As diversas religiões e seus diálogos com a Espiritualidade
- editoraletraespiri
- há 4 dias
- 5 min de leitura

Alan Lira
Conceber uma definição do que é religião perpassa por diversos conceitos que englobam parâmetros filosóficos, espirituais, inclusive etimológico. Derivada do latim religio, religionis, esse substantivo nominal, religião, pode ser proveniente de dois verbos latinos: relegere ou religare.
Rodrigues apresenta uma tese defendida na antiguidade por Cícero que direcionava o verbo relegere com sentido religioso como “o ato de reler e interpretar incessantemente os textos de doutrina religiosa ou, quem sabe, como a retomada de uma dimensão (espiritual) da qual a vida terrena tende a afastar os homens” (RODRIGUES, 2020, on-line).
Além dessa perspectiva, Rodrigues aponta a ideia do verbo religare como uma perspectiva bastante difundida e romantizada da expressão “religar” em que “caberia à religião atar os laços que unem a humanidade à esfera divina” (RODRIGUES, 2020, on-line).
Adotar uma dessas duas compreensões já possibilitaria uma vasta discussão de ideias, quiçá pensarmos o quanto as diversas vertentes religiosas que conhecemos usariam seus argumentos para indicar as suas preferências defendidas por si mesmas.
Apenas no Brasil, conseguimos destacar algumas dessas principais religiões que fazem parte da vida dos moradores desse país. Dentre elas podemos evidenciar o Budismo que tem origem na Índia, Candomblé e Umbanda de matrizes africanas, o Catolicismo com vertente no cristianismo, o Espiritismo difundido na França por Allan Kardec e que também tem base cristã, o Islamismo baseado no Alcorão, o Judaísmo que chegou ao Brasil com os judeus, o Xamanismo que contempla principalmente os povos indígenas e o Protestantismo também cristão.
Apesar de algumas dessas religiões terem sincretismo religioso, ou seja, uma fusão de ritos e crenças comuns a duas ou mais vertentes religiosas, cada uma delas possuem particularidades, e as crenças de cada adepto são vividas de tal forma que os conduzam a experimentar o que suas fés proporcionam.
Para fortalecer essa discussão acerca da pluralidade das religiões e a diversificação delas, contaremos com um apoio fundamentado a partir do livro Orientações de um Preto Velho, do autor Murilo Viana, o qual foi orientado pela sabedoria ancestral do Espírito Pai José, além das obras da Codificação que fazem parte do Pentateuco Espírita, escrito por Allan Kardec.
Em uma dinâmica de questionamentos e explicações pertinentes à Doutrina Espírita, os quarenta capítulos do livro de Viana, com simplicidade e sabedoria, conseguem dialogar com a nossa intimidade, nos orientando e nos distanciando de preconceitos espiritualistas.
Neste primeiro momento, iremos dilucidar a maneira como nós, Espíritos encarnados, e nossos irmãos desencarnados, percebem e se relacionam com as diversas religiões que já apontamos linhas acima.
Inicialmente precisamos compreender que o Espiritismo não é religião no sentido usual da palavra, em que os dogmas, cultos e cerimônias definem as demais religiões, entretanto no sentido filosófico, a Doutrina Espírita pode sim ser considerada uma religião pois “é a Doutrina que funda os vínculos da fraternidade e da comunhão de pensamentos” (KARDEC, 2005, p. 491), logo não a deixaremos de fora em nossas discussões.

Havendo tantas diversidades de povos e costumes, naturalmente há multiplicidade nas escolhas religiosas em cada pessoa espalhada pelo mundo inteiro. Considerando os ensinamentos de Deus, mesmo que receba outros nomes e que a crença Nele se manifeste diferente para cada denominação religiosa, não é cabível conceber a convicção de que alguma religião seja superior à outra. Viana demonstra a necessidade de respeito às religiões visto que “todas possuem a sua importância e são relevantes para ajudar a Humanidade em sua caminhada evolutiva” (VIANA, 2024, p.13).
Em O Livro dos Espíritos, Kardec nos dá condições de fortalecer essa percepção de valorização à diversidade religiosa quando afirma que “não há nenhum sistema antigo de filosofia, nenhuma tradição, nenhuma religião, que seja desprezível, pois em tudo há germens de grandes verdades que, se bem pareçam contraditórias entre si, dispersas que se acham em meio de acessórios sem fundamento, facilmente coordenáveis se vos apresentam, graças à explicação que o Espiritismo dá de uma imensidade de coisas que até agora se vos afiguraram sem razão alguma e cuja realidade está hoje irrecusavelmente demonstrada” (KARDEC, 2022, p. 243).
Assentado sobre os alicerces religiosos onde Deus, a alma, as penas e as recompensas futuras formam a base filosófica, o Espiritismo mostra sua força por trazer em si uma fé raciocinada principalmente considerando Deus o eixo de todas as crenças religiosas. Não há uma subversão da religião por parte do Espiritismo, pelo contrário, os Espíritos vêm “confirmá-la, sancioná-la por provas irrecusáveis. Como, porém, são chegados os tempos de não mais empregarem linguagem figurada, eles se exprimem sem alegorias e dão às coisas sentido claro e preciso, que não possa estar sujeito a qualquer interpretação falsa” (KARDEC, 2022, p.367).
Sendo assim, haveria homogeneidade religiosa entre os Espíritos? Viana, ao questionar se os Espíritos têm divisão religiosa no Plano Espiritual é elucidado pelo Espírito Pai José que “as religiões são criações dos Seres Humanos, são meios dos encarnados se religarem ao Criador e à Espiritualidade, e a Espiritualidade é livre.” (VIANA, 2024, p.46). Logo, não há divisão no Plano Espiritual e cada Espírito tende a se manifestar e trabalhar de acordo com suas afinidades, inclusive se adaptando às tarefas a que forem destinados e, a depender da evolução e moralidade. O preconceito religioso não é pertinente aos Espíritos mais elevados.
Desta forma, poderíamos questionar se haveria, ou deveria haver, uma unicidade religiosa que todos os Espíritos, encarnados ou não, devam seguir. Atento à essa indagação, também conseguimos explicações por meio do Espírito Pai José, aludindo que “com tamanha imensidade que temos em todo o Universo, existindo tão grande pluralidade de planetas habitados, incontáveis Espíritos encarnados e desencarnados, será mesmo que todos os seres do Universo pensam igual e que existe uma religião certa para ser a verdadeira e única? É claro que não” (VIANA, 2024, p. 22).
Nesta concepção, levando em conta a pluralidade dos mundos habitados, os quais sequer temos compreensão da dimensão, foge à nossa abrangência as possibilidades de relação da Espiritualidade com as criações que Deus concebeu. A unidade religiosa poderia ser concebida quando houvesse uma ruptura das diferenças de cada povo. Em nosso planeta Terra há uma infinidade de culturas, de ideias, de costumes, o que pensar das diferenças planetárias infindáveis do Universo?
“A fim de congregar todos nós em um terreno neutro, a religião deverá satisfazer à razão e às legítimas aspirações do coração e do Espírito, que mobilize a todos em marcha progressiva, ser tolerante e inclusiva, emancipadora da inteligência, com moralidade pura e lógica, harmonizada com as necessidades sociais, praticando a fraternidade e a caridade universais”. (KARDEC, 2019, p.340-341).
Em nossa marcha progressiva que busca alcançar à Deus em Sua perfeição, precisamos considerar que “a religião do futuro deve ser a mesma que devemos praticar agora, que é o Amor, e a forma de crer neste Amor não precisa de uma regra absoluta e obrigatória. O Amor pode se manifestar de diferentes formas e por diferentes crenças e culturas” (VIANA, 2024, p.24).
Nessa proposta afetuosa, nos cabe atender a chamada de Jesus para escutar-Lhe a voz para reunirmo-nos em um só rebanho com um único pastor (João 10:16), sem as amarras do preconceito religioso, do antagonismo das crenças e das barreiras que separam os povos, em um convite para a prática amorável dos ensinamentos de Cristo.
============
Referências:
1 – KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 53 ed. 8. Imp. Brasília: Brasília: FEB, 2019.
2 – KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª Ed. Campos dos Goytacazes/RJ: Editora Letra Espírita, 2022.
3 – KARDEC, Allan (org.). Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. FEB, Brasília, Vol.11, p.491, 2005.
4 – RODRIGUES, Sérgio. Religião vem de ‘reler’ ou ‘religar’? Veja. São Paulo, 31 de julho de 2020. Disponível em <https://veja.abril.com.br/coluna/sobre-palavras/religiao-vem-de-reler-ou-religar/>. Acessado em 03 de agosto de 2025.
5 – VIANA, Murilo. Orientações de um Preto Velho. Pelo Espírito Pai José. Campos dos Goytacazes: Letra Espírita, 2024.
Conheça o Clube do Livro Letra Espírita, acesse www.letraespirita.com.br e receba em sua casa os nossos lançamentos. Ajude a manter o GEYAP – Grupo Espírita Yvonne do Amaral Pereira.






































Comentários