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A Aparência dos Espíritos

Rafael Almeida Callegari


A manifestação dos Espíritos é fenômeno antigo, que atiça curiosidade ou medo do ser humano desde sempre. Allan Kardec aborda que a interação entre o Mundo Espiritual e material, se trata de uma condição natural da vida, e que a todo momento estamos de alguma forma, em comunicação, ainda que pela intuição ou pensamento.

No capítulo 2, da obra O Que é o Espiritismo, no item 24, ele aponta que:

 

Vivendo o mundo invisível no meio do visível, com o qual está em contato perpétuo, dá em resultado uma incessante reação de cada um deles sobre o outro, e bem assim demonstra que, desde que houve homens, houve também Espíritos, e que se estes têm o poder de manifestar-se, deviam tê-lo feito em todas as épocas e entre todos os povos.

 

A comunicação pode ser realizada de diversas maneiras e, uma das mais intrigantes e que causam impacto no indivíduo é a realizada através da visão, porque é aquela em que a percepção da Vida Espiritual se realiza com maior intensidade, onde a certeza de sua existência se faz mais patente, uma vez que podemos nos enganar do que ouvimos ou sentimos, mas do que vemos, é um tanto mais difícil.

 

Sobre as manifestações visuais, Allan Kardec dedicou um capítulo inteiro em O Livro dos Médiuns, entre as questões 100 e 113, nos elucidando sobre as características destes fenômenos e retirando o véu do misterioso e fantasmagórico que muitos lhes dão.

 

Ainda assim, entre videntes e não videntes, especialmente para aquele que inicia o caminhar na Doutrina Espírita, muito se questiona sobre a aparência dos Espíritos, alguns limitando a definir que manifestações “escuras” são más, e outras “claras” são boas. E ainda mais, que só é médium aquele que vê os Espíritos quando acordado.

 

Pois bem, na questão 100, de O Livro dos Médiuns, Kardec questiona se podem os espíritos se tornarem visíveis:

 

Podem, sobretudo, durante o sono. Entretanto, algumas pessoas os veem quan­do acordadas, porém isso é mais raro.

 

Quando dormimos, nossa alma se desliga parcialmente de nosso corpo físico e vai se encontrar com outras, pelos laços de afinidade, de sentimento, de vibração, dentre outras razões. Então, quando estamos nesta etapa de nosso sono, estamos em contato com o Plano Espiritual e vemos, portanto, Espíritos.

 

Podemos por assim dizer que parte de nosso questionamento comum sobre as aparências dos Espíritos se esclarece pela simples recordação de nossos sonhos, que de vez em quando vemos pessoas que já se despediram de nossa atual experiência terrena.

 

E como as vemos? Exatamente como elas eram quando vivas. E tal informação é confirmada por Kardec, que ao questionar sobre a individualidade do Espírito, e de que forma eles eram (já que a manifestação era pela escrita e não pela visão), recebeu como resposta na questão 150 de O Livro dos Espíritos:

 

Continua a ter um fluido que lhe é próprio, haurido na atmosfera do seu planeta, e que guarda a aparência de sua última encarnação: seu perispírito.

           

Na questão 88 de O Livro dos Espíritos, orienta-se que o Espírito em si, não tem uma forma exata para nós e se assemelha a uma chama, um clarão, ou centelha etérea, que pode ter uma coloração própria. Utiliza-se, portanto, de um fluido próprio e que possui a aparência humana e anterior à morte, dando o nome a esta roupagem de períspirito. É essa roupagem que nos é visível quando os vemos em sonho ou, quando dotados da clarividência, os vemos acordados.

 

O períspirito assume a forma que o Espírito deseja (questão 95, de O Livro dos Espíritos), portanto esse fluido é moldável conforme possa ser reconhecido por aquele que o vê e é neste ponto que reside uma observação de nossa parte.

 

A aparência pela qual identificamos o Espírito que conosco se comunica possui uma intencionalidade deste que nos dirige. Ela não está diretamente relacionada com o grau de evolução moral ou espiritual que tenha o comunicante, se é um bom ou mau Espírito. É por saber disso que Kardec, em O Livro dos Médiuns, no capítulo 24 da segunda parte, sobre a identidade dos Espíritos, ressalta na questão 262:

 

Se a identidade absoluta dos Espíritos é, em muitos casos, uma questão aces­sória e sem importância, o mesmo já não se dá com a distinção a ser feita entre bons e maus Espíritos. Pode ser-nos indiferente a individualidade deles; suas qualidades, nunca. Em todas as comunicações instrutivas, é sobre este ponto, conseguintemente, que se deve fixar a atenção, porque só ele nos pode dar a medida da confiança que devemos ter no Espírito que se manifesta, seja qual for o nome sob que o faça. É bom ou mau o Espírito que se comunica? Em que grau da escala espírita se encontra? Eis as questões capitais.        

 

E logo em sequência na questão 263, Kardec destaca o principal elemento que indica sua natureza. Não se trata da aparência e sim:

 

Já dissemos que os Espíritos devem ser julgados, como os homens, pela lingua­gem de que usam. Suponhamos que um homem receba vinte cartas de pessoas que lhe são desconhecidas; pelo estilo, pelas ideias, por uma imensidade de indícios, enfim, verificará se aquelas pessoas são instruídas ou ignorantes, polidas ou mal-educadas, superficiais, profundas, frívolas, orgulhosas, sérias, levianas, sentimentais etc.

 

Considerando que o Espírito pode dar ao seu períspirito a forma que melhor lhe agrada, Kardec é direto ao afirmar que a linguagem dos Espíritos está sempre em relação com o grau de elevação a que já tenham chegado e, na questão 267 ele resumiu 26 princípios para o reconhecimento das qualidades de um comunicante, dos quais destacamos os seguintes:

 

1ª Não há outro critério senão o bom senso, para se aquilatar do valor dos Espíri­tos. Absurda será qualquer fórmula que eles próprios deem para esse efeito e não poderá provir de Espíritos Superiores.

 2ª Apreciam-se os Espíritos pela linguagem de que usam e pelas suas ações. Estas se traduzem pelos sentimentos que eles inspiram e pelos conselhos que dão. (…)

5.º. Não se deve julgar da qualidade do Espírito pela forma material, nem pela correção do estilo. É preciso sondar-lhe o íntimo, analisar-lhe as palavras, pesá-las friamente, maduramente e sem prevenção. Qualquer ofensa à lógica, à razão e à ponderação não pode deixar dúvida sobre a sua procedência, seja qual for o nome com que se ostente o Espírito(…)

9ª Os Espíritos Superiores se exprimem com simplicidade, sem prolixidade. Têm o estilo conciso, sem exclusão da poesia das ideias e das expressões, claro, inteligível a todos, sem demandar esforço para ser compreendido. Têm a arte de dizer muitas coisas em poucas palavras, porque cada palavra é empregada com exatidão. Os Espíritos inferiores, ou falsos sábios, ocultam sob o empolamento, ou a ênfase, o vazio de suas ideias. Usam de uma linguagem pretensiosa, ridícula ou obscura, à força de quererem pareça profunda.(…)

17ª Os bons Espíritos só prescrevem o bem. Máxima nenhuma e nenhum con­selho que se não conformem estritamente com a pura caridade evangélica podem ser obra de bons Espíritos.

        

É preciso rememorar, portanto, estas lições apresentadas pelos Espíritos Superiores à Kardec para não cometer o equívoco de julgar as Entidades Espirituais que se manifestem, pura e simplesmente pela aparência a que eles dispõem ser identificados.

 

Ela é usada para facilitar o processo de identificação, e, portanto, pode se alterar conforme quem seja o destinatário de sua comunicação que, lembremos, pode ser com um encarnado ou com outro desencarnado.

 

Pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, André Luiz, na obra Evolução em Dois Mundos, aponta-se ser infinitamente variado o aspecto que um Espírito se apresente e que:


Os Espíritos Superiores, pelo domínio natural que exercem sobre as células psicossomáticas, podem adotar a apresentação que mais proveitosa se lhes afigure, com vistas à obra meritória que se propões a realizar.

 

Em geral, os Bons Espíritos, em missão de amparo ou orientação, podem modificar sua aparência para serem aceitos no círculo em que dirigem sua atuação, tomando a forma angelical, infantil ou idosa, com indumentárias de uma determinada religião ou cultura, tudo para facilitar o seu trabalho.

 

Por isso não se justificam os maus julgamentos e preconceitos que algumas pessoas dirigem às Entidades Espirituais que tomam a forma conhecida nas religiões e culturas de matriz africana.

 

Já os Maus Espíritos, quando dispõe do domínio do períspirito e, visando o amedrontamento, a confusão ou o engano, divertindo-se ou tendo intenções nocivas, tomam a forma que possam permitir seus propósitos, inclusive fingindo serem Baluartes da Espiritualidade.

 

Yvonne do Amaral Pereira publicou seu estudo sobre os fenômenos mediúnicos na obra Devassando o Invisível e, no capítulo Como Se Trajam os Espíritos, nos presenteia com várias observações que realizou das obras de Kardec e de Léon Dénis, também nos orientando sobre os “trajes utilizados” pelos Espíritos que com ela se comunicaram. Destaco uma passagem deste capítulo que vai nos fazer compreender da pluralidade destes trajes, sem se perder a essência de quem é o Espírito comunicante e suas intenções:

 

A entidade que se denomina Charles, martirizado por amor ao Evangelho, no século XVI, na França (…) comumente se deixa ver em trajes de iniciado hindu, tendo-se mostrado, uma única vez, em trajes de príncipe indiano (…). Fréderic Chopin, que já variu a indumentária quatro vezes em suas aparições, deixando-se perceber, em duas delas, apuradamente trajado à moda da sua época (…) E finalmente, um vulto muito nobre (…) cuja identidade ignoramos (…) que trajava uma túnica grega, curta, atada por um cinto dourado (…). (PEREIRA, 2012, p. 49-50)

 

Em suas conclusões Yvonne apresenta-nos deduções que extraiu de seus estudos sobre a aparência dos Espíritos, destacando-se:

 

(…) que a mente do Espírito desencarnado cria para a sua configuração individual a indumentária que deseja, valendo-se da própria vontade, segundo o próprio gosto artístico, a necessidade, a singeleza dos hábitos, a humildade do caráter e o grau de evolução moral-mental-espiritual, pois o Espírito possui liberdade e aptidões naturais para assim se conduzir. (PEREIRA, 2012, p. 54)

 

Na obra Resgate no Astral Inferior, do Espírito Nancy e psicografada por Murilo Viana temos o exemplo de Pai Abelardo que nos revela o motivo pelo qual ele prefere se apresentar com a aparência de um Preto Velho ao invés de um médico, aparência que também utiliza quando necessário:

 

Eu mesmo já passei por situações muito constran­gedoras em sessões mediúnicas, minha fia, quando apareci com esta roupagem fluídica de Preto Velho. E eu queria só ajudar e fazer o bem. Tem lugar que eu só apareço como doutô. Só assim pra conseguir trabaiá. Mas eu gosto mesmo é dessa aparência. É a que eu mais uso, porque, assim como aconteceu com ocê, foi nessa reencarnação, de um preto escravizado até a velhice, que pude aprender muita coisa. Aprendi a amar, aprendi a perdoar, aprendi muita coisa mesmo. (VIANA, 2024, p. 28)

 

Concluímos, portanto, que a aparência dos Espíritos pode representar seu estado moral, mas as impressões mentais, o conteúdo de sua mensagem, as intenções de sua ação no mundo é que devem ser o caminho norteador para compreendermos se aquele que se vê, em sonho ou pela vidência enquanto acordado, seja um bom ou mal Espírito.

 

Eles podem se apresentar de diversas formas. Como indígenas, caboclos, pretos velhos, padres, filósofos, monges, orientais, hindus, árabes, gregos, romanos, egípcios, etc. A indumentária pode ser uma questão de preferência do Espírito, ou de instrumento de trabalho, quando voltados ao bem.

 

Não nos iludamos com as formas, nem tenhamos preconceitos com ela.

 

O importante é a mensagem, em conformidade com a moral do Cristo.

 

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Referências:

 

DÉNIS, León. No invisível: espiritismo e mediunidade. 26 ed. Brasília: FEB, 2019. 445p.

KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. 76 ed. Araras: IDE, 2021. 192p.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1 ed. Campos dos Goytacazes: Letra Espírita, 2022.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 1 ed. Campos dos Goytacazes: Letra Espírita, 2023.

PEREIRA, Yvonne do Amaral. Devassando o Invisível. 15 ed. Brasília: FEB, 2012. 216p.

XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Evolução em dois mundos / pelo Espírito de André Luiz. 27 ed, Brasília: FEB, 2022. 240p.

VIANA, Murilo. Resgate no Astral Inferior. 1 ed. Campos dos Goytacazes: Letra Espírita, 2024.


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