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Tópicos

Princípios da Doutrina Espírita


Ariel Telo

O Espiritismo, doutrina com tríplice caráter – religioso, filosófico e científico – foi concebida e codificada por Allan Kardec, por meio dos ensinamentos dos Espíritos. Por isso, diz-se, a doutrina foi “codificada”, uma vez que não foi criada por Kardec, mas tão somente transcrita e comentada.


Enquanto religião, o Espiritismo é cristão, pautado na existência de Deus, na imortalidade do espírito (alma, assim denominada pelas demais religiões cristãs), na reencarnação, na pluralidade dos mundos e na evolução moral mediante a aplicação rigorosa dos ensinamentos de Jesus.


No entanto, por falta de contato com a Doutrina Espírita, muitos cristãos de outras ordens se surpreendem ao encontrar, no Espiritismo, a preocupação com a prática da caridade, da reforma moral, do ensino e da prática do Evangelho de Jesus. Isso porque, ao contrário do que se imagina, o Espiritismo, justamente por ser cristão, tem muito mais pontos em comum com as demais crenças cristãs ortodoxas do que aspectos divergentes.


Assim, para que aqueles que se interessam em conhecer um pouco mais sobre maravilhosa Doutrina, separamos os principais pontos do Espiritismo, retirados do Livro dos Espíritos, com comentários explicativos, para melhor compreensão dos tópicos doutrinários.


“Deus é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom. Criou o Universo, que abrange todos os seres animados, e inanimados, materiais e imateriais”. Tal crença já era e sempre foi consolidada em qualquer religião cristã. Na definição dada pelos próprios espíritos, Deus é “A inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas”.


“Os seres materiais constituem o mundo visível ou corpóreo, e os seres imateriais, o mundo invisível ou espírita, isto é, dos Espíritos”. O mundo invisível é aquele espiritual, que não podemos ver. Isso também não contraria a crença cristã ortodoxa, tendo em vista que creem em Deus, anjos e demônios, os quais também não podemos ver. Eles estão em algum lugar, que é, justamente, o mundo espiritual.


“O mundo espírita é o mundo normal, primitivo, eterno, preexistente e sobrevivente a tudo. O mundo corporal é secundário; poderia deixar de existir, ou não ter jamais existido, sem que por isso se alterasse a essência do mundo espírita”. Isso também se pode depreender dos próprios textos bíblicos. Se Deus nunca tivesse criado a Terra, ainda assim haveria um lugar, que é o mundo espiritual, preexistente. A Terra, além disso, não é o principal lugar. A crença cristã é na vida após a morte, e almeja-se o paraíso, ou seja, um mundo além desse nosso, que seria um mundo melhor, um mundo “principal”. Por outro lado, essa Terra é passageira, bem como a vida nela; é algo secundário.


“Os Espíritos revestem temporariamente um invólucro material perecível, cuja destruição pela morte lhes restitui a liberdade”. Aqui os espíritos se referem ao corpo. Também não há contradição com a crença cristã ortodoxa, visto que creem na “alma”, aqui empregada como sinônimo de “espírito”, que é algo que anima o corpo, mas está além dele e a ele subsistirá.


“Entre as diferentes espécies de seres corpóreos, Deus escolheu a espécie humana para a encarnação dos Espíritos que chegaram a certo grau de desenvolvimento, dando-lhe superioridade moral e intelectual sobre as outras”. O nosso aspecto humano é meramente nossa forma material, já que a forma do espírito não se confunde com o invólucro material que o reveste. Somos um espírito que tem um corpo, cuja espécie é a humana. Além disso, a espécie humana, por ser animada por espíritos com senso de moral mais elevado, distingue-se das demais espécies animais.


“A alma é um Espírito encarnado, sendo o corpo apenas o seu envoltório”. Kardec, para fins pedagógicos, com base nos ensinamentos dos espíritos, fez a distinção entre os conceitos de “alma” e “espírito”, entendendo-se por alma aquele espírito que habita um corpo material (um encarnado, ou, na linguagem comum, aquele espírito que está vivo na Terra).

“Há no homem três coisas: 1º, o corpo ou ser material análogo aos animais e animado pelo mesmo princípio vital; 2º, a alma ou ser imaterial, Espírito encarnado no corpo; 3º, o laço que prende a alma ao corpo, princípio intermediário entre a matéria e o Espírito”. O que há de novo aqui, diferente de todas as outras crenças cristãs, é esse 3º ponto, que os espíritos esclareceram se tratar de uma ligação entre o espírito e o corpo, chamada “perispírito”, que é algo que remete a um caráter mais científico do Espiritismo.


“Tem assim o homem duas naturezas: pelo corpo, participa da natureza dos animais, cujos instintos lhe são comuns; pela alma, participa da natureza dos Espíritos”. O ser humano nada mais é do que um espírito que habita um corpo animal, sofrendo as influências biológicas deste (pelo que detém necessidades fisiológicas), mas cuja origem é eminentemente espiritual.


“O laço ou perispírito, que prende ao corpo o Espírito, é uma espécie de envoltório semimaterial. A morte é a destruição do invólucro mais grosseiro. O Espírito conserva o segundo, que lhe constitui um corpo etéreo, invisível para nós no estado normal, porém que pode tornar-se acidentalmente visível e mesmo tangível, como sucede no fenômeno das aparições”. Aí se explica que o espírito, quando perde o corpo, mantém o períspirito, uma espécie de segundo corpo, que às vezes pode se fazer visível como é no caso das “aparições” ou “visões”, muitas vezes relatadas por muitas pessoas ao redor do mundo, inclusive aceita pela maioria das religiões cristãs.


“O Espírito não é, pois, um ser abstrato, indefinido, só possível de conceber-se pelo pensamento. É um ser real, circunscrito, que, em certos casos, se torna apreciável pela vista, pelo ouvido e pelo tato”. O espírito é algo concreto e passível de ser estudado, tarefa da qual se incumbe o Espiritismo, por seu caráter científico.


“Os Espíritos pertencem a diferentes classes e não são iguais, nem em poder, nem em inteligência, nem em saber, nem em moralidade. Os da primeira ordem são os Espíritos superiores, que se distinguem dos outros pela sua perfeição, seus conhecimentos, sua proximidade de Deus, pela pureza de seus sentimentos e por seu amor do bem: são os anjos ou puros Espíritos. Os das outras classes se acham cada vez mais distanciados dessa perfeição, mostrando-se os das categorias inferiores, na sua maioria, eivados das nossas paixões: o ódio, a inveja, o ciúme, o orgulho, etc. Comprazem-se no mal. Há também, entre os inferiores, os que não são nem muito bons nem muito maus, antes perturbadores e enredadores, do que perversos. A malícia e as inconsequências parecem ser o que neles predomina. São os Espíritos estúrdios ou levianos”. Os espíritos que se comunicaram com Kardec foram inúmeros. Alguns, muito bons; outros, piores do que os próprios Homens. Em comparação com o cristianismo ortodoxo, podemos dizer que é como se tanto anjos como demônios tivessem se comunicado. Isso prova a variedade deles, e como é simples distinguir os bons dos maus.


“Os Espíritos não ocupam perpetuamente a mesma categoria. Todos se melhoram passando pelos diferentes graus da hierarquia