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A espiritualidade do humor

há 34 minutos
5 min de leitura

Francislene Magda da Silva


O termo humor, tão presente em nosso cotidiano, pode receber enfoques diversificados, de acordo com sua aplicação e com o contexto no qual estiver inserido.

 

No enfoque do senso comum, observamos a qualificação do humor como bom ou mau. O bom humor, associado à leveza, à descontração, ao olhar aguçado para aquilo que é considerado engraçado, provoca riso e alegria. O mau humor, relacionado à irritabilidade, à sisudez, à tensão ou nervosismo com reduzida disponibilidade para a se conectar ao outro de modo amistoso.

 

Na visão da ciência médica, em especial a psiquiatria, são estudados e tratados os transtornos de humor, dentre os quais se destacam:

 

- A depressão, com a presença persistente da tristeza, retraimento nas relações de modo geral e outros sintomas que impactam a vida do ser podendo gerar prejuízos na sua funcionalidade.

 

- A bipolaridade, na qual há oscilação do humor: ora com a presença da depressão (mencionada brevemente acima), ora a euforia com a presença da alegria exacerbada, há dificuldade no contato com a realidade, pois ações costumam ser caracterizadas pelos excessos e pela impulsividade inclusive com a possibilidade de o indivíduo colocar-se em situações de risco.

 

Na visão da Psicologia Positiva, movimento científico idealizado por Martin Seligman, e que estuda os aspectos positivos do ser humano, das relações e das vivências humanas, o humor é considerado uma força de caráter associado à virtude da transcendência.

 

As virtudes são compreendidas como algo admirado e aprovado socialmente; e a transcendência, “é frequentemente associada ao conceito do divino seja qual for o significado que você lhe atribui como indivíduo” (NIEMIEC E MCGRATH, 2021, p.234).

 

Com relação à força de caráter do humor:

 

“[...] reconhecer o que é divertido numa situação e oferecer esse lado mais leve aos outros. Humor é um importante lubrificante nas interações sociais e pode contribuir para criar espírito de equipe e avançar em direção aos objetivos do grupo. [...] O humor pode servir como um bem maior ao tornar uma situação difícil mais leve ao chamar a atenção para as contradições na vida, sustentar o ânimo frente ao desespero e construir vínculos sociais” (NIEMIEC E MCGRATH, 2021, p.261).

De acordo com a Psicologia Positiva, podemos fazer uso desregulado do humor, superutilizando-o ou subutilizando-o:

 

“Humor em excesso pode fazer você parecer bobo, enquanto a falta severa dessa força pode torná-lo sério demais e entediante. Um uso balanceado de humor (...), embora não seja fácil, é muito desejável. Sem sacrificar a empatia e a sensibilidade cultural, uma brincadeira, réplica rápida, observação ou comentário bem empregados podem oferecer perspectiva nova e diferente, podendo expandir o pensamento [...]” (RASHID e SELIGMAN, 2019, p.318).

 

Do ponto de vista da evolução espiritual, vamos constituindo a nossa singularidade enquanto Espírito Imortal a partir das experiências vividas e da interação com o outro no mundo das relações, destacando-se as interpretações subjetivas que cada um de nós faz destas experiências. Com base nestas interpretações podemos reagir:

 

- De modo irritadiço, sisudo, entristecido, permanecendo no padrão comportamental associado ao mau humor, realizando a subutilização do humor.

 

- Inicialmente de modo incomodado, confuso, passando a buscar o aprendizado inerente à situação vivida, seguindo adiante, reativando a alegria de viver, a leveza, o olhar para o lado bom da vida, realizando o uso balanceado do humor.

 

Todos nós estamos no trânsito evolutivo, neste processo de aprendizado contínuo, ora reagimos com resistência, queixume, intolerância, ora reagimos com compreensão e responsabilidade por restaurar sempre que necessário o equilíbrio de nosso mundo interno com reflexos diretos nos nossos comportamentos e nossas relações. 

 

A alegria de viver é conquista do Espírito a ser realizada ao longo do tempo. Para ampliá-la é necessário identificar como estamos encarando a vida:

 

- Como uma oportunidade de encontros e reencontros, aprendizados e amadurecimento, a partir das experiências positivas e negativas? Como o caminho para o triunfo pessoal, ou seja, para a superação de si mesmo e das próprias mazelas?

 

- Como sofrimento, frustração, insatisfação, com foco na materialidade, e visão atrofiada para os aspectos positivos do processo de viver?  

 

Quando direcionamos o nosso olhar predominantemente para os aspectos negativos, desconsiderando que eles são transitórios, tendemos à irritabilidade, ao pessimismo, gerando dificuldades na nossa convivência, e muitas vezes sem que percebamos, este estado de mau humor intensifica o sofrimento vivido, podendo até mesmo prolongá-lo.

 

Neste contexto, nossa visão permanece reduzida, limitando nossa percepção sobre a totalidade da vida que integra aspectos positivos e negativos; estes primeiros nos passam despercebidos, e assim deixam de nos nutrir e contribuir para a superação das adversidades, o aprendizado e o amadurecimento do Espírito.

 

Quando encaramos a vida como uma oportunidade de triunfar sobre nós mesmos, a cada pequeno passo dado, a cada simples conquista, a alegria se expressa de modo natural.

 

A alegria é uma emoção que nos leva a conectar com o outro e partilhar as experiências de modo leve, descontraído, amoroso, num clima bem-humorado, com espaço para as brincadeiras respeitosas, para olhar para as dificuldades superadas como algo que ficou para trás e até poder rir de si mesmo.

 

Essa forma de encarar a vida gera retroalimentação, amplia a alegria de viver e a confiança na Providência Divina. O humor e a alegria nos conectam ao Divino e transcendente.

 

Na Doutrina Espírita encontramos o exemplo ímpar de Divaldo Pereira Franco (05/05/1927 – 13/05/2025). Dentre tantas atividades e compromissos assumidos nesta encarnação, no campo da oratória espírita, Divaldo expressava de modo natural a alegria de viver e o bom humor, “o nobre conferencista e médium Divaldo Franco, incansável, sempre bem-humorado, elegeu o próximo como meta de amor” (SALERNO, 2014). 

 

Em alguns momentos, relatava vivências desafiadoras e sorria dos aspectos engraçados que identificava nas experiências cotidianas. Esta abordagem trazia leveza no trato dos temas difíceis da trajetória evolutiva do Espírito Imortal, além de favorecer o foco da atenção do público na sua explanação, e assim o aprendizado ocorria com a internalização da mensagem de esperança, alegria e responsabilidade pela própria evolução.

 

Desta forma concluímos que podemos desenvolver o bom humor e a alegria de viver como uma escolha pessoal, ampliando gradativamente as conquistas do Espírito.

 

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Referências:

1- NIEMIEC, Ryan M. e MCGRATH, Robert E.  O poder das 24 forças de caráter. São Paulo, SP. Geniantis e Editora Labrador. 2021.

2- RASHID, Tayyab e Seligman Martin, Psicoterapia Positiva – Manual do Terapeuta. Não encontrei o número da edição. Porto Alegre, RS. ARTMED EDITORA. 2019.

(3- SALERNO, Paulo. Release - Divaldo Franco de volta ao Rio Grande do Sul. Ano 8 - N° 386 - 26 de Outubro de 2014. Disponível em: <https://www.oconsolador.com.br/ano8/386/especial2.html>.  Acesso 24/08/2025

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