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Desapego: A vida é sobre o que se leva e não sobre o que se deixa.


Ludmila de Almeida Rosa

 

A cultura do apego está muito presente desde a infância, quando se refere ao pai e a mãe como “meus pais”. Quando o brinquedo não pode ser compartilhado com o coleguinha porque ele é “meu brinquedo”. Nas relações afetivas, o outro as vezes é privado da liberdade e privacidade porque ele é “meu marido/esposa/namorado (a)”. Zíbia Gasparetto já dizia: ninguém é de ninguém!

 

O desapego é uma qualidade que muitos buscam desenvolver em suas vidas, pois acreditam que ele é essencial para alcançar a paz interior e a evolução espiritual. Uma perspectiva valiosa sobre o desapego pode ser encontrada na Filosofia Espírita, cujo fundador, Allan Kardec, ofereceu diversas reflexões sobre o tema em suas obras.


Uma dessas reflexões encontra-se na questão 917 em “O Livro dos Espíritos”, sobre como destruir o egoísmo, esse que está arraigado no ser humano que só pensa no interesse próprio.

 

“De todas as imperfeições humanas, o egoísmo é a mais difícil de desenraizar-se porque deriva da influência da matéria, influência de que o homem, ainda muito próximo de sua origem, não pôde libertar-se e para cujo entretenimento tudo concorre: suas leis, sua organização social, sua educação. O egoísmo se enfraquecerá à proporção que a vida moral for predominando sobre a vida material e, sobretudo, com a compreensão, que o Espiritismo vos faculta, do vosso estado futuro, real e não desfigurado por ficções alegóricas.” (KARDEC, 2022, p. 326-327).

 

O Espiritismo como codificado por Allan Kardec, traz a ideia fundamental da imortalidade da alma e da reencarnação. Através desses princípios, Kardec nos convida a considerar o desapego de uma maneira única e profunda. Abaixo citações extraídas do livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo” afim de elucidar os tópicos e trazer compreensão do processo que levará o indivíduo a verdadeira felicidade.

 

1. Desapego aos bens materiais: Allan Kardec enfatiza que a verdadeira riqueza está na evolução espiritual, não na acumulação de bens materiais. Ele nos lembra que ao desapegar-nos das preocupações excessivas com a posse material, podemos abrir espaço para o crescimento espiritual e para o auxílio aos outros.

sabei contentar-vos com pouco. Se sois pobres, não invejeis os ricos, porquanto a riqueza não é necessária à felicidade. Se sois ricos, não esqueçais que os bens de que dispondes apenas vos estão confiados e que tendes de justifi­car o emprego que lhes derdes, como se prestásseis contas de uma tutela. (KARDEC, 2023, p. 210).

 

2. Desapego em relação às paixões e vícios: Kardec também nos adverte sobre a importância de nos desapegarmos das paixões e vícios que podem prejudicar nosso progresso espiritual. Ele nos encoraja a cultivar virtudes como a humildade, a caridade e a paciência.

“Toda a moral de Jesus se resume na caridade e na humildade, isto é, nas duas virtudes contrárias ao egoísmo e ao orgulho. Em todos os seus ensinos, Ele aponta essas duas virtudes como as que conduzem à eterna felicidade: “Bem-aventurados”, disse, “os pobres de espírito”, isto é, “os humildes, porque deles é o Reino dos Céus; bem-aventurados os que têm puro o coração; bem-aventurados os que são brandos e pacíficos; bem-a­venturados os que são misericordiosos” (KARDEC, 2023, p. 189).


 

3. Desapego aos sentimentos negativos: O mestre espírita nos lembra que o ressentimento, o ódio e a raiva são sentimentos que nos afastam da luz espiritual. O desapego emocional nos permite perdoar, compreender e encontrar paz interior.

Reconciliai-vos o mais depressa possível com o vosso adversário, en­quanto estais com ele a caminho, para que ele não vos entregue ao juiz, o juiz não vos entregue ao ministro da justiça e não sejais metido em prisão. Digo-vos, em verdade, que daí não saireis, enquanto não houverdes pago o último ceitil.” (KARDEC, 2023, p. 128).

 

4. Desapego em relação ao ego: Kardec nos convida a transcender o ego, reconhecendo nossa interconexão com todos os seres. O desapego do ego nos ajuda a compreender que somos parte de um todo maior e a agir com amor e compaixão.

Amar o próximo como a si mesmo: fazer pelos outros o que que­reríamos que os outros fizessem por nós”, é a expressão mais completa da caridade, porque resume todos os deveres do homem para com o próximo. (KARDEC, 2023, p. 139).

 

5. Desapego à ansiedade pelo futuro: A crença na reencarnação nos ensina que a vida é uma jornada contínua e de muitos aprendizados. O desapego em relação à ansiedade pelo futuro nos permite viver o presente com gratidão e confiança no plano divino.

Coragem, amigos! Tendes no Cristo o vosso modelo. Mais sofreu Ele do que qualquer de vós e nada tinha de que se penitenciar, ao passo que vós tendes de expiar o vosso passado e de vos fortalecer para o futuro. Sede, pois, pacientes, sede cristãos. Essa palavra resume tudo. (KARDEC, 2023, p. 123).

 

O Espiritismo trazido por Allan Kardec oferece uma abordagem espiritualmente enriquecedora ao conceito de desapego. Ele nos convida a refletir sobre o que realmente importa em nossa jornada espiritual e a soltar as amarras que nos impedem de crescer e evoluir. O desapego não é um ato de renúncia, mas sim um caminho para a verdadeira liberdade espiritual e felicidade.

 

Que possamos, através do entendimento desses princípios, buscar o desapego como um meio de crescimento espiritual e de contribuição para um mundo mais harmonioso e amoroso.

 

Ajustar as velas é preciso para que ao sair do leme com o seu barco você tenha certeza de onde estava e para aonde irá. Daqui nada se leva, a não ser o bem praticado, o amor doado.

 

Não deixe que o apego mine sua razão de viver, vida essa que quando bem vivida deixa a certeza de que foi feito o que se podia com o que se tinha em determinados momentos, tornando assim a partida mais branda quando olharmos para trás.

 

A vida é sobre o que se leva e não sobre o que se deixa, pensemos nisso!

 

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Referências

 

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Campos dos Goytacazes/RJ, Editora Letra Espírita. 2023.

 

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Campos dos Goytacazes/RJ, Editora Letra Espírita. 2022.



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