O comodismo de esperar milagres

Carlos Alexandre
Há quem ore pedindo um milagre, quando o maior milagre seria simplesmente levantar-se e caminhar. Muitos esperam que Deus resolva o que o próprio coração se recusa a enfrentar. Esperam que a vida se transforme sem esforço, que a dor cesse sem compreensão, que o caminho se faça sem passos. Mas a Doutrina Espírita nos ensina que o milagre, tal como o imaginamos, não faz parte das Leis Sivinas.
Allan Kardec afirma que os milagres não são suspensões das Leis da Natureza, mas efeitos de causas ainda não conhecidas. Deus não viola Suas Leis para favorecer uns e esquecer outros. Ele nos concede, a todos, o mesmo campo de aprendizado, o mesmo universo de possibilidades, e dentro dele, cada um deve trabalhar pelo próprio crescimento; e que o trabalho é uma Lei da Natureza, e que sem ele o homem permaneceria sempre na infância da inteligência. Assim, quando esperamos milagres, recusamos a Lei do Progresso. Queremos que a vida mude sem que o Espírito amadureça (KARDEC, 2023, p. 170).
Jesus jamais prometeu milagres à sombra da inércia. Cada cura que realizou foi, antes de tudo, um convite ao despertar, um chamado para que o homem se erguesse, confiasse e participasse da própria transformação. Sua ação não anulava o esforço humano, mas o inspirava. A fé que Ele ensinou não é crença passiva, mas movimento da alma em direção à luz. É a força que se revela quando a razão e o coração caminham juntos. A fé que não age, morre, porque toda fé viva se expressa em obras, em renovação, em coragem de recomeçar
O comodismo é um sono da alma. Um repouso enganoso em que o Espírito se refugia na sombra da inércia, chamando de “fé” o medo de agir. É a quietude do ser que confunde resignação com paralisia, paciência com desistência, confiança com dependência.
Nesse estado, o homem ora para que a Providência resolva o que seu livre-arbítrio se recusa a tocar. E assim, adormece diante da própria responsabilidade espiritual, acreditando que a Misericórdia Divina o livrará da Lei de Causa e Efeito (KARDEC, 2023, p. 189).
Mas Deus não cria atalhos para os que se negam ao caminho, como ensinam os Espíritos. Ele é infinitamente justo, e Sua justiça não se manifesta por exceções, mas por oportunidades. Cada dor que surge, cada obstáculo que se apresenta, é uma ocasião para despertar. O Céu não se move à custa da nossa imobilidade, ao contrário, ele se revela através do nosso movimento.
A fé que espera sem agir é uma flor que nunca desabrocha. A fé que trabalha é a semente que rompe a terra, mesmo em meio às pedras, para encontrar a luz. A Providência não envia Anjos para varrer o chão de nossas provas; dá-nos força para suportá-las e sabedoria para delas tirar o bem.
O sofrimento que desejamos evitar é, muitas vezes, o instrumento da cura que pedimos, sendo a encarnação o meio pelo qual o Espírito se aperfeiçoa através das provas. Assim, o que chamamos de dor é, na verdade, um chamado ao progresso; o que chamamos de demora é a oportunidade de aprender a paciência; o que chamamos de fracasso é o treino da humildade (KARDEC, 2022 p. 89).
O comodismo de esperar milagres é, em última instância, a negação da fé raciocinada. Porque crer verdadeiramente em Deus é compreender que Ele já nos concedeu tudo o que necessitamos para transformar a vida: a razão que ilumina, o livre-arbítrio que liberta, o tempo que ensina e a consciência que desperta.
Mas o homem, acostumado a esperar que o Divino resolva o que ele mesmo se recusa a enfrentar, esquece que a fé não é refúgio para a passividade, e sim chama que convoca à ação. Crer, portanto, não é aguardar que o mundo mude; é decidir ser o ponto onde a mudança começa (KARDEC, 2023 p. 80).
Deus não nos criou para a dependência, mas para a comunhão, e nela, ele nos convida a participar da obra, não a apenas contemplá-la. Cada pensamento que elevamos, cada gesto que aperfeiçoamos, é uma forma de cooperar com a própria Criação. É assim que a fé deixa de ser uma esperança distante e se torna força que se manifesta no cotidiano.
A razão é a lâmpada que dissipa as sombras da ignorância; o livre-arbítrio, a ferramenta que molda o destino; o tempo, o campo onde a semente do esforço amadurece; e a consciência, o espelho onde o Divino se reconhece em nós. Quando essas dádivas são compreendidas, o milagre deixa de ser algo que se espera e passa a ser algo que se constrói.
O milagre é nascer de novo em Espírito, é vencer a inércia e descobrir que o Poder Divino age na medida do nosso esforço. Deus não quer servos ajoelhados pedindo o impossível, quer filhos de pé, dispostos a construir o possível (KARDEC, 2023 p. 193).
Há um instante em que o Espírito, exausto de esperar, descobre que o tempo não cura o que o silêncio alimenta. É nesse ponto de lucidez que ele compreende que o Céu nunca esteve acima, distante, mas sempre dentro, à espera de ser percebido. O milagre, então, revela-se não como o rompimento das Leis Divinas, mas com o florescer da alma sob a mesma luz que, desde sempre, o aguardava em silêncio.
Sendo o instante em que o homem se reconhece, quando, em vez de suplicar que a tempestade cesse, aprende a mover-se em harmonia com a chuva. É a arte de transformar a dor em entendimento, o atraso em amadurecimento, o tropeço em caminho.
Quem desperta para essa verdade deixa de implorar por sinais, porque compreende que o próprio despertar é o sinal, a resposta silenciosa que sempre esteve à espera da escuta. O verdadeiro milagre não reside nas circunstâncias, mas no olhar que aprende a ver além delas, não está no que muda fora, mas no modo como passamos a compreender o que permanece dentro.
Milagre é a consciência que se acende, dissolvendo a ilusão da distância entre o humano e o Divino. É o instante em que o Espírito, enfim desperto, reconhece que nada lhe falta, apenas a visão clara de que Deus nunca se ausentou (KARDEC, 2023 p. 23).
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Referências:
1- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª Edição – Campos dos Goytacazes/RJ, 2022. Letra Espírita.
2- KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª Edição. – Campos dos Goytacazes/RJ, 2023. Letra Espírita.
3- KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª Edição. – Campos dos Goytacazes/RJ, 2023. Letra Espírita.
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