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A verdade sobre a transição planetária

Rafaela Paes de Campos


É notório que nos últimos tempos o tema da transição planetária passou a ser recorrente nos discursos espiritualistas, principalmente no Meio Espírita. Entretanto, à medida que o assunto se popularizou, ele também passou a ser alvo de fantasias, simplificações e expectativas que não necessariamente correspondem à realidade. Assim, menciona-se a transição como uma espécie de salto vibracional, uma mudança quase automática, uma seleção de Espíritos que ocorreria, em tese, independentemente da conduta humana. O que ocorre é que isso se distancia da realidade profunda apresentada pela Doutrina Espírita, que sempre preza pela clareza, lógica e coerência.

 

A ideia de transição planetária nasce da compreensão espírita a respeito do progresso dos mundos e dos Espíritos que os habitam. Quando a Codificação nos apresenta a pluralidade dos mundos e sua classificação, ela estabelece um princípio base: o progresso dos mundos está atrelado ao progresso moral e intelectual dos seus habitantes. Muito embora saibamos que o progresso é imparável, ele não ocorre com uma ruptura mágica, tampouco por meio de uma transformação súbita que se concretiza desvinculada da realidade espiritual coletiva. É o que nos ensina O Evangelho Segundo o Espiritismo:

 

Ao mesmo tempo que todos os seres vivos progridem moralmente, progridem materialmente os mundos em que eles habitam. Quem pudesse acompanhar um mundo em suas diferentes fases, desde o instante em que se aglomeraram os primeiros átomos destinados a constituí-lo, vê-lo-ia a percorrer uma escala incessantemente progressiva, mas de degraus imperceptíveis para cada geração, e a oferecer aos seus habitantes uma morada cada vez mais agradável, à medida que eles próprios avançam na senda do progresso. Marcham assim, paralelamente, o progresso do homem, o dos animais, seus auxiliares, o dos vegetais e o da habitação, porquanto nada na Natureza permanece estacionário. Quão grandiosa é essa ideia e digna da majestade do Criador! Quanto, ao contrário, é mesquinha e indigna do seu poder a que concentra a sua solicitude e a sua providencia no imperceptível grão de areia, que é a Terra, e restringe a Humanidade aos poucos homens que a habitam!” (KARDEC, 2023, p. 57).

 

Diante de tal explicação, desmonta-se a ideia de que a Terra atravessaria um portal energético que fosse capaz de promover os seus habitantes sem correspondência moral. A verdade dos fatos é que o progresso é gradual, imperceptível a uma única geração e construído ao longo do tempo por meio de escolhas, experiências, erros e acertos coletivos.

 

Todos sabemos que a Terra se insere na categoria dos mundos de expiações e provas, o que não é uma condenação, mas um diagnóstico. A Humanidade terrestre apresenta notável desenvolvimento intelectual, científico e tecnológico, afastando a ideia de um mundo primitivo. Contudo, tal avanço não foi acompanhado pela moralidade, na mesma proporção:



Que vos direis dos mundos de expiações que já não saibais, pois basta observeis o em que habitais? A superioridade da inteligência, em grande número dos seus habitantes, indica que a Terra não é um mundo primitivo, destinado à encarnação dos Espíritos que acabaram de sair das mãos do Criador. As qualidades inatas que eles trazem consigo constituem a prova de que já viveram e realizaram certo progresso. Mas também os numerosos vícios a que se mostram propensos constituem o índice de grande imperfeição moral. Por isso os colocou Deus num mundo ingrato, para expiarem aí suas faltas, mediante penoso trabalho e misérias da vida, até que hajam merecido ascender a um planeta mais ditoso” (KARDEC, 2023, p. 54).

 

Essa descrição permanece muito atual! A violência, a desigualdade, o uso da inteligência dissociada da ética, o orgulho e a indiferença diante do próximo são indícios cristalinos de que ainda convivemos com profundas imperfeições morais. Se ignorarmos esse fato para anunciar uma transição automática, estaremos negando a própria realidade espiritual do planeta.

 

Essa compreensão é aprofundada por Santo Agostinho, ainda em O Evangelho Segundo o Espiritismo, explicando-nos que os mundos de expiação e provas servem como espaços educativos, muito embora sejam severos, fazendo com que os Espíritos aprendam por meio do confronto entre suas tendências inferiores e as Leis Divinas:

 

A Terra, conseguintemente, oferece um dos tipos de mundos expiatórios, cuja variedade é infinita, mas revelando todos, como caráter comum, o servirem de lugar de exílio para Espíritos rebeles às Leis de Deus. Esses Espíritos têm aí de lutar, ao mesmo tempo, com a perversidade dos homens e com a inclemência da Natureza, duplo e árduo trabalho que simultaneamente desenvolve as qualidades do coração e as da inteligência. É assim que Deus, em sua bondade, faz que o próprio castigo redunde em proveito do progresso do Espírito – Santo Agostinho, Paris, 1862” (KARDEC, 2023, p. 55).

 

Dá-se que a transição não elimina os conflitos, não suprime desafios e, tampouco, suspende a responsabilidade moral. A transição se dá justamente pela superação, ainda que gradual, de tais condições, à medida que os Espíritos deixam de se rebelar às Leis Divinas e passam a vivê-las de forma mais consciente.

 

E justamente, quando Kardec descreve os mundos regeneradores, ele não nos apresenta um cenário idealizado ou isento de dificuldades, mas sim como um estágio intermediário que é resultado direto do avanço coletivo:

 

Os mundos regeneradores servem de transição entre os mundos de expiação e os mundos felizes. A alma penitente encontra neles a calma e o repouso e acaba por depurar-se. Sem dúvida, em tais mundos o homem ainda se acha sujeito às leis que regem a matéria; a Humanidade experimenta as vossas sensações e desejos, mas liberta das paixões desordenadas de que sois escravos, isenta do orgulho que impõe silêncio ao coração, da inveja que a tortura, do ódio que a sufoca. Em todas as frontes, vê-se escrita a palavra amor; perfeita equidade preside às relações sociais, todos reconhecem Deus e tentam caminhar para Ele, cumprindo-lhes as leis” (KARDEC, 2023, p. 56).

 

E segue:

 

Nesses mundos, todavia, ainda não existe a felicidade perfeita, mas a aurora da felicidade. O homem lá é ainda de carne e, por isso, sujeito às vicissitudes de que libertos só se acham os seres completamente desmaterializados. Ainda tem de suportar provas, porém, sem as pungentes angústias da expiação. Comparados à Terra, esses mundos são bastante ditosos e muitos dentre vós se alegrariam de habitá-los, pois que eles representam a calma após a tempestade, a convalescença após a moléstia cruel” (KARDEC, 2023, p. 56).

 

Não há nada em tal descrição que autorize a crença numa regeneração instantânea, coletiva e desvinculada do comportamento humano. Muito pelo contrário! A regeneração é consequência natural de uma Humanidade que consegue alinhar inteligência, sentimento e ação.

 

É necessário desmistificar a transição planetária a fim de resgatar a sua profundidade doutrinária. Isso não significa negar o progresso do planeta, mas entender que ele não ocorre apesar da Humanidade, mas por meio dela. Enquanto violências forem normalizadas, injustiças forem relativizadas e o egoísmo for tratado como um fator inevitável, a Terra seguirá refletindo de forma fidedigna aquilo que os seus habitantes são capazes de produzir.

 

A real transição não se anuncia por datas, previsões ou promessas que nos trazem conforto. Ela se constrói silenciosamente, coletivamente, à medida que as escolhas individuais e sociais reflitam maior responsabilidade, solidariedade e compromisso com as Leis de Deus. Fora disso, qualquer discurso sobre a transição planetária corre o risco de ser apenas uma forma de ilusão espiritual.

 

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Referência:

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Campos dos Goytacazes/RJ: Editora Letra Espírita. 2023.


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