidos nas Casas Espíritas espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. Não obstante, nas entrelinhas dessas pequenas células há um engessamento do que se deve seguir, ler e consumir. Imaginemos a seguinte situação hipotética: se a literatura clássica brasileira fosse restrita a Machado de Assis, Mário de Andrade, João Guimarães Rosa e Monteiro Lobato, jamais teríamos conhecido a poesia de Cecília Meireles, nem Mário Quintana ou Jorge Amado, muito menos a ousadia de Nelson Rodrigues e Clarice Lispector.


O que acima é analogia, ocorre hoje no meio Espírita, onde há uma tendência inexplicável à seleção do que é confiável, do que deve ser lido ou não. Não há orientação da Espiritualidade dizendo que deve ser dessa forma. Muito pelo contrário: A Revista Espírita de Fevereiro de 1859 adverte que a ciência espírita exige uma grande experiência que só se adquire, como em todas as ciências filosóficas ou não, através de um estudo longo, assíduo e perseverante, e por numerosas observações(KARDEC, 2016, p. 46).


Se apenas os médiuns/escritores “clássicos” são confiáveis, assim como os “eleitos” após eles, muito do que hoje é lido dentro da literatura Espírita jamais teria chegado ao conhecimento do público. E esses novos livros têm sim uma riqueza imensurável de conhecimento, mas são preteridos pelo meio onde deveriam ser acolhidos. Se o conhecimento se renova com a evolução da sociedade, por que dar credibilidade apenas a um grupo restrito? Se o estudo é a regra da Doutrina, e se as comunicações dos Espíritos não se restringem a poucos, de onde nasceu a premissa de que “esse pode, esse não pode”?


Com o máximo respeito que o Espiritismo guarda com relação a todas as religiões, o que se vê nas entrelinhas do movimento Espírita (e não da Doutrina, pois são bem diversos) é uma tentativa já conhecida de impor medo e regras que não encontram respaldo nos pilares dessa que é a nossa religião.


O esquecimento da teoria original de Allan Kardec não foi natural. Além do quadro degenerativo do contexto experimental originalmente vivenciado e estabelecido como basilar para o desenvolvimento da Doutrina Espírita, ocorreram desvios e conceitos pertencentes a doutrinas divergentes e até incompatíveis [...]. Chegando ao meio espírita, logo os frequentadores aprendem a abandonar os termos que costumavam utilizar, como céu, inferno, demônios, pecado, bênçãos, missa, e passam a usar novas palavras, respectivamente: mundo espiritual, trevas, obsessores, imperfeição, passe, palestra evangélica. Mas, apesar do novo vocabulário, os significados continuam a reger os pensamentos. (FIGUEIREDO, 2019, p. 536).

Essa tendência pode ser bem observada aqui mesmo, onde você está lendo este artigo. Os assuntos rotineiros que trazem afago às crenças preestabelecidas são bem recepcionados. Porém, quando um assunto da atualidade é tratado dentro da Doutrina, com as explicações que ela nos força a atualizar (porque essa é a lei), é nítida a confusão. O atual é visto como desnecessário, como supérfluo, como “busca por likes”, devendo o estudo da Doutrina restringir-se a sinos de anjos e àquilo que se quer ler/ouvir.


A sociedade de hoje não é a mesma do século XIX, que se tornou o berço oficial do Espiritismo. Os problemas e discussões são outros e, sim, o Espiritismo deve se ocupar deles, eis que fazem parte da vida cotidiana e da evolução moral de cada um de nós. Mas, pelas entrelinhas do movimento, não devem ser lidos.


Os conceitos do Espiritismo foram, sim, deturpados:

-Reencarnação virou sinônimo de condenação eterna, porque se renasce para pagar erros do passado (esquece-se que é para evoluir também – e principalmente).

-Umbral virou inferno e ameaça (discorde e ouça – “você vai para o Umbral”).

-Ter bons pensamentos e atitudes restringem-se a evitar a influência de demônios; opa, obsessores (e não para que se evolua moralmente).

-Deve-se suportar as situações mais absurdas do ponto de vista humano, porque “ah, se está acontecendo é porque você fez por merecer numa vida passada”.


Onde está a racionalidade instigada por Kardec? Vivências passadas e ditos débitos se sobrepõem ao livre-arbítrio dos que nos causam mal? “O movimento espírita lembra um jardim abandonado pelos seus jardineiros” (FIGUEIREDO, 2019, p. 536). Sim, pois hoje a regra é: “Leia aqui, esta é a regra, não precisa buscar por aprofundamento”.


É possível deduzir, inclusive, que o Espiritismo não cresce como deveria, pois, muitos que já se encontram despertos para essas deturpações pontuais, acabam não se autodenominando Espíritas – ou mesmo deixam de seguir – por espanto, ao verificar que as lições iniciais não vêm sendo respeitadas!


E, não, Kardec não é a Bíblia do Espiritismo, é a base para que o conhecimento siga se desenvolvendo. É o norte para que nós, leitores, escritores e médiuns, percebamos o que é condizente com a Doutrina e o que não é. E essa tarefa cabe ao estudo sério e disciplinado, não a algumas pessoas que ditam o certo e o errado. É ao crivo de quem estuda o Espiritismo (e que por isso deve ter a liberdade de ler o que lhe aprouver) que cabe compreender o que é sério e o que não é, o que é aproveitável e o que não é.


Quem é o maior modelo e guia da Humanidade? Jesus! Então, observe e reflita (não só acredite):


Jesus representou na moral autônoma sua revolução moral, ensinando a responsabilidade moral pelas escolhas, proporcional ao entendimento, superando assim a heteronomia presente na interpretação dos sacerdotes às escrituras. O Espiritismo explica, à luz de seus princípios e da psicologia espiritualista, essa boa nova. (FIGUEIREDO, 2019, p. 539-540, grifo nosso).


Perseguimos, até os dias atuais (e ainda por muito tempo), os ensinamentos de um homem que nos ensinou questões morais extremamente profundas, e das quais não chegamos nem perto de praticar, e que fez isso sem instituição alguma que o representava ou da qual era Ele o representante! Jesus era autônomo e deixou bastante claro o que ensinou, mas nós buscamos os que interpretam as suas falas, num claro movimento de erro; eis que homens são falhos.


Lembrem-se que a ação dos Espíritos promotores da regeneração da humanidade ocorre em todo planeta, reforçando os focos de luz daqueles que almejam difundir a veracidade e espalhar os benefícios da caridade desinteressada (FIGUEIREDO, 2019, p. 535).


Aliás, a situação pandêmica da atualidade nos mostrou bem isso: Quando os templos foram fechados, e a sua fé precisou ser exercida e semeada na sua particularidade, é bem possível que tenha percebido que os ditos representantes não são assim tão necessários, já que que Deus vive dentro de cada um de nós.


O Reino de Deus não é deste mundo, mas tem uma bela amostra dele dentro daqueles que são seus filhos. Permita que Ele brilhe em sua forma mais pura! O Reino de Deus também não á para poucos escolhidos, mas para todos que buscam a compreensão da grandiosidade desse amor, que não admite muros e nem censuras veladas.


Busque o conhecimento, leia, reflita, raciocine sobre o lê. Siga a recomendação da Espiritualidade!



REFERÊNCIAS


FIGUEIREDO, Paulo Henrique de. Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo. São Paulo: Fundação Espírita André Luiz, 2019.


KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 23ª reimp. Capivari: Editora Eme, 2018.


KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos, ano V: 1859, tradução de Julio Abreu Filho. Catanduva: Editora Edicel, 2016.

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