top of page
Tópicos

A Caridade Material e a Caridade Imaterial


Jaina da Costa


Caridade significa uma das três virtudes teologais, que são: fé, esperança e caridade.

A caridade é a disposição para ajudar o próximo; uma tendência natural para auxiliar a quem está em situação de dificuldade; é ter benevolência, piedade; ter compaixão da dor alheia etc.

No conceito popular, quem é considerado caridoso é geralmente dado a filantropia, auxiliar quem está necessitado. Na Doutrina Espírita, de acordo com o Evangelho Segundo o Espiritismo, no item 4 do capítulo 11, temos: “Amar o próximo como a si mesmo: fazer pelos outros o que quereríamos que os outros fizessem por nós”, é a expressão mais completa da caridade, porque resume todos os deveres do homem para com o próximo.” (KARDEC, 1994, p.184)

Quando nasce esse sentimento na jornada evolutiva humana?

Em A Gênese, item 1 do capítulo 3: Fonte do bem e do mal, Kardec afirma que mesmo sendo Deus a origem de todas as coisas, e Dele nada pode ter saído de injusto e mau, devemos concluir que “O mal que observamos não pode ter nele a sua origem”; e no item 3: “Entretanto o mal existe e tem uma causa.” (KARDEC, 1987, p. 69 e 70). E desenvolve todo o item nos esclarecendo que ao longo da caminhada evolutiva vamos cometendo equívocos devido nossa ignorância, “interesses fictícios e convencionais”. E é assim que vamos no início do desenvolvimento de nossa caminhada, praticando atos inicialmente alimentados pelo egoísmo, sentimento muito bem explicado por Kardec em Obras Póstumas, no capítulo: O Egoísmo e o Orgulho (KARDEC, 1993, p. 225), que nos coloca sempre em prioridade em detrimento do bem do outro, mas que aos poucos, e ao longo de muitas reencarnações vamos gerando o sentimento de empatia que nos primórdios nos faz praticar o bem visando interesses imediatistas, que no nosso entender de crianças espirituais ainda, levaremos vantagens diante da vida... então aprendemos a praticar a caridade de forma interesseira... mas, contudo, mesmo por interesse, o bem que se proporciona através de nossas ações interesseiras, é levado em conta, como nos mostra Kardec no item 7 desse mesmo capítulo de A Gênese: “Contudo, Deus, pleno de bondade, colocou o remédio ao lado do mal, a dizer que do próprio mal faz nascer o bem.” (KARDEC, 1987, p. 72).

No livro Alvorecer da Espiritualidade, primeiro livro da série Às Margens do Eufrates, vamos ver o espírito Josepho, através da médium Dolores Bacelar, narrar sua caminhada desde os tempo pré-diluvianos até os dias de sua regeneração. No final dessa obra, após uma vida de muitos crimes, e nada de sentimentos dignos acompanhamos uma narrativa muito interessante: Primeiro, o fato de após ter sido pego em delito e condenado pelo Conselho dos Anciãos a ser morto por apedrejamento e em seguida ter os restos mortais atirado ao Eufrates com uma pedra atada ao pescoço, Josepho vive! vive e acompanha do fundo do Rio Eufrates, tudo o que se passa no acampamento de sua tribo; detalhe, em momento algum ele desconfia que está aprisionado ao fundo das aguas, atado a uma pedra mas sem corpo...

Segundo, vê gerações passarem e nada acontece no seu mundo submerso, até que acontece o dilúvio e sem entender nada, sem ainda ter sentimentos nobres, acompanha a catástrofe que leva vidas e mais vidas, de homens e animais... Josepho continua a não entender nada, até que um choro infantil de uma menino amedrontado, que pede socorro, lhe chama a atenção; aquele choro, aqueles olhinhos suplicantes e com medo lhe toca o coração, e, num ímpeto jamais sentido por ele, acolhe nos braços a criança que ao ser aconchegado a seu regaço lhe sorri... e alvorece-lhe o sentimento de espiritualidade, ... é a caridade incipiente que nasce às margens do Eufrates para aquele espirito empedernido. (BACELAR, 1989).

Assim cada um de nós temos o nosso alvorecer da espiritualidade; iniciamos geralmente dando coisas; com o tempo aprendemos a nos doar; e essa doação acontece a cada um no seu nível de entendimento e desprendimento.

Nunca estivemos ao desamparo, vemos em Deuteronômio, 24: 19-22:


“Quando no teu campo colheres a tua colheita, e esqueceres um molho no campo, não tornarás a tomá-lo; para o estrangeiro, para o órfão, e para a viúva será; para que o Senhor teu Deus te abençoe em toda a obra das tuas mãos, quando sacudires a tua oliveira, não voltarás para colher o fruto dos ramos; para o estrangeiro, para o órfão, e para a viúva será. Quando vindimares a tua vinha, não voltarás para rebuscá-la; para o estrangeiro, para o órfão, e para a viúva será. E lembrar-te-ás de que foste servo na terra do Egito; portanto te ordeno que faças isso.” (Deuteronômio 24:19-22)

Vemos em: Salmos 41:1: "Bem aventurado é aquele que atende ao pobre; o Senhor o livrará no dia do mal”.

E em Provérbios, 11:24: “Quem dá com generosidade, vê suas riquezas se multiplicarem; outros preferem reter o que deveriam ofertar, e caem na pobreza”.

Mesmo que seja por interesse, todo benefício ofertado a outro, travestido de caridade, mas que no fundo visa auferir algum retorno, não é um bem genuíno, mas, como foi citado, de acordo com A Gênese, o bem é sempre o bem, e nunca se perde, pois Deus, “do próprio mal faz nascer o bem.”

Também no Novo Testamento vamos encontrar muitos conselhos a que praticássemos a caridade, é o que encontramos em Lucas 6:38: “Dai, e ser-vos-á dado; boa medida, recalcada, sacudida e transbordando, vos deitarão no vosso regaço; porque com a mesma medida com que medirdes também vos medirão de novo”.

Há porém um equívoco ao interpretar Paulo em: Romanos 3:23 e 24 quando fala: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus”. - Essa afirmativa leva muitos a crer que obras são desnecessárias, pois o que salva é a graça que é dada ‘gratuitamente’, a alguns escolhidos; aqueles a quem Deus agracia por sua vontade divina. Os demais deverão ser salvos pela fé, e acrescentaram; “Por aceitar Jesus”, lembrando que equivocadamente esse “Aceitar Jesus implica em aderir, ingressar no credo, de quem está pregando". A Esses que assim apregoam devemos lembra o que nos diz, Tiago em 2:14 a 17: “De que adianta, meus irmãos alguém dizer que tem fé, se não tem obras? A caso a fé pode salvá-lo? Se o irmão ou irmã estiver necessitando de roupas e do alimento de cada dia e um de vocês lhe disser: “Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se”, sem porém lhe dar nada, de que adianta isso? Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta”.

Falamos até aqui sobre a caridade material; vejamos como seria a caridade moral;.

A caridade material, só a pode praticar quem tem posses que lhe permitam fazer doações, portanto nem todos podem.


Já a caridade moral, está ao alcance de todos. Independe de ter posses; mas será necessário sentir empatia pelos que sofrem; ter disposição e disponibilidade para ouvir; estar atento ao que ouve, e principalmente, estar preparado pra não se permitir contaminar pelas lamúrias de quem usa seus ouvidos pra descarregar sua tensão emocional.

Muitas tragédias podem ser evitadas se o que se encontra no fim de suas forças encontrar ouvidos preparados para exercer essa caridade de, sem se deixar contaminar, permitir ao outro promover a catarse de sua dor.


Outras formas de praticar a caridade moral, são: silenciar sobre os erros de alguém, mesmo que tenhamos certeza de que esse alguém praticou tais falhas; evitar dar prosseguimento a comentários desnecessários mesmo que verdadeiros, e que certamente vão trazer inquietação, dúvidas e medos desnecessários; e em épocas de fake News, passar pelas três peneiras de Sócrates as notícias que vamos espalhar:

Um homem foi ao encontro de Sócrates levando ao filósofo uma informação que julgava de seu interesse:

- Quero contar-te uma coisa a respeito de um amigo teu!

- Espera um momento – disse Sócrates – Antes de contar-me, quero saber se fizeste passar essa informação pelas três peneiras.

- Três peneiras? Que queres dizer?

- Vamos peneirar aquilo que quer me dizer. Devemos sempre usar as três peneiras. Se não as conheces, presta bem atenção. A primeira é a peneira da VERDADE. Tens certeza de que isso que queres dizer-me é verdade?

- Bem, foi o que ouvi outros contarem. Não sei exatamente se é verdade.

- A segunda peneira é a da BONDADE. Com certeza, deves ter passado a informação pela peneira da bondade. Ou não?

Envergonhado, o homem respondeu: - Devo confessar que não.

- A terceira peneira é a da UTILIDADE. Pensaste bem se é útil o que vieste falar a respeito do meu amigo?

- Útil? Na verdade, não.

Então, disse-lhe o sábio, se o que queres contar-me não é verdadeiro, nem bom, nem útil, então é melhor que o guardes apenas para ti.

Seria um bom começo pra colocar em prática essa caridade que nada nos custa financeiramente, muito pode no socorro a quem sofre, e nos coloca na linha de frente do serviço na Seara de Jesus

==============

REFERÊNCIAS


ALVARENGA, MARY; Secretaria de Educação do Paraná. Centro de Ensino Urbano Rocha - As três peneiras de Sócrates – Secretaria da Educação do Paraná - Av. Água Verde, 2140 - Vila Izabel - CEP 80240=900 - Curitiba - PR  Disponível em: http://filosofia.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=1293. Acesso em: 20 DE ABRIL DE 2020

BACELAR, Dolores; Alvorecer da Espiritualidade: 4 Ed. São Bernardo do Campo SP Ed. CORREIO FRATERNO. 1989 - Av. Humberto de Alencar Castelo Branco, 2959 - SP - Brasil. 210 Pg.

BÍBLIA, N. T. Deuteronômio, 24: 19-22; Salmos 41:1; Provérbios, 11:24; Romanos 3:23 e 24; Tiago em 2:14 a 17: In BÍBLIA. Sagrada Bíblia Católica: 20ª IMPRESSÃO. Velho e Novo Testamento. Tradução: João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro RJ: Imprensa Bíblica Brasileira, 1969.

KARDEC, Allan; A Gênese: 30ª Ed. Brasília DF - FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA DEPARTAMENTO EDITORIAL – Av. L - 2 Q.603 – Conjunto F – CEP 70830-030 - 1987 – Brasil. 423 Pg.

KARDEC, Allan; Evangelho Segundo o Espiritismo: 109ª Ed. Brasília DF - Federação Espírita Brasileira Departamento Editorial – Av. L - 2 Q.603 – Conjunto F – CEP 70830-030 - 1994 – Brasil. 435 Pg.

KARDEC, Allan; Obras Póstumas: 26ª Ed. Brasília DF - Federação Espírita Brasileira Departamento Editorial – Av. L - 2 Q.603 – Conjunto F – CEP 70830-030 - 1993 – Brasil. 395 Pg.

311 visualizações

Comments


Postagens Recentes
Postagens Populares
Siga-nos
  • Logo para Site
  • Facebook Long Shadow
  • Twitter Long Shadow
  • Instagram Social Icon
Procure por  palavras chaves
bottom of page