A origem do mal segundo o Espiritismo
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Lívia Couto
A ideia do mal acompanhou a história do pensamento humano desde o seu primórdio. Civilizações antigas, filosofias clássicas e tradições religiosas se debruçaram sobre esse enigma: de onde vem o mal? Para os mesopotâmicos, o mal era frequentemente associado à ação de Espíritos e Demônios que traziam doenças e desgraças, exigindo rituais e oferendas para afastá-los. No Egito Antigo, surgia a figura de Seth, deus associado ao caos e à desordem, cuja oposição a Osíris simbolizava o conflito entre ordem (maat) e desordem (isfet). Entre os hebreus, o mal foi progressivamente relacionado à desobediência humana à Vontade Divina, expresso no relato do Gênesis com a narrativa de Adão, Eva e a expulsão do Éden. Já na Grécia Antiga, filósofos e poetas buscaram explicações menos míticas: Hesíodo descreveu, na Teogonia: a origem dos deuses (2000), a entrada dos males no mundo com o mito de Pandora, enquanto Sócrates e Platão interpretaram o mal como fruto da ignorância e da falta de conhecimento do bem.
Essas diferentes concepções revelam que, desde a Antiguidade, o ser humano procura compreender o mal como um fenômeno ligado ora a forças externas e sobrenaturais, ora às próprias limitações morais e intelectuais.
Surge então uma questão que atravessa séculos de reflexão: por que o mal existe em um mundo criado por um Deus considerado bom, justo e onisciente? É nesse diálogo entre heranças religiosas, reflexões filosóficas e experiências históricas que o Espiritismo oferece uma interpretação singular: não como punição imposta por uma Divindade ou força maligna, mas como consequência do livre-arbítrio e como etapa educativa na jornada de evolução espiritual.
Em O Livro dos Espíritos, (2022, p. 83), a pergunta de número 115 é reveladora: “Dos Espíritos, uns terão sido criados bons e outros maus?”. A resposta dada pelos Espíritos Superiores é categórica: “Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, isto é, sem saber. A cada um deu determinada missão, com o fim de esclarecê-los e de os fazer chegar progressivamente à perfeição, pelo conhecimento da verdade [...]”.
Não há, portanto, Criação Divina do mal ou de seres condenados ao erro eterno. Todos os Espíritos partem do mesmo ponto, com liberdade para construir seus próprios caminhos. O mal, nesse contexto, é fruto do uso equivocado do livre-arbítrio; não uma imposição externa, mas uma escolha.
Essa concepção guarda ressonâncias com a tradição filosófica clássica. Para Platão, como já dito, o mal era ignorância, uma consequência da falta de conhecimento do bem. Na obra Protágoras (2007), ele sugere que ninguém erra voluntariamente, mas por desconhecer as consequências de seus atos. De maneira semelhante, o Espiritismo sustenta que o mal não é absoluto nem essencial, mas contingente: ele existe enquanto o Espírito está em processo de amadurecimento moral. A ignorância, mais do que a maldade deliberada, é a raiz dos desvios. O erro, assim, é parte da jornada, e não um destino final.
Essa leitura espírita também se contrapõe à teologia do medo e da punição, predominante em determinadas épocas da história, especialmente durante a Idade Média cristã ocidental, em que o sofrimento era frequentemente interpretado como Castigo Divino por pecados cometidos. A Doutrina Espírita, ao contrário, compreende o sofrimento não como punição, mas como consequência natural das escolhas feitas e, sobretudo, como ferramenta de crescimento espiritual. Emmanuel, no livro O Consolador (2013), afirmou que o sofrimento é o processo natural de redenção da alma, quando esta se distancia da lei do bem. Há, portanto, uma lógica pedagógica no sofrimento: ele não destrói, educa; não condena, desperta.
Nesse mesmo sentido, O Livro dos Espíritos (2022, p. 244-245), ainda nos explica que o mal moral não é um elemento inscrito na essência da Criação, mas uma consequência da liberdade de escolha concedida ao Espírito. Criados simples e ignorantes, os Espíritos ganham experiência ao vivenciar tanto o bem quanto o mal, desenvolvendo discernimento e responsabilidade. Assim como não compreenderíamos a subida sem a descida, ou a dureza sem a rocha, não poderíamos valorar o bem sem conhecer o mal. As diferentes condições de vida, no tempo, no espaço e nas posições sociais, fazem parte da ordem natural e visam ao progresso. A Lei de Deus é única e universal, mas o grau de responsabilidade de cada ato depende da consciência que o Espírito possui de sua própria conduta. O bem é sempre o bem e o mal é sempre o mal, porém, a responsabilidade moral se intensifica à medida que aumenta a compreensão espiritual.

Logo, o livre-arbítrio é o eixo central da trajetória espiritual e da compreensão do mal segundo o Espiritismo. Ele não é apenas um direito conferido por Deus, mas o ponto de partida da responsabilidade moral. É pela liberdade de escolher que o Espírito pode tanto errar quanto acertar. E é justamente essa liberdade que confere sentido às consequências das ações: cada escolha traz consigo um efeito, não como forma de castigo, mas como oportunidade de aprendizado e reajuste. À medida que amadurece, o Ser Espiritual aprende a utilizar sua liberdade de forma mais consciente e amorosa, passando a escolher o bem não por medo da dor, mas por compreensão e sintonia com as Leis Divinas. O mal, nesse processo, não define o Espírito; apenas revela o estágio evolutivo em que ele se encontra e os desafios que ainda precisa superar.
Contudo, a Doutrina é clara ao afirmar que não basta se abster do mal para trilhar o caminho evolutivo. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo (2023, p. 193), aprendemos que “[...] é necessária uma virtude ativa. Para fazer-se o bem, mister sempre se torna a ação da vontade; para se não praticar o mal, basta as mais das vezes a inércia e a despreocupação”. Isso significa que a verdadeira superação do mal não se dá apenas pela omissão de atos prejudiciais, mas pelo engajamento constante em ações construtivas, capazes de gerar transformação em si mesmo e no mundo ao redor. O livre-arbítrio, assim, não é apenas a liberdade de não ferir, mas sobretudo a liberdade de escolher ajudar, amparar e semear o bem por meio da caridade.
Essa visão encontra eco também em reflexões filosóficas contemporâneas. Hannah Arendt, ao investigar os horrores do século XX, chamou atenção para a chamada “banalidade do mal”, o mal cometido por indivíduos comuns durante a II Guerra Mundial, muitas vezes sem consciência crítica de seus atos. Esse conceito reforça a ideia de que o mal floresce onde há ausência de reflexão, de responsabilidade e de consciência moral, elementos que o Espiritismo, há mais de um século, já identificava como partes fundamentais do progresso espiritual. Para a Doutrina, iluminar a consciência é o primeiro passo para romper com os ciclos de erro, por isso a importância da reforma íntima.
Ao invés de ver o mal como uma sentença ou um castigo externo, o Espiritismo nos propõe compreendê-lo como parte da caminhada da alma em direção à luz. Assim, cada experiência dolorosa, cada tropeço, cada escolha infeliz, pode se converter em degrau de ascensão, desde que acompanhada de arrependimento, esforço sincero e transformação interior. Deus, na visão espírita, não pune: educa. E oferece a cada Espírito o tempo e os meios necessários para sua regeneração.
Ao reconhecermos que o mal que enfrentamos, em nós ou no mundo, é resultado de escolhas passadas e não de Punições Divinas, somos chamados a agir com mais lucidez, compaixão e responsabilidade. O Espiritismo nos convida, portanto, a abandonar o medo do castigo e a abraçar o compromisso com o autoconhecimento, a reforma íntima e o amor ao próximo. Porque o bem não é apenas um destino futuro: é uma construção diária, feita pelas mãos livres de cada Espírito em aprendizado.
Como já dizia Allan Kardec (2022, p. 151) “a maldade não é um estado permanente dos homens; que ela decorre de uma imperfeição temporária e que, assim como a criança se corrige dos seus defeitos, o homem mau reconhecerá um dia seus erros e se tornará bom”.
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Referências:
1- ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. 5. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
2- EMMANUEL (espírito). O Consolador. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 25. ed. Brasília: FEB, 2013.
3- HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Tradução de Jaa Torrano. 5. ed. São Paulo: Iluminuras, 2000.
4- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, tradução de Guillon Ribeiro. Campos dos Goytacazes, RJ: Editora Letra Espírita. 2022.
5- KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Campos dos Goytacazes: RJ: Editora Letra Espírita, 2023.
6- PLATÃO. Protágoras. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 2007.
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