Espírita fica de luto?
- 27 de mai.
- 3 min de leitura

Nandra Laura
Sim, fica de luto. O Espírita pode ficar em estado de luto porque ele não é diferente de nenhum ser humano. Se a religião determinasse de maneira automática isentar-se desse estado de tristeza sem passar pelas fases do choro, revolta, saudade, de fato seria mais fácil. Contudo, o Espírita é dotado de emoções e isso não o isenta de experenciar uma situação tão particular.
Há comentários do tipo que “Espírita não chora porque sabe como é o outro lado”, ou que o Espírita “não pode se apegar à essa dor porque logo a pessoa vai reencarnar”, bem como outras frases feitas que são comentários frios e citados aos ventos: “aqui é só uma passagem e chegou a hora de partir”.
Existe na Comunidade Espírita os dois lados da moeda. Entretanto, a prova do luto é necessária para todos os que vivem no planeta e o modo como será encarado o luto é o que importa.
Na obra lançada pela Editora Letra Espírita, Na Trilha do Bem, o personagem principal Edgar Drumond vive esse momento em sua vida quando encarnado. Um querido amigo, Joaquim, a quem ele sentia afeto paterno desencarna.
No parágrafo seguinte o autor Otávio Müller, intuído por Amigos Espirituais, relata que Edgar viveu esse luto quieto e entristecido, porém lembrando do Sr. Joaquim com muita gratidão, já que foi ele quem ofereceu seu primeiro emprego, ensinou o ofício da sapataria e legou o próprio negócio de forma generosa em testamento.
Agir com frieza ou desprezar essa vivência não é o caminho da caridade que se espera de um Espírita. Assim como o comportamento soberbo de palestrar diante de um alguém enlutado. O caminho do equilíbrio é confiar no Evangelho de Jesus. O Mestre Nazareno, em Sua passagem na Terra, disse que passaríamos por provações, mas que confiássemos Nele e no Criador.
Lembremos também que Jesus de Nazaré chorou ao saber da morte de seu amigo Lázaro. Esse sentimento de “perder” alguém querido também foi vivido pelo homem mais pacífico que a Terra conheceu, logo, ninguém está ileso de viver essa dor.
Talvez essa aura de irmãos “esclarecidos” tenha grudado como tatuagem nos Espíritas. Ficaram estigmatizados “porque se chorar, pode atrapalhar a evolução espiritual do desencarnado”. Parte daí a suma importância de estudar as obras espíritas, ler e aplicar o Evangelho na vida diária para que a cada partida de um ente amado, saiba-se encarar a prova com mais amor em nossos corações.

A vivência do luto é íntima e intransferível. O Espírita traz consigo algumas certezas como a saudade e a necessidade do perdão mesmo que post mortem. Uma outra prática comum é fazer a prece pelos recém-desencarnados; já que agora as pontes de comunicação com os entes amados e desencarnados são invisíveis, nada mais puro do que uma prece sincera pelo os que já foram.
As circunstâncias do desencarne do ente amado afeta direta ou indiretamente o Espírita. Se de repente foi uma situação de cuidados paliativos, em que nesse caso, aguarda-se a morte assistida ou esperada pelos familiares com o fim de não ter sofrimento, a despedida já vinha sendo feita de forma paulatina de ambos os lados. Nessa fase, a resignação pode ser considerada mais tranquila.
Todavia, nos casos mais violentos ou repentinos, os Espíritas chocam-se tanto quanto qualquer pessoa. Espíritas são irmãos feitos de sentimentos e emoções e nada impede de sentir raiva, revolta e dor diante de quadros dessa estirpe.
O Evangelho Segundo Espiritismo ressalta a máxima “Orai e Vigiai”. Esse convite se estende ao momento enlutado. Vigiar os pensamentos, ações e palavras nessa fase delicada. Essa vigília é no sentido de atentar-se para que não caía em processos auto obsessivos ou obsessivos. Diante da fragilidade emocional, o estado espiritual pode sucumbir e estar vulnerável aos ataques de irmãos menos esclarecidos, especialmente aqueles que se aproveitam de nossas comiserações.
Dessa forma, conclui-se que o luto se estende também aos Espíritas. Ninguém escapa da dor da perda de um ente amado diante da morte. O Espírita apenas busca olhar para essa partida com os olhos da alma, de que não será um adeus e que também foi um reencontro necessário, que e seguimos para outras estações respeitando a Lei Divina que nos garante que transitaremos em outras moradas do nosso Pai.
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Referências:
1- Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução Guillon Ribeiro. Campos dos Goytacazes/RJ: Editora Letra Espírita. 2023.
2- Müller, Otávio, intuído por Amigos Espirituais. Na Trilha do Bem. Campos de Goytacazes/RJ. 2025.
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