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A Paternidade Ausente Sob a Ótica da Doutrina Espírita


Carla Silvério


A questão da paternidade, dentro da Doutrina Espírita, é vista como sendo de grande importância e de fundamental relevo para a formação do Espírito reencarnado através dos laços havidos com seus pais no planejamento reencarnatório para a nova existência que passa a vivenciar.


Segundo as lições contidas em O Livro dos Espíritos, Questão 582 (KARDEC, 2019), os Espíritos nos dizem claramente que a paternidade é verdadeira missão e, ao mesmo tempo, um dever, que diz respeito, mais do que se imagina, à responsabilidade do ser humano em relação ao futuro.


A mesma Questão ainda afirma que Deus colocou o filho sob a tutela de seus pais para que estes o guiem no bom caminho. Deve, pois, todo aquele que experimenta a graça divina da paternidade, exercê-la com responsabilidade, ciente de que os frutos plantados com os filhos serão colhidos mais adiante, pois, se o filho sucumbir por culpa dos pais, estes é que sofrerão as consequências da queda daquele que ficou sob sua guarda nesta encarnação.


Por outro lado, sendo os pais responsáveis, diligentes e exercendo a paternidade voltada para a formação do bom caráter de seus filhos, então não são responsáveis pela queda de sua prole, conforme Questão 583 de O Livro dos Espíritos (KARDEC, 2019). Contudo, não podemos nos esquecer de que, como nos é ensinado ainda na mesma Questão, quanto mais árdua for a experiência da paternidade vivenciada pelos pais com os filhos, maior será a sua missão em direcionar esse Espírito em sua formação dentro da senda do bem, e tanto maior serão os méritos desses pais vitoriosos em desviar seus filhos do mau caminho.


Os pais, ao exercerem a missão-dever de educar seus filhos com responsabilidade, amor e afeto, proporcionam-lhes a oportunidade de crescimento e desenvolvimento intelecto-moral e, principalmente, Espiritual, e é na infância que se forma a personalidade do Ser recém reencarnado (KARDEC, 2019, Questões 383 e 384).


A presença do pai na criação de seu filho é, pois, missão-dever que deve ser cumprida diligentemente (KARDEC, 2019, Questão 208), uma vez que exercem os pais grande influência sobre seus filhos no desenvolvimento de sua educação.


Sabe-se que o planejamento reencarnatório inclui, dentre outras questões, a escolha da família na qual o Espírito irá reencarnar, dentro do que lhe é melhor e mais adequado para as provas e expiações de que necessita para a existência vindoura (KARDEC, 2019, Questão 258), e é em meio aos laços familiares que a reencarnação acontece.


Mas, então, como entender o abandono paterno sob a ótica da Doutrina Espírita?


Como dito, a família na qual o Espírito irá reencarnar é escolhida de antemão, ainda no plano espiritual, mas nem sempre a reencarnação acontece em núcleo familiar onde há afeto e amor. Por vezes, são os laços familiares criados pela sabedoria infinita de Deus por meio da reencarnação a chance de se expiar desavenças passadas e se criarem novos vínculos afetivos, justamente superando dificuldades no convívio, exercitando o perdão mútuo e, assim, evoluírem.


Assim, a escolha daquele que será o pai em sua existência próxima, e com o qual há graves desavenças a serem superadas, possibilita ao Espírito reencarnante maior chance de se apagar as mágoas passadas com o aprendizado do amor e do perdão pela convivência íntima das relações familiares, resultando em sua maior evolução (haja vista optar por ter uma vivência familiar árdua).


Entretanto, nem sempre é possível tal resiliência no âmbito familiar. Por vezes, aquele escolhido para exercer a missão-dever da paternidade ainda se apresenta equivocado em sua vivência material, não se distanciando de seus maus pendores mesmo após a vinda ao mundo material de seus filhos, casos em que, infelizmente, são comuns em pais ausentes e/ou omissos em relação aos filhos.


Quando se observa cenário prejudicial à boa formação dos filhos pelo mau exemplo daquele destinado à paternidade, melhor será ao Espírito em formação que não conviva com seu pai, para não receber deste orientações e direcionamento errôneos, prejudicando sobremaneira a sua evolução. Desta forma, a paternidade ausente pode ser para alguns um grande alívio, e, para outros, um grande pesar.

Sabe-se que a ausência paterna gera grandes e graves reflexos psicológicos na formação dos filhos, e todos os prejuízos sofridos pelo filho abandonado serão suportados pelo pai ausente, ainda que o filho seja resiliente e não se desvie do bom caminho, apesar de suas mazelas familiares.


Todo mal que é gerado ao próximo será cobrado no futuro, assim é a Lei de Causa e Efeito, não necessariamente da mesma forma e na mesma proporção. É certo que o plantio nos é facultativo, mas a colheita do que foi outrora plantado nos é obrigatória, sendo que o livre arbítrio de todos é sempre respeitado.


A escolha do caminho que se segue em cada uma das encarnações pelas quais se passa é exclusivamente do Espírito reencarnado. Assim, deixar de exercer a missão-dever da paternidade quando lhe é dada é opção íntima pelo plantio amargo de um futuro próximo.