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Identidade de Gênero e o Espiritismo


Carla Silvério


Para iniciar a reflexão sobre a questão da ideologia de gênero, é imprescindível diferenciar gênero, sexo biológico, sexualidade, orientação sexual e identidade de gênero, pois são conceitos completamente diferentes entre si. Desse modo, o esclarecimento de tais conceitos é fundamental para a compreensão da sociedade multifacetada dos tempos atuais.


GÊNERO é conceito surgido na década de 70, para diferenciação da dimensão biológica de uma pessoa em relação à dimensão social, no sentido de que, “macho” e “fêmea”, são gêneros da espécie animal Ser Humano, mas a maneira de ser, de agir como homem ou como mulher não se define na biologia, mas nas convenções sociais criadas pela humanidade ao longo dos tempos.


SEXO BIOLÓGICO é o conjunto das informações orgânicas de um corpo humano, o que diz seus cromossomos, hormônios predominantes, órgão genitais, enfim, as diferenças fisiológicas que diferenciam o gênero “macho”, do gênero, “fêmea”.


SEXUALIDADE está ligada às convenções sociais estabelecidas como aceitas em relação aos prazeres e trocas corporais entre pessoas, indo desde o erotismo, afeto, sentimentos e indo até noções de prevenção de doenças, técnicas de reprodução humana, uso de tecnologias e exercício do poder no meio social (a exemplo, o conceito de empoderamento). Sexualidade abarca todas as sensações, desejos, pensamentos, experiências, emoções, sentimentos, fantasias eróticas, conceitos de proibido e permitido socialmente para cada povo ou grupo social distinto. Não existe conceito fechado para a sexualidade, pois o que é, por exemplo, considerado escandaloso no Brasil, pode ser visto como natural em outra cultura, o que não quer dizer que uma ou outra esteja certa ou errada.


ORIENTAÇÃO SEXUAL diz respeito à atração emocional, afetiva ou sexual que uma pessoa tem por outra, que pode ser do mesmo sexo, sexo oposto, ou mais de sexo, bem como ter relações íntimas e sexuais com essas outras pessoas. Nesse sentido, modernamente, entende-se, basicamente, como orientações sexuais: Homossexualidade, Bissexualidade, Heterossexualidade, Pansexualidade, Interssexual, Assexualidade e Transsexualidade ou Transgeneralidade, entretanto, o conceito não se esgota aqui e é variável de pessoa para pessoa.


IDENTIDADE DE GÊNERO é a maneira como a pessoa se vê, como ela se entende, correspondendo como sexo biológico ou não. É também o senso particular do próprio corpo. Percepção que uma pessoa tem de si, convicção íntima de como ela se enxerga, independentemente de biologicamente ser “macho” ou “fêmea”, homem ou mulher, masculino ou feminino. Modernamente, são exemplos de identidade de gênero: andrógenos, travestis, transgênero, drag queens, drag kings, queer, e todas as outras diversas identidades de gênero existentes, conforme a visão que cada um tem de si.


Desta forma, a sigla LGBTQIA+, que identifica os movimentos de diversidade sexual e identidade de gênero pelo mundo, tem cada letra o seu significado correspondente:

L= Lésbicas (mulher que sente atração por mulher)

G= Gays (homem que sente atração por homem)

B= Bissexuais (pessoa que sente atração por homem ou mulher)

T= Transsexuais ou Transgêneros (pessoa que se vê com gênero diferente do sexo biológico e que realiza a transição para o gênero que se identifica, por meio de cirurgia ou tratamento hormonal)

Q= Queer (que transita entre masculino e feminino ou qualquer outro gênero fora do binarismo feminino/masculino. Entendem que o binarismo é uma construção social e não fisiológica. A criança não nasce com a consciência do que seja um homem ou uma mulher, nasce sabendo que é um ser vivo. Aprende tais conceitos conforme as regras e convenções sociais impostas por outras pessoas)

I= Interssexuais (pessoas que biologicamente, fisiologicamente, têm ambos os sexos – genitais)

A= Assexuais (pessoas que não sentem atração por ninguém)

+ = Abriga todas as diversas possibilidades de orientação sexual e identidade de gênero que podem existir, como por exemplo, as pessoas Pansexuais – que sentem atração/desejo sexual por todas as orientações sexuais e as pessoas Travestis – que identificam a genitália de nascimento como parte de quem se é, mas que se ventem e se comportam de acordo com o sexo que se identificam, não correspondente ao de nascimento ou biológico.

Assim, a teoria da Ideologia de Gênero entende que todos os seres humanos nascem iguais, entretanto, o que faz uma pessoa ser e se comportar (vestir, gesticular, falar, se apresentar) dentro do conceito binário feminino-masculino é a sociedade e seus padrões construídos ao longo dos tempos.


Aos que levantam a bandeira em defesa da Ideologia de Gênero, a sociedade como um todo não deve ser repartida em “Azul e Rosa”, pois todos os seres humanos são diferentes, com identidades distintas, mas, todos, detentores dos mesmos direitos e que o gênero deve ser escolhido ou definido conforme cada um achar de si.


Do ponto de vista da Doutrina Espírita, os Espíritos não têm sexo e nem forma definidos, não têm gênero, sexualidade ou orientação sexual, pois essas questões existem apenas no plano material e são vivenciadas somente enquanto se encontrarem encarnados.


No plano espiritual, sexo, sexualidade, orientação sexual e demais conceitos relacionados, são inexistentes. Os Espíritos que buscam por tais conexões após o desencarne somente assim agem por estarem ligados ainda à matéria de forma intensa, pois há os que não percebem ou não aceitam o desenlace do Espírito em relação ao corpo carnal que habitavam.


A Questão nº 88 do Livro dos Espíritos[1] é clara em colocar que fora da matéria, o Espírito tem a aparência de centelha etérea, mais se aproximando de uma chama, um “clarão” energético.


O sexo do Espírito é definido e preparado no processo reencarnatório, conforme as provas e expiações que necessita vivenciar enquanto estiver ligado à matéria, podendo reencarnar, por exemplo, como homem ou mulher, ou ainda, passar por reencarnações seguidas como mulher e uma nova reencarnação como homem, ou vice-versa. Esta não é uma regra padrão imutável e segue as necessidades evolutivas de cada Espírito, conforme atua a Lei de Causa e Efeito.


Experimentar ambas as polaridades energéticas (masculina e feminina) se faz necessário ao Espírito para que possa evoluir com equilíbrio e sabedoria.


Por meio das experiências vivenciadas, ora como mulher, ora como homem, o Espírito aprende e compreende as fraquezas e fortalezas, bem como as vicissitudes particulares em cada uma dessas experiências, pois consegue compreender “na pele” as mazelas e as conquistas em cada um dos contextos reencarnatórios, conforme esclareceu Kardec[2], em seu comentário da Questão nº 202, do Livro dos Espíritos, pouco importando se será biologicamente homem ou mulher na reencarnação subsequente.


Joana de Angelis também esclarece a importância e necessidade do Espírito em evolução de vivenciar a reencarnação em ambas as polaridades, no livro “Dias Gloriosos”[3], de psicografia de Divaldo Pereira Franco:

A constituição do ser orgânico é decorrência das suas necessidades evolutivas, que são trabalhadas pelo perispírito na condição de modelo organizador biológico. Trazendo impressos os mecanismos da evolução nos tecidos sutis da sua estrutura íntima, plasma, a partir do momento da concepção, o corpo, no qual o Espírito se movimentará durante a vilegiatura humana, a fim de aprimorar o caráter e resgatar os compromissos negativos que ficaram na retaguarda... No momento da concepção o perispírito é atraído por uma força incomparável, às células que se vão formando, nelas imprimindo automaticamente, por força da Lei de causa e efeito, o que é necessário à sua evolução, incluindo, sem dúvida, o sexo e suas funções relevantes.”

Com base na orientação que o Plano Espiritual já revelou à humanidade, pode-se afirmar com acertamento que todo Espírito em marcha evolutiva, em algum momento da sua existência já foi, é ou será homem/mulher, pois é necessário que se conheça ambas as realidades corporais da matéria.


E mais, o que é aprendido pelo Espírito durante o tempo que passa reencarnado, não é esquecido. Todo o conhecimento adquirido, seja intelectual ou moral, é armazenado como qualidades psíquicas impressas em seu corpo astral e que passa a carregar consigo dali em diante.


Portanto, sexo, gênero, sexualidade, orientação sexual, são experiências e qualidades psíquicas constantes dessa bagagem espiritual advinda de existências anteriores, que se afloram como inclinações e/ou tendências inerentes do ser reencarnado, novamente em desenvolvimento no plano material, conforme a intensidade de suas polaridades energéticas mais recentes (masculina/feminina).


Assim, a Doutrina Espírita entende que o Espírito reencarnado segue as suas tendências conforme a polaridade energética predominante em seu corpo astral, o que influencia as suas questões relativas à identidade de gênero e sexualidade, portanto, com origens na sua própria história pregressa.


Esses ensinamentos foram passados por Emmanuel[4], em psicografia realizada por Chico Xavier:

“Ante os problemas do sexo, é forçoso lembrar que toda criatura traz os seus temas particulares, com referência ao assunto. Atendendo à soma das qualidades adquiridas, na fieira das próprias reencarnações, o Espírito se revela, no plano físico, pelas tendências que registra nos recessos do ser, tipificando-se na condição de homem ou de mulher, conforme as tarefas que lhe cabe realizar. Além disso, a individualidade, muitas vezes, independentemente dos sinais morfológicos, encerra em si extensa problemática, em se tratando de vinculações e inclinações de caráter múltiplo.

[...]


A vida espiritual pura e simples se rege por afinidades essenciais; no entanto, através de milênios e milênios, o Espírito passa por fileira imensa de reencarnações, ora em posição de feminilidade, ora em condições de masculinidade, o que sedimenta o fenômeno da bissexualidade, mais ou menos pronunciado, em quase todas as criaturas [...] Em face disso, a individualidade em trânsito, da experiência feminina para a masculina ou vice-versa, ao envergar o casulo físico, demonstrará fatalmente os traços da feminilidade em que está estagiado por muitos séculos, em que pese ao corpo de formação masculina que o segue, verificando-se o análogo processo com referência à mulher nas mesmas circunstâncias.”

A questão da identidade de gênero, em que pese estar impressa em todo ser humano como suas tendências naturais, ainda é muito mal compreendida e estudada sem o valor adequado. Ao contrário, o que salta aos olhos na humanidade do Século XXI, por mais surreal que pareça ser, ainda é a rudimentariedade do indivíduo primitivo, que entendia o diverso, o diferente como ameaçador.


Fruto ainda do atraso moral e intelectual existentes na sociedade, todo aquele que segue as suas inclinações naturais impressas em sua alma e que resultam em identidade de gênero diversa do padrão adotado pela coletividade são segregadas, humilhadas, subjugadas a toda de infortúnios e dissabores.


Contudo, segue-se em marcha (ainda em ritmo vagaroso) para a regeneração, para a efetiva concretização da grande lição deixada por Cristo, quando determinou aos seus Apóstolos “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”.


No compasso dos passos dados pela humanidade a cada dia, a compreensão é destino certo e o que hoje se entende como normal, num futuro próximo, será visto com mais amor, mais cuidado e maior caridade, entendendo-se que acima do que seja ou não “normal”, impera absoluta a vida, o ser humano independentemente de sexo, gênero, raça, religião, sexualidade ou orientação sexual, impera a fraternidade e o respeito à dignidade de todo indivíduo, uma vez que somos todos filhos do mesmo Pai, como esclareceu Emmanuel[5]:

“A coletividade humana aprenderá, gradativamente, a compreender que os conceitos de normalidade e de anormalidade deixam a desejar quando se trate simplesmente de sinais morfológicos, para se erguerem como agentes mais elevados da definição da dignidade humana, uma vez que a individualidade, sem si, exalta vida.”

A questão da identidade de gênero, portanto, é vista pela Doutrina Espírita sob a ótica dos olhos de Cristo, bem traduzida nas palavras Chico Xavier[6]:

“Acreditamos que o tempo e a compreensão humana traçarão normas sociais suscetíveis de tranquilizar quantos se vinculem a semelhante segmento da comunidade, assegurando-se-lhes a bênção do trabalho com o respeito devido a todos os filhos de Deus.


Até que isso se concretize, não vejo pessoalmente qualquer motivo para críticas destrutivas e sarcasmos incompreensíveis para com os nossos irmãos e irmãs portadores de tendências homossexuais, a nosso ver, claramente iguais às tendências heterossexuais que assinalam a maioria das criaturas humanas. Em minhas noções de dignidade do espírito, não consigo entender por que razão esse ou aquele preconceito social impedirá certo número de pessoas trabalhar e de serem úteis à vida comunitária, unicamente pelo fato de haverem trazido do berço características psíquicas ou fisiológicas diferentes da maioria.


Nunca vi mães e pais, conscientes da elevada missão que a Divina Previdência lhes delega, desprezarem um filho porque haja nascido cego ou mutilado. Seria humana e justa a nossa conduta em padrões de menosprezo e desconsideração, perante os nossos irmãos que nascem com dificuldades psicológicas?”

Referências Bibliográficas:

FRANCO. Divaldo Pereira. Dias Gloriosos. 4ª edição – 1ª reimpressão. Ed. Leal. Salvador-BA. 2010.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1ª edição Comemorativa do Sesquicentenário (bolso). FEB. Brasília-DF. 2007.

NOBRE, Marlene Rossi S. Lições de Sabedoria: Chico Xavier nos 23 anos da Folha Espírita. 2ª ed. São Paulo: FEB. 1997.

GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Secretaria de Governo e Cidadania. Diversidade Sexual e a Cidadania LGBT. 2018 (Cartilha).

XAVIER, Francisco C. Vida e Sexo. Pelo Espírito Emmanuel. 3ª ed. FEB. Brasília-DF. 2016.

[1] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1ª edição Comemorativa do Sesquicentenário (bolso). FEB. Brasília-DF. 2007. [2] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1ª edição Comemorativa do Sesquicentenário (bolso). FEB. Brasília-DF. 2007. [3] FRANCO. Divaldo Pereira. Dias Gloriosos. 4ª edição – 1ª reimpressão. Ed. Leal. Salvador-BA. 2010. [4]XAVIER, Francisco C. Vida e Sexo. Pelo Espírito Emmanuel. 3ª ed. FEB. Brasília-DF. 2016.

[5] XAVIER, Francisco C. Vida e Sexo. Pelo Espírito Emmanuel. 3ª ed. FEB. Brasília-DF. 2016. [6] NOBRE, Marlene Rossi S. Lições de Sabedoria: Chico Xavier nos 23 anos da Folha Espírita. 2ª ed. São Paulo: FE. 1997.

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