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Desigualdades Sociais: Será Que Deus é Injusto?


Julia Thaís Porciúncula Serra


A desigualdade é um processo existente dentro das relações da sociedade e faz parte do nosso cotidiano em qualquer lugar do mundo, sejam as diferenças de cor, raça, posição social ou sexo. Viver o processo de desigualdade social é viver de forma limitada, não tendo acesso a direitos básicos e enfrentando outros problemas. O que nos faz questionar a Justiça Divina e se Deus é justo com tamanha crueldade, mesmo sendo obra do próprio homem. Sim, a desigualdade social ou qualquer problema enfrentado pela humanidade parte do próprio livre arbítrio do homem. Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec responde perguntas sobre a desigualdade social.

806. A desigualdade das condições sociais é uma lei da Natureza?

“Não. É obra do homem, não de Deus” (KARDEC, 2018, p. 261).

A desigualdade social não é um problema enfrentado agora, e por vezes é passado de geração em geração sem nunca ter uma melhora. Ao optar pela ganância, poder ou adoração por bens materiais, o homem criou uma grande diferença em sua sociedade. O homem pode usar o seu livre arbítrio como bem entender, porém, é necessário que arque com as consequências. Há as riquezas que são adquiridas por bem ou por mal, e conforme o desenvolvimento do homem e seu lugar de superioridade, as formas para acessá-las aumentou de diversas formas. Sobre as riquezas adquiridas ou herdadas, Kardec respondeu algumas perguntas:

808. a. A riqueza hereditária não é, entretanto, fruto das más paixões?

"O que sabes disso? Retorna à origem, e verás se ela sempre foi pura. Sabes se, no princípio, ela não foi fruto de uma espoliação ou de uma injustiça? Mesmo sem falar da origem, que pode ser má, acreditas que a cobiça de bens, ainda que adquiridos da melhor maneira, e os desejos secretos que se tem de possui-los o mais cedo possível, sejam sentimentos louváveis? É isso que Deus julga, e eu te asseguro que o julgamento de Deus é mais severo que o dos homens” (KARDEC, 2018, p. 262)

809. Se uma fortuna foi adquirida, no princípio, por meios inadequados, aqueles que mais tarde a herdam são responsáveis por isso?

“Sem dúvida não são responsáveis pelo mal que os outros houverem feito, e menos ainda se ignoram essa origem. Mas saibas que muitas vezes uma fortuna só cai nas mãos de um homem para dar-lhe a oportunidade de reparar uma injustiça. Feliz dele se compreender isso! Se o faz em nome daquele que cometeu uma injustiça - pois muitas vezes é este quem incita a reparação -, isto contará a favor de ambos” (KARDEC, 2018, p. 262).

Ser rico ou pobre não significa nada sobre sua evolução, é sobre os seus sentimentos, o que você acredita e principalmente, a sua fé. Passar por momentos de miséria ou grandes fortunas não deve ser visto como punição ou vitória, é sobre como o Espírito consegue enxergar a si mesmo e ainda propagar o bem. Cada situação traz consigo um aprendizado diferente e quando se passa por situação de vulnerabilidade, por exemplo, o aprendizado e a evolução são morais, a busca pela paciência, sabedoria, humildade e, principalmente, a não ter relações afetivas com bens materiais. A pobreza ou qualquer lugar de vulnerabilidade não são uma forma de punição, é a oportunidade do Espírito ter diversas vivências e adquirir com sabedoria outros aprendizados buscando sua evolução.

A riqueza também pode não ser vista como uma coisa boa, principalmente quando vinda com atitudes de má fé. Diz respeito às conquistas vivenciadas pelo Espírito desde a sua criação e a possibilidade de manifestá-las nas condições atuais.

814. Por que Deus deu a uns as riquezas e o poder, e a outros a miséria?

“Para testá-los, a cada um de maneira diferente. Aliás, como sabeis, essas provas são escolhidas pelos próprios Espíritos, que, muitas vezes, nelas sucumbem” (KARDEC, 2018, p. 263).

806. a. Essa desigualdade desaparecerá algum dia?

“A única coisa eterna são as leis de Deus. Não vês a desigualdade apagar-se pouco a pouco a cada dia? Essa desigualdade desaparecerá junto com a predominância do orgulho e do egoísmo, e só restará a desigualdade do mérito. Chegará o dia em que os membros da grande família dos filhos de Deus não se olharão mais como sendo de sangue mais ou menos puro; só o Espírito pode ser mais ou menos puro, e isso não depende da posição social” (KARDEC, 2018, p. 261).

As trocas de posição acontecem não para que o Espírito seja o opressor ou o oprimido, mas sim para adquirir conhecimentos, aprendizados e evolução. Trabalhar sua fé em diferentes posições e conhecer outros lugares para que você consiga pensar no próximo e respeitá-lo. Mas sendo a obra do próprio homem, só o homem é capaz de arcar com as próprias consequências. Será então que algum dia conseguiremos aprender com os nossos próprios erros? Nos colocar no lugar do próximo e praticar empatia e respeito? A Justiça Divina age de forma perfeita e infalível, para isso precisamos ter fé, oração e agir com empatia para com o próximo, pensando sempre no bem coletivo e na sociedade, sempre agindo de boa fé.

Nosso papel é sempre transmitir e colocar em prática o que o Espiritismo tanto nos ensina: Sem caridade não há salvação. É importante auxiliar no que puder para que o seu auxílio seja passado adiante, gerando sempre evolução.


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Referência:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, tradução de Matheus R. Camargo. Editora EME: Capivari/SP. 2018.

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