Até que ponto a tolerância é ética?
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Rafaela Paes de Campos
A tolerância é uma virtude necessária à convivência social, ao respeito à diversidade e à construção de uma sociedade mais justa. Entretanto, há uma questão bastante delicada: até que ponto a tolerância é ética? Em outras palavras: tudo deve ser tolerado, independentemente das consequências, ou é preciso limites para que tal atitude não signifique conivência?
Se olharmos a ética pelo prisma espírita, ela está diretamente ligada ao bem, à responsabilidade moral e à prática da caridade. Por esta razão, não há que se confundir a tolerância com passividade ou com indiferença diante de atos errôneos.
Há sim situações em que tolerar, na prática, permite a perpetuação do mal. Assim nos alerta O Livro dos Espíritos:
“642. Para agradar a Deus e assegurar a sua posição futura, bastará que o homem não pratique o mal?
Não; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem” (KARDEC, 2022, p. 246).
Compreendemos que a ética espírita não se contenta com a neutralidade. Não basta que discordemos do mal e nos afastemos dele; é preciso que façamos o bem e ajamos em prol dele, sempre! Por essa razão, a tolerância só é ética quando se compromete com a promoção do que é justo.
O limite da tolerância mora onde ela passa a ameaçar a dignidade, a justiça ou a caridade! E esse comprometimento com o bem não é privilégio de alguns, mas é uma possibilidade real para todos nós:
“Não há quem não possa fazer o bem. Somente om egoísta nunca encontra ensejo de o praticar. Basta que se esteja em relação com outros homens para que se tenha ocasião de fazer o bem; e não há dia da existência que não ofereça, a quem não se ache cego pelo egoísmo, oportunidade de praticá-lo. Porque, fazer o bem, não consiste, para o homem, apenas em ser caridoso, mas em ser útil, na medida do possível, todas as vezes que o seu concurso venha a ser necessário” (KARDEC, 2022, p. 246).
Portanto, é preciso internalizar que a tolerância não é passiva, mas sim equilibrada. Ser uma pessoa tolerante não é ser alguém que fecha os olhos para os erros ou que compactua com prática que ferem a dignidade humana. É justamente o contrário: é agir com paciência, compreensão e respeito, tendo firmeza diante daquilo que prejudica o próximo.
Podemos dar exemplos práticos: você pode tolerar as falhas naturais de alguém, mas não deve tolerar abusos; pode aceitar que há divergência de opiniões, mas jamais aceitar discursos de ódio; pode compreender limitações, mas não pode justificar atitudes que causem sofrimento.
Devemos fazer o bem, sempre, e isso está muito longe de permanecer inerte diante do sofrimento alheio.
Lembremo-nos que ser tolerante é uma virtude; ser conivente com o mal é uma omissão. É tempo de nos comprometermos com a tolerância equilibrada, que respeita o próximo, mas que não abdica da obrigação de auxiliar na construção de um mundo mais justo, solidário e amoroso.
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Referência:
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Campos dos Goytacazes/RJ: Editora Letra Espírita. 2022.
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