top of page
Tópicos

Esquizofrenia e Espiritismo




Por: Tarcio Rodrigues

A esquizofrenia tem origem na chamada demência precoce[1], entidade clínica admita em três modalidades: a hebefrênica, a catatônica e a paranoide, tendo como predicado comum o enfraquecimento da inteligência e as numerosas alucinações, mas só é denominada por Bleuler em 1911 na monografia intitulada “Demência precoce ou o grupo das esquizofrenias”[2] onde diferencia “sintomas primários” e etiológicos dos “sintomas fundamentais” relativos à diagnose, classificando a fragmentação do Eu, nas funções psíquicas, como uma das principais sintomáticas da patologia.


Ocorre o que, nos estudos de Lacan, se denomina como transitivismo[3], fenômeno onde não se diferencia o outro do Eu e há mesmo que uma fragmentação daquilo que é considerado de si mesmo, externalizando-se nos delírios.


Traz-nos André Luiz, no livro “No Mundo Maior”, caso de Fabricio que acometido pela Esquizofrenia não delineava bem o ambiente externo e sua mente superexcitada, qual fornalha ardente, rememora o passado que se afigura vivo nas vozes de seu pai e irmãos que lhe cobram a herança da qual se apropriou com exclusivismo.


O pai as vésperas da morte fez com que Fabricio lhe prometesse o cuidado com os irmãos mais novos, mas com a sucessão do patrimônio arrojou-os à penúria, onde dois morreram em sanatório após anos de indigência e outro desencarnou antes dos trinta anos vítima de desnutrição, enquanto Fabricio usava o dinheiro para divertimentos e prazeres evitando as reponsabilidades assumidas.


Entretanto o tempo consumiu suas forças fisiológicas e desvencilhou o véu das ilusões que o distraíam da própria consciência, que guardava na organização mental os resquícios do crime praticado. Acabou por encontrar a si mesmo e sua mente corrompida, ao ponto de não conseguir concentrar-se no próprio Eu sem ouvir a voz do pai e dos irmãos imputando-lhe as faltas.


Nota-se na narrativa de André Luiz a mesma fragmentação do Eu que a psicopatologia se refere, tendo como origem a exigência de reexame da conduta egoística do passado. Fabricio que negligenciou de tal forma o compromisso com os irmãos e o pai ouve suas vozes o conclamando à reparação, o constrangimento surge como “sentença de condenação” proferida pela própria consciência. A “loucura” o constrange e acautela a livre manifestação de sua organização consciente, como disseram os espíritos na questão 376 de O Livro dos Espíritos “O Espírito sofre pelo constrangimento em que se acha e pela impossibilidade em que se vê de manifestar-se livremente”.[4]


Kardec apresenta comparação semelhante à restrição da liberdade no comentário à questão 372A, vejamos:


“É preciso distinguir o estado normal do estado patológico. No estado normal, a moral supera o obstáculo que a matéria lhe opõe. Mas há casos em que a matéria oferece tal resistência que as manifestações são obstruídas ou alteradas, como acontece no idiotismo e na loucura. Esses são os casos patológicos e, nesse estado, uma vez que a alma não goza de toda a sua liberdade, a própria lei humana a isenta da responsabilidade sobre seus atos.”[5]


Se durante uma existência o desdobramento lógico é de que o abuso dos compromissos seja penalizado com a privação de liberdade da manifestação consciente, provavelmente, o mesmo se procede entre reencarnações, pois é o que afirma o instrutor Calderaro à André Luiz:


“Ponderamos não só a aprendizagem de uma existência efêmera, mas também a romagem da alma nos caminhos infinitos da vida, da vida imperecível que segue sempre, vencendo as imposições e as injunções da forma, purificando-se e santificando-se cada dia. Verificarás, conosco, afligente quadro de padecimentos espirituais e é provável que apreendas, num hospício humano, algo dos desequilíbrios que afetam a mente desviada das Leis Universais.”[6]


Assim, nas patologias, há um óbice à livre manifestação da alma e se é a consciência quem promove a moderação dessa liberdade ela, então, funciona com o agente moral determinante e regulador, onde a pena e o castigo é nos dizeres de Paulo:


“A consequência natural, que deriva desse falso movimento (da alma); uma soma de dores necessárias para fazê-lo repugnar sua deformidade, pela experiência do sofrimento. O castigo é o aguilhão que estimula a alma, pela amargura, a voltar-se sobre si mesma, e a retornar o porto de salvação”[7] (grifo nosso)


O instrutor Calderaro assevera ainda:


“Quanto às perturbações que acompanham a alma no renascimento ou na infância do corpo, na juventude ou na senilidade, é mister reconhecer que o desequilíbrio começa na inobservância da Lei, como a expiação se inicia no crime. Adotada a conduta em desacordo com a realidade, encontra o espírito, invariavelmente, em todos os círculos onde se veja, os efeitos da própria ação.”[8]


Ainda não sabemos formular os inúmeros mecanismos de ação da consciência na reparação dos atos de transgressão às Leis Morais[9], mas a bibliografia espírita demonstra que os desdobramentos psicopatológicos em maioria[10] são medidas de restauração que o