A caridade da escuta ativa
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José Braga Falcão Neto
Existem muitas maneiras de se praticar a caridade. O único requisito necessário, uma condição sem a qual não se pode ser caridoso, é a vontade, a livre vontade em servir ou ajudar. Tanto é assim, que a famosa passagem da Carta do Apóstolo Paulo de Tarso, enviada aos Coríntios e descrita em O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XV, itens 6 e 7, assim descreve o ato de ser caridoso:
“Ainda quando eu falasse todas as línguas dos homens e a língua dos próprios anjos, se eu não tiver caridade, serei como o bronze que soa e um címbalo que retine; ainda quando tivesse o dom de profecia, que penetrasse todos os mistérios, e tivesse perfeita ciência de todas as coisas; ainda quando tivesse toda a fé possível, até o ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, nada sou. E, quando houvesse distribuído os meus bens para alimentar os pobres e houvesse entregado meu corpo para ser queimado, se não tivesse caridade, tudo isso de nada me serviria.
A caridade é paciente; é branda e benfazeja; a caridade não é invejosa; não é temerária, nem precipitada; não se enche de orgulho; não é desdenhosa; não cuida de seus interesses; não se agasta, nem se azeda com coisa alguma; não suspeita mal; não se rejubila com a injustiça, mas se rejubila com a verdade; tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo sofre.
Agora, estas três virtudes: a fé, a esperança e a caridade permanecem; mas, dentre elas, a mais excelente é a caridade. (Paulo, 1ª Epístola aos Coríntios, 13:1 a 7 e 13)” (KARDEC, 2023, p. 210-211).
Dentre essas maneiras de se fazer a caridade, uma muito pouco propagada é a escuta, que se apresenta como de muita necessidade, principalmente, diante do fato de que, nos dias atuais, a tecnologia diminuiu as distâncias, mas isolou os indivíduos, que estão próximos dos aparelhos eletrônicos e distantes em companheirismo.
Escutar alivia, consola, ampara e acolhe. Mas não basta escutar, precisa ser uma escuta ativa. Mas, o que essa escuta ativa?
“Escuta ativa é o nome de uma técnica de comunicação caracterizada pelo escutar com atenção e interesse. Ela compreende ouvir ativamente o interlocutor, evidenciando o interesse genuíno e a compreensão por meio da linguagem corporal, contato visual, reflexão e outros elementos”.
Conjugando o termo escuta ativa com as características da caridade descritas na epistola Pauliana, podemos definir que a verdadeira escuta ativa só acontece quando aliada a outras virtudes como a paciência, a brandura, o bem fazer, a verdade, a doçura; e dissociada de alguns defeitos, tais como inveja, precipitação, orgulho, desdém, injustiça.
Nessa compreensão, pode-se afirmar que nem toda escuta é ativa. E nem toda caridade é válida. Mas a caridade da escuta ativa é uma verdadeira atitude cristã e, por isso, é uma ação espiritual profunda, que não acontece sem impactar a todos os envolvidos.
Não existe caridade em que apenas um é beneficiado. A pura caridade é tão grandiosa que ampara e é amparada. Consola e é consolada. De forma tal que, ao final, não sabemos mais quem é o benfeitor e beneficiado.
Assim todos são beneficiados na pratica da caridade da escuta ativa.
Quem fala encontra amparo, alivia suas dores ao verbalizar, por isso, se constrói ao entender que há solução para sua angústia, e descontrói sua dor ao afastar-se do ódio, da vingança, etc.
Quem escuta ao ser caridoso com o próximo, enxerga melhor a si mesmo, pois ao compreender a dor alheia, reconhece em si o que precisa mudar para não cair na mesma teia. Muitas vezes o outro é nosso melhor espelho. Pois o que se tem dificuldade de admitir em si, quando enxerga-se no outro, passa a cogitar em seu ser.
Importante frisar que a escuta ativa é dissociada do julgar. É ouvir para aliviar. Sem apontar erros simplesmente para criticar, mas fazer o outro entender que erros podem e devem ser reparados, que não podemos ceder aos impulsos da vingança ou ao aprisionamento do ódio ou da mágoa.
Escutar ativamente requer atenção e empatia. Atento é aquele que escuta, inteirando-se do assunto, mostrando ao que fala que sua dor é percebida, que sua experiência serve de aprendizado e que tem importância. Empatia é a caraterística de quem se coloca no lugar do outro; não é fazer pelo outro, mas ajudar no caminhar.
Enfim, escutar é aprender com a experiência do outro. É não precisar sofrer na pele para apreender. Escutar é ouvir para aprender.
Caridade é disponibilidade. Escutar é dispor sua atenção em ajuda. Falar é explicar sua dor em uma forma de se entender melhor.
A excelência da caridade está em não saber quem ajuda ou quem é ajudado. A prática do bem por i só basta para amparar indistintamente. Não importando quem é o benfeitor ou o beneficiário.
Que escutem, quem quiser amparar e ser amparado. Quem tiver ouvidos para ouvir e vontade de evoluir, tenha a certeza de que a caminhada nos ensina que as maiores lições surgem quando não percebemos nem mesmo que somos aprendizes.
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Referências:
1 -KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 61ª edição Campos dos Goytacazes/RJ: Editora Letra Espírita, 2023.
2 – Conceito de. Disponível em: https://conceito.de/escuta-ativa. Acesso em: 15 de setembro de 2025, 13h14.
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