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Processo de Desencarnação


Lívia Couto


“Uma existência é um ato.

Um corpo – uma veste

Um século – um dia

Um serviço – uma experiência

Uma morte – um sopro renovador”.

(André Luiz).


O processo de desencarnação, na perspectiva do Espiritismo, é uma transição fundamental na jornada da alma, marcando a separação do corpo físico e a liberação do Espírito para continuarmos nossa evolução em um Plano Espiritual. Segundo a Doutrina Espírita, a desencarnação é uma experiência natural e inevitável, fazendo parte do ciclo reencarnatório da alma.


A visão espírita da desencarnação nos aponta para a continuidade da vida após a morte física. De acordo com o Espiritismo, o corpo físico é apenas uma vestimenta temporária que abriga o Espírito durante sua jornada terrena. Quando chega o momento da desencarnação, o Espírito se desprende suavemente do corpo, iniciando uma nova etapa de sua existência.


Esse processo ocorre de forma diferente para cada indivíduo, dependendo de sua evolução espiritual e das circunstâncias de sua vida terrena. Alguns Espíritos podem passar por um período de desorientação inicial, enquanto outros se desprendem do corpo de forma mais tranquila e consciente. É importante ressaltar que, de acordo com o Espiritismo, a experiência de desencarnação não é o fim da existência, mas sim a passagem para uma nova fase.


Sendo assim, o processo de desencarne é uma parte intrínseca da vida, tão natural e previsível quanto o nascimento. No entanto, enquanto o nascimento é celebrado, a morte se tornou um tema temido e evitado na sociedade moderna. Podemos adiar sua chegada, mas não escapar dela. A morte não faz distinção, atingindo indiscriminadamente a todos. Nem mesmo as boas ações garantem a imunidade, pois tanto os virtuosos quanto os ímpios a enfrentarão. Aqueles que valorizam o controle sobre suas próprias vidas são os que mais se perturbam com a ideia de que também estão sujeitos ao processo de desencarne (KUBLER-ROSS, 1996).


Dessa forma, é necessário enfatizar que a morte não existe, apesar da dor que possa nos envolver, é preciso que saibamos substituir o desespero, por pensamentos de resignação e orações com mensagens positivas, junto de entes queridos que nos deixam pelo processo da desencarnação. Assim, após a desencarnação, o Espírito segue para o Plano Espiritual, onde revisa sua vida e suas ações terrenas, enfrentando as consequências de suas escolhas e atitudes. Esse período é uma oportunidade para crescimento espiritual, aprendizado e regeneração. O processo de desencarne, portanto, é visto como uma transição importante que permite ao Espírito progredir em sua jornada de evolução.


No Espiritismo, a compreensão da desencarnação é intrinsecamente ligada à ideia da reencarnação, já que o Espírito volta a habitar um corpo físico em diferentes encarnações, com o propósito de aprender, evoluir e aprimorar-se moralmente. Assim, a desencarnação é vista como um elo nesse ciclo eterno de aprendizado e aprimoramento espiritual.


Certos autores espíritas forneceram insights valiosos sobre o processo de desencarnação. Allan Kardec, em suas obras fundamentais como “O Livro dos Espíritos”, “O Livro dos Médiuns” e “O Céu e o Inferno”, abordou amplamente essa temática. Segundo este autor, é importante a preparação espiritual ao longo da vida terrena, pois isso influenciaria a experiência da desencarnação e a vida no Mundo Espiritual. Kardec enfatizou que, para aquele cuja alma transcendeu a materialidade e cujos pensamentos se elevaram além das preocupações terrenas, o desapego quase se concretiza antes da morte física (KARDEC, 2009). Isso significa que enquanto o corpo ainda possui vida orgânica, o Espírito já adentra o Domínio Espiritual, mantido apenas por uma tênue conexão que se desfaz com o último suspiro do coração.


André Luiz, que psicografou suas obras através da mediunidade de Chico Xavier, ofereceu uma visão detalhada do processo de desencarnação em livros como “Nosso Lar” e “Obreiros da vida eterna”. Suas descrições fornecem uma imagem vívida da transição entre os planos físico e Espiritual, enfatizando a necessidade de desapego material e a adaptação às novas realidades após o desencarne.


Outro autor espírita notável é Emmanuel, que também se comunicou com Chico Xavier. Emmanuel discutiu a importância do amor, da caridade e do perdão como elementos fundamentais na preparação para a desencarnação, e como esses valores influenciam o destino espiritual do indivíduo em obras como “A Caminho da Luz” e “O consolador”.


Esses autores contribuíram significativamente para a compreensão do processo de desencarnação, oferecendo orientações espirituais e morais que visam a auxiliar os indivíduos a enfrentar essa transição de forma mais tranquila e evolutiva, sempre enfatizando a continuidade da vida após a morte como um princípio central.


Contudo, a parte mais complexa e desafiadora do processo de desencarnação está relacionada à revisão da vida, ao julgamento pessoal e à confrontação das consequências das ações passadas (KARDEC, 2022). Neste ponto, a alma que deixa o corpo físico passa por um exame espiritual minucioso de sua trajetória terrena, enfrentando o peso de suas escolhas e comportamentos.



A revisão da vida é um momento crucial e muitas vezes desafiador para o Espírito, em que ele é chamado a fazer um inventário completo de suas ações, intenções e impactos que teve sobre si mesmo e sobre os outros durante sua encarnação. Nesse processo, não há julgamento externo ou punição infligida por Entidades Superiores; em vez disso, o próprio indivíduo é confrontado com a realidade de suas ações e seus efeitos na vida de outros e em sua própria evolução espiritual.


Já o julgamento pessoal se trata de uma autorreflexão profunda e íntima, em que o Espírito avalia seu crescimento moral, suas falhas e acertos, suas oportunidades perdidas e aproveitadas (KARDEC, 2013). Esse processo pode ser emocionalmente desafiador, pois o Espírito é confrontado com sua própria consciência, suas responsabilidades e o impacto de suas escolhas na jornada espiritual.


Em se tratando do processo de enfrentar as consequências das ações passadas, pode envolver sentimentos de arrependimento, remorso ou gratidão, dependendo das experiências vividas e das relações estabelecidas durante a encarnação. Chico Xavier evidenciou que o desencarne não significa escapar das responsabilidades passadas; pelo contrário, ele pode ser um momento de enfrentamento das dívidas morais e da lei de causa e efeito (BACCELLI, 2000). Por isso, se trata de um momento de aprendizado profundo, em que o Espírito compreende como suas ações contribuíram para seu próprio crescimento e para o desenvolvimento daqueles com quem interagiu.


Autores espíritas como André Luiz, Manoel Philomeno de Miranda forneceram percepções sobre essa fase desafiadora. André Luiz, em “Nosso Lar”, destacou a dor emocional que pode acompanhar a revisão da vida, especialmente quando o Espírito reconhece suas falhas e erros, o que pode ser uma parte difícil do processo de desencarnação. Ele ainda destacou como o sentimentalismo exacerbado da família inconformada com o desencarne do seu ente querido é prejudicial ao processo de desligamento. Já Manoel Philomeno de Miranda, em “Transição Planetária”, salientou como a consciência das ações passadas pode levar a sentimento de culpa e remorso intensos, tornando a desencarnação uma fase desafiadora.


Esses autores demonstraram a importância do aprendizado espiritual e da busca constante por evolução moral ao longo da vida terrena, pois isso irá preparar nosso Espírito para enfrentar o processo de desencarne com mais serenidade e compreensão. Visto que, a desencarnação é uma passagem natural em nosso ciclo de desenvolvimento, em que o Espírito se liberta do corpo físico para continuar sua jornada espiritual, enfrentando as consequências de suas ações e buscando a evolução e o progresso moral em sua jornada reencarnatória.


Por fim, a revisão da vida, o julgamento pessoal e o enfrentamento das consequências das ações passadas representam a parte mais desafiadora do processo de desencarnação. Esse período de autorreflexão e avaliação é fundamental para nosso progresso espiritual e demonstra a importância do aprendizado contínuo ao longo de nossas jornadas, por isso devemos sempre buscar a evolução moral e a compreensão profunda dos ensinamentos espirituais que regem as Leis de Causa e Efeito.


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Referências:


BACCELLI, Carlos A. Evangelho de Chico Xavier. Votuporanga, São Paulo: Editora Espírita “Pierre-Paul Didier”, 2000.


KARDEC, Allan. O céu e o inferno. Rio de janeiro: FEB. Segunda parte, cap. 1 item 9, 2009.


KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, tradução de Guillon Ribeiro. Brasília/DF: Editora FEB, 2013.


KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, tradução de Guillon Ribeiro. Campos dos Goytacazes/RJ: Editora Letra Espírita, 2022.


KUBLER-ROSS, Elisabeth. Morte: estágio final da evolução. Tradução de Ana Maria Coelho. Rio de Janeiro: Record, Cap.2, 1996.




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