Hiperindivualismo x Valores Espirituais
- editoraletraespiri
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Carlos Alexandre
O hiperindividualismo, marca de nosso tempo, ergue-se como uma sombra sutil: a exaltação do eu acima de tudo, a busca incessante por afirmação pessoal, o isolamento travestido de liberdade. É a alma que se fecha em si mesma, esquecendo-se de que sua verdadeira grandeza não está no brilho solitário, mas na luz compartilhada. Ao reduzir os laços de fraternidade, ao enfraquecer os vínculos de solidariedade e amor, esse culto ao próprio eu torna-se barreira ao crescimento espiritual e fonte de inquietações que nunca se saciam.
A Doutrina Espírita, ao contrário, aponta um caminho onde a liberdade é Dom Divino, mas não um convite ao orgulho. O livre-arbítrio não nos foi concedido para que cada qual edifique um trono de vaidade, mas para que, pela experiência, aprendamos a escolher o bem, a construir em nós a consciência desperta que se volta ao próximo. A verdadeira autonomia não é egoísmo refinado: é responsabilidade, é o exercício de uma vontade que se reconhece parte do todo. Aquele que se julga livre apenas para si mesmo acaba prisioneiro do próprio ego; mas aquele que entende a liberdade como serviço encontra na humildade a sua mais alta expressão (KARDEC, 2023, p. 168).
Allan Kardec, com clareza, advertiu que o egoísmo tem sua raiz na importância exagerada que damos à personalidade. É nesse personalismo que nascem as disputas, os melindres, a dificuldade em ouvir, a resistência em cooperar. Enquanto o ser humano se crê centro absoluto, a vida se converte em palco de vaidades. Mas quando aprende a ceder, a servir, a amar, descobre que sua essência floresce não no isolamento, mas na comunhão (KARDEC, 2022, p. 326).
O Evangelho nos recorda que o egoísmo é a chaga da Humanidade, o grande obstáculo à felicidade, porque nega a caridade, que é a lei maior da vida. “Fora da caridade não há salvação”, ensinou Kardec, resumindo em poucas palavras a chave do progresso. Caridade não apenas como gesto material, mas como atitude de benevolência, indulgência e perdão; não apenas como auxílio momentâneo, mas como transformação interior que vê em cada ser humano um irmão em jornada (KARDEC, 2023, p. 130).

Se os corações fossem nutridos por amor mútuo, se a fraternidade fosse cultivada como se cultiva o pão, o mal fugiria diante do bem, assim como a noite se dissipa diante da aurora. Não haveria espaços para a solidão egoísta, porque cada criatura encontraria amparo e esperança no olhar do próximo. A educação moral, por isso, é o grande instrumento de renovação: não apenas instrução, mas cultivo da virtude, disciplina do ego, aprendizagem do amor.
A caridade que o Espiritismo nos propõe vai além do assistencialismo. É justiça, é equidade, é inclusão, é fraternidade aplicada ao cotidiano. É o gesto silencioso, o perdão que não se anuncia, a bondade que não busca testemunhas. É quando o eu cede espaço ao nós, e o Espírito compreende que seu destino não se cumpre em solidão, mas em comunhão amorosa.
O hiperindividualismo, portanto, é um desvio de rota: uma estrada estreita que leva ao vazio. A vida verdadeira pulsa no encontro, na partilha, no movimento em direção ao outro. A liberdade não é separação, mas união; não é fronteira, mas ponte; não é prisão no próprio eu, mas expansão da alma no amor.
O Espiritismo nos convida a esse deslocamento essencial: da vaidade à generosidade, do orgulho à humildade, do isolamento à fraternidade. É nesse movimento que descobrimos a verdadeira autonomia moral, que não se afirma contra os outros, mas com eles, em harmonia. Assim, cada gesto de amor é degrau na escada da evolução, cada renúncia ao ego é passo em direção à luz, cada ato de fraternidade é semente de um mundo novo (KARDEC, 2023, p. 128).
O caminho está traçado: cabe-nos escolher se permaneceremos presos à ilusão do eu absoluto ou se caminharemos para a plenitude do nós, onde a caridade reina como Lei Divina e a vida se revela em sua beleza maior.
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Referências:
1- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª Edição – Campos dos Goytacazes/RJ, 2022. Letra Espírita.
2- KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª Edição. – Campos dos Goytacazes/RJ, 2023. Letra Espírita.
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