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De Santos à Orixás: as diversas aparências dos Espíritos

Alan Lira


O segundo livro da Codificação Espírita lançado por Allan Kardec, O Livro dos Médiuns, é dividido em duas partes, sendo a primeira com noções preliminares, e a segunda parte tratando das manifestações espíritas. O sexto capítulo da segunda parte, intitulado Das Manifestações Visuais, traz noções sobre as aparições dos Espíritos ao se tornarem visíveis, manifestação a qual Kardec compreende ser a mais interessante de todas as manifestações espíritas, incontestavelmente.

 

Segundo as respostas em O Livro dos Médiuns, sobre a possibilidade dos Espíritos se tornarem visíveis, é explicado que podem sim, “sobretudo, durante o sono. Entretanto, algumas pessoas os veem quando acordadas, porém isso é mais raro” (KARDEC, 2023, p. 91). O fato da manifestação visual se dar mais raramente com pessoas acordadas é pelo fato de que seria necessário ser um médium ostensivo, nos quais a “faculdade mediúnica se mostra bem caracterizada e se traduz por efeitos patentes, de certa intensidade” (KARDEC, 2023, p. 142).

 

Seja por meio de sonhos ou não, o Espírito desencarnado dispõe da capacidade de se apresentar da maneira que ele desejar (KARDEC, 2022, p. 76), normalmente mantendo a aparência de sua última encarnação, graças ao seu invólucro, o perispírito. Com a finalidade de se comunicarem, os Espíritos desencarnados podem buscar orientação, auxílio, comunicar mensagens consoladoras, podem buscar amenização de suas tormentas, ou amenizar nossos anseios. Alguns Espíritos de baixa elevação moral pode buscar nos confundir. A qualidade da mensagem que será transmitida vai depender justamente da condição evolutiva a qual o Espírito está inserido.

 

O autor Murilo Viana, em seu livro Orientações de um Preto Velho, apresenta que:

 

Por vezes, para enaltecer a vaidade de um medianeiro, o Espírito escreve ou fala frivolidades de forma eloquente, com palavras rebuscadas, e, no final, a mensagem é completamente inútil, enquanto outro pode falar objetivamente e de forma simples, até mesmo com erros gramaticais ou vícios de linguagem, mas com profundas lições espirituais. O intelecto não é sinônimo de espiritualidade, mas sim muitas vezes, de vaidade” (VIANA, 2024 p. 197).

 

A usabilidade do linguajar durante as comunicações pode, inclusive, refletir na maneira que os Espíritos podem apresentar suas aparências. Em relatos bíblicos, a aparência angelical que os Espíritos apresentavam incluíam vestes límpidas e até mesmo asas a fim de impressionarem àqueles os quais os viam. Isso nos alerta sobre a possibilidade de os Espíritos se mostrarem de acordo com a ação de seu perispírito, dilatando-se ou contraindo-se, assumindo a forma que desejar; de acordo com a fluidez que o perispírito possui, o Espírito pode “tomar a aparência exata que tinha quando vivo, até mesmo com os acidentes corporais que possam constituir sinais para o reconhecerem” (KARDEC, 2023, p. 55).

 

Sendo nós, encarnados, tão múltiplos em nossos fenótipos, ou seja, possuindo características visíveis tão diversas, é compreensível que entendamos os Mundos Espirituais com igual diversidade, visto que: “o mundo dos Espíritos não é o reflexo do vosso; o vosso é que é uma imagem grosseira e muita imperfeita do reino de além-túmulo.” (KARDEC, 2015, p. 219).

 

Considerando tal afirmação, podemos ponderar que arquétipos de Exus, Pombagiras, Caboclos e Pretos Velhos, padres, freiras, crianças, enfermeiras, médicos, filósofos, Santos, Ciganos, Boiadeiros, Marinheiros, professores, pescadores, jardineiros, artistas, dentre tantos, são irrelevantes diante o teor da mensagem que é transmitida, mesmo havendo preconceito por parte da sociedade que tende a considerar àqueles que possuem um linguajar mais rebuscado como mais inteligentes que aqueles que utilizam linguagem mais simples e popular (VIANA, 2024, p. 52-53).

O Espírito Pai José, ainda na obra Orientações de um Preto Velho, explica que não há divisões religiosas no Plano Espiritual, apesar de alguns Espíritos manifestarem alguma predileção tanto na manifestação visual, quanto no linguajar e na área de trabalho em que atuam, tanto no Plano Espiritual quanto no auxílio ao plano físico (VIANA, 2024, p. 45-47).

 

Em nossa sociedade brasileira, com uma predominância religiosa cristã, é comum uma familiaridade e aceitação de cultos e representatividades católicas, em que os rituais abarcam orações direcionadas para Santos e utilização de imagens desses Santos como uma aproximação da fé. Por outro lado, os cultos às religiões de matrizes africanas, como o Candomblé, por exemplo, sofrem preconceitos e as Entidades Espirituais são demonizadas por aqueles que não dividem a mesma fé pelos Orixás.

 

A Doutrina Espírita não é adepta a rituais nem à adoração ou culto à deuses, Santos ou Orixás, entretanto cultiva o respeito a quaisquer denominações religiosas, pois entende que o desenvolvimento do ser humano à Perfeição Divina é de aspecto individual e considera a reforma íntima e as práticas caridosas de Jesus como elementos de elevação moral.

 

No que concerne à ideia de Santo que a Igreja Católica agrega em sua doutrina, essas pessoas que são reconhecidas por terem vivido de maneira exemplar, “podem ser considerados Espíritos que atingiram um alto nível na hierarquia espiritual e exemplificaram uma vivência evangélica em sua reencarnação na Terra” (VIANA, 2024, p. 163).

 

Considerando os ideais umbandistas, que cultuam os Orixás, a perspectiva da Doutrina Espírita os entende como “representações das forças da Natureza, sob uma ótica interpretativa e espiritual simbólica” (VIANA, 2024, p. 164).

 

Cada manifestação espiritual que ocorra no Espiritismo vai apresentar Espíritos comunicantes cuja identificação vai de encontro com a proximidade dos que ele tinha enquanto encarnado, utilizando seus nomes de batismo ou até mesmo de Santos, Arcanjos ou de Orixás. Desta forma, enquanto Espíritas, precisamos nos despir de quaisquer preconceitos religiosos, visto que a qualidade da comunicação é que vai determinar a qualidade do Espírito comunicante, e não a maneira com que se apresentem ou a linguagem que utilizem.

 

O respeito à diversidade religiosa também precisa ser estendido aos irmãos encarnados que são adeptos desta ou daquela religião, visto que “nós devemos ter atenção com a qualidade das lições que ele traz. O importante não é a forma, é a essência” (VIANA, 2024, p. 199).

 

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Referências:

1 – KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Editora Letra Espírita, 2022.

2 – KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Campo dos Goytacazes: Letra Espírita, 2023.

3 – KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Ano oitavo-1865/publicada sob a orientação de Allan Kardec. (tradução de Evandro Noleto Bezerra). 4ª ed. Brasília: FEB, 2015.

4 – VIANA, Murilo. Orientações de um Preto Velho. Pelo Espírito Pai José. Campo dos Goytacazes: Letra Espírita, 2024.

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