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A visão espírita das drogas



Rafaela Paes de Campos


É muito necessário que se traga tal temática à baila e, na mesma proporção, é triste o contexto no qual se inserem aqueles que se deixam levar pela viciação em substâncias que proporcionam fuga da realidade e ilusória sensação de bem-estar que, ao longo do tempo, torna-se cada vez mais difícil de alcançar, levando ao agravamento do quadro.


Quando se fala a respeito das drogas, é comum que automaticamente pensemos naquelas que são tidas como ilícitas pela materialidade do Direito, mas há outras, livremente comercializadas, com alto poder de viciação e de danos na vida daqueles que a consomem e, sim, na das pessoas que convivem e amam o que se deixou levar pelo vício.


Dados do Relatório Mundial sobre Drogas 2022, elaborado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC), dão conta de que os jovens estão consumindo mais drogas, sendo que na América Latina e na África, pessoas com menos de 35 anos são a maioria das que se encontram em tratamento decorrente do vício. E informa, ainda, que no ano de 2020, 284 milhões de pessoas com idade entre 15 e 64 anos fizeram uso de drogas, o que corresponde a um aumento de 26% em comparação a 10 anos atrás (SAÚDE DEBATE, 2022, on-line). Esses dados referem-se a drogas ilícitas.


São números alarmantes e, claro, é um quadro gravíssimo vivido pela sociedade contemporânea.


Não há como esquecer do álcool, vendido livremente e socialmente aceito, levando a altos índices de dependência que devastam o alcoolista e suas famílias. Por fim, há os cigarros, também vendidos livremente e, mais recentemente, o advento da ‘moda’ dos cigarros eletrônicos que seguem sendo vendidos apesar da proibição constante na Resolução nº 46, de 28 de agosto de 2009, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).


Sejam ilícitas ou licitas, as drogas destroem a vida daquele que as consome, destroem famílias, fragilizam a todos emocionalmente, além do claro prejuízo trazido à saúde do usuário. São temas ainda tido como tabus pela coletividade, que causam desconforto e tornam dependentes pessoas mal vistas, quando necessitam, na realidade, de amparo, acolhimento e socorro.


Do ponto de vista da Doutrina Espírita, é preciso reconhecer que viver num mundo de provas e expiações traz intenso peso ao caminhar da vida. Bem sabemos que vivemos dificuldades diversas ao longo do tempo, sejam elas, provas a nos testar ou expiações a resgatar, levando algumas pessoas à triste conclusão de que drogas são capazes de aliviar o peso dos acontecimentos.


Estarmos hoje encarnados tem o objetivo primordial de que todos nós alcemos voos maiores com nossos aprendizados e, assim, evoluamos. Entretanto, quando nos deixamos levar pelas pretensas fugas da realidade, estamos apenas agindo de forma a adiar esse processo, numa perda de tempo triste para o Espírito.


Diz-nos Kardec em nota à questão 908 de O Livro dos Espíritos que “toda paixão que aproxima o homem da natureza animal afasta-o da natureza espiritual” (KARDEC, 2022, p. 325). Aquilo que nos leva a priorizar o ‘prazer’ da matéria – como as sensações proporcionadas pelas drogas – nos aproximam de nossa essência material, distanciando-nos da natureza real do Espírito que somos.


São diversos os motivos elencados por aqueles que se inseriram nas realidades viciosas, mas em todos eles houve uma escolha inicial que poderia ter sido outra. Na questão 909 também de O Livro dos Espíritos temos:


909. Poderia o homem, pelos seus esforços, vencer as suas más inclinações?

Sim, e, frequentemente, fazendo esforços muito insignificantes. O que lhe falta é a vontade. Ah! Quão poucos dentre vós fazem esforços” (KARDEC, 2022, p. 325).

É possível que façamos certa ideia das dores vivenciadas por aqueles que sucumbem, mas todos nós bem sabemos dos prejuízos oriundos de tais condutas. Utilizando da racionalidade que nos é inerente, a repulsa pelo uso de drogas seria esse esforço insignificante mencionado pela Espiritualidade. Mas a escolha feita é outra, num exercício pleno do livre-arbítrio que acompanha a todos nós.


Isso porque não há que se falar em arrastamentos irresistíveis, nem quando se está às beiras da atmosfera viciante: “Arrastamento, sim, irresistível, não; porquanto mesmo dentro da atmosfera do vício, com grandes virtudes às vezes deparas. São Espíritos que tiveram a força de resistir e que, ao mesmo tempo, receberam a missão de exercer boa influência sobre os seus semelhantes” (KARDEC, 2022, p. 246-247).


Reitera-se, não devemos julgar as escolhas alheias, não conhecemos senão as dores que sentimos em nossa própria pele, mas é certo que a todos nós, diante de cada necessidade de decisão na vida, há sempre dois caminhos. Um que já sabemos ser o certo e, o outro, tido como mais fácil (embora traga problemas maiores ao fim da estrada).


Como diz-nos o Espírito de um boêmio no livro O Céu e o Inferno, “as paixões humanas são grilhões estreitos que se enterram nas carnes; assim sendo, não lhes dei guarida. Vivei, mas não sejais boêmios. Não sabeis o quanto isso custa, quando regressamos à pátria! As paixões humanas vos despem antes de vos deixarem, de modo que chegareis nus diante do Senhor, completamente nus” (KARDEC, 2019, p. 194).


É necessário que olhemos para essas situações com caridade, não marginalizando o que se encontra perdido nas garras do vício, dando suporte emocional (que geralmente é extremamente fragilizado) e, seguindo a premissa de que a ciência hoje disponível é permitida pelo Alto, que façamos uso das terapias existentes no auxílio desses irmãos.


Esclarecendo sob a ótica Espírita, por certo que tais condições levam ao que se denomina suicídio indireto, onde não se tira a vida de forma instantânea, mas que se sabe que o decorrer do tempo fará antecipar a deterioração do corpo físico muito antes da hora.


São tristes as consequências materiais do vício, e mais ainda as que são encontradas pelo Espírito ao retornar à imaterialidade da vida, encontrando a mesma dor sentida antes, agravada pela consciência expandida e a triste visualização de um tempo perdido que não se recupera. Essas questões são brilhantemente esmiuçadas pela obra Para Superar a Dor, psicografada por Eliane Macarini e ditada pelo Espírito Marco Aurélio, que é o mais novo lançamento da editora Letra Espírita e fica como fica de leitura.


Protejamo-nos das perigosas dores que permitimos que nos lacem, estejamos atentos às sedutoras resoluções que de positivas nada carregam. E se tais garras não nos encontraram, proporcionando que olhemos de fora a situação, que saibamos ser luz no caminho dos que se encontram na escuridão, utilizando-nos do conhecimento intelectual e espiritual que já dispomos, a fim de oferecer amparo aos irmãos que ainda se perdem pelas sendas da encarnação humana.


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Referências:

KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. 2019. Editora EME: Capivari/SP.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, tradução de Guillon Ribeiro. 2022. Editora Letra Espírita: Campos dos Goytacazes/RJ.

SAÚDE DEBATE. Relatório revela que jovens estão usando mais drogas. 2022. Disponível em: https://saudedebate.com.br/noticias/relatorio-revela-que-jovens-estao-usando-mais-drogas/. Acesso em 16 de fevereiro de 2023.

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