O Perdão
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Alan Lira
Refletir em relação ao perdão em uma perspectiva cristã nos condiciona a praticar o Evangelho difundido pelo próprio Jesus. Presente no Pai Nosso, o mais perfeito modelo de prece, tal como define Calligaris (2014, p.99), a clemência pelo perdão é uma maneira de nos doarmos pelos outros, a fim de que possamos ter também a oportunidade de nos redimirmos de nossos erros e nossas faltas, pedindo ao nosso Deus, Pai Clemente, que possa ter conosco a mesma misericórdia que tivermos com nossos irmãos.
Em O Livro dos Espíritos, Kardec (2022, p. 317), na questão 886, é esclarecido pela Espiritualidade que a benevolência, a indulgência e o perdão das ofensas dão o verdadeiro sentido da caridade tal como entendia Jesus, onde “não há caridade sem perdão, nem com o coração tomado de ódio” (KARDEC, 2023, p. 184). Logo podemos compreender que a prática do bem que corrobora com nossa reforma moral abarca ações, muito mais do que apenas palavras.
Murilo Viana, em Orientações de um Preto Velho, nos apresenta o perdão como “um ato de sublime compaixão para consigo mesmo e para com o próximo que falhou com você durante a caminhada” (2024, p. 169). Quando conseguimos perdoar o próximo que cometeu algum deslize conosco, conseguimos nos livrar de pensamentos rancorosos, ou até mesmo de pensamentos vingativos, o que colabora com a nossa caminhada, afinal de contas, seguir nosso caminho sem nenhum entrave ou peso que eventualmente cheguemos a carregar é uma maneira de nos ocuparmos com práticas benevolentes. E quando agimos com compaixão e tolerância com aqueles com quem tivéramos desavenças ou que nos causaram algum malefício, é uma maneira de sermos misericordiosos, visto que os erros que nos atingiram podem ser os mesmos erros que causáramos a alguém, e sequer notáramos.
Ao buscarmos os ensinamentos do Evangelho, conseguimos apontar momentos em que Jesus nos orienta e nos ensina a prática do perdão como ferramenta necessária para nos aproximarmos de Deus.
Em Mateus 5:7, aprendemos que para alcançarmos a misericórdia, é fundamental que sejamos misericordiosos. Que a falha de outrem pode ser a nossa falha, e não nos cabe julgar os erros alheios, pois aqueles erros puderam ou ainda podem ter sido cometidos por nós, mesmo que tenha sido em outras encarnações, as quais não temos recordação.
Em Mateus 6:14-15, a prática do perdão está em uma relação entre dar e receber. Na medida que nos doamos praticando o perdão dos pecados daqueles que cometeram faltas contra nós, nosso Pai Celestial também permite que alcancemos o perdão Dele, construindo assim uma relação de amorosidade tanto no plano material que nos encontramos, quanto no Plano Espiritual, nossa verdadeira morada.
Mateus, no capítulo 18:15, nos apresenta a importância de esclarecermos juntos daqueles que nos cometeram alguma falta, de maneira em particular. Os erros de outrem não precisam ser postos às demais pessoas de maneira que possa constranger nossos irmãos. O perdão não precisa ser um ato para nos glorificarmos perante à sociedade, nem ser uma forma de humilhar para que nos engrandeçamos. Apontar o erro dos outros requereria que fôssemos perfeitos, seres exemplares. Mas, fomos criados ignorantes e, em nossa evolução espiritual, ainda não carregamos conosco a perfeição. Logo, é necessário acolhimento do próximo e não o seu julgamento, mesmo que a confiança seja quebrada, o que nos impediria de mantermos convivência com que nos fizera algum mal.
Ainda no capítulo 18, nos versículos 23-35, Mateus apresenta a Parábola do Credor Incompassivo, onde um senhor piedoso perdoara as dívidas de um servo, livrando tanto ele quanto a esposa e os filhos de serem vendidos e aprisionados; mas, este mesmo servo não perdoara a dívida de seu conservo, que lhe devia um centésimo do que ele devera ao senhor benevolente, lançando seu conservo à prisão. Tal ato fizera com que o senhor entregasse-o aos atormentadores até que lhe pagasse toda a dívida. Assim somos nós com nosso Pai Celestial, que nos perdoa nossos erros, e de tal maneira precisamos perdoar a quem tem débitos conosco, a fim de recebermos a Misericórdia Divina.
É possível encontrarmos diversos ensinamentos que nos conduzem à prática do perdão. Muito mais do que direcionarmos nossas preces à Deus para que possamos ser beneficiados pelo perdão, mesmo com nossas imperfeições e dentro de nossas possibilidades, é necessário mudarmos nosso proceder, revisarmos nossas ações e alinharmo-nos à prática do bem, pois nossos atos são mais valiosos do que palavras que pudermos proferir.
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REFERÊNCIAS
1 – BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: Antigo e Novo Testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. 2. ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.
2 – CALLIGARIS, Rodolfo. O Sermão da montanha. 18ª ed. Brasília: FEB. 2014.
3 – KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Campo dos Goytacazes: Letra Espírita, 2023
4 – KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Gillon Ribeiro. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Editora Letra Espírita, 2022.
5 – VIANA, Murilo. Orientações de um Preto Velho. Pelo Espírito Pai José. Campo dos Goytacazes: Letra Espírita, 2024.
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