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Luto de Entes Queridos na Doutrina Consoladora


Amanda Teixeira Dourado


"Ninguém morre. O aperfeiçoamento prossegue em toda parte. A vida renova e eleva os quadros múltiplos de seus servidores, conduzindo-os, vitoriosa e bela, à União suprema com a Divindade...’’

(Chico Xavier)


O luto é a fase que nos faz sentir profundamente o sentimento de tristeza após a perda de um ente querido, e através desse sentimento, faz gerar outros, como amargura e desgosto, por exemplo. Sabemos que não é fácil de lidar, entretanto, o luto é necessário, cabe a nós essa ser uma etapa muito dolorosa ou passageira. O luto sempre será doloroso, principalmente quando se trata de algum familiar ou ente muito próximo. Nós, espiritas, sabemos que a vida continua, que quem morre é o corpo físico, a nossa alma jamais. O estudo constante, o preparo, a consciência, nos ajeitam para esses momentos deprimidos e delicados, no qual temos a opção de atravessar de uma forma menos turbulenta. Mas você procura ler e estudar sobre o processo do luto?


No espiritismo contamos com muitas obras que nos explicam o que acontece após o desencarne, os exemplos de histórias são diversos, assim como a doutrina, obras que nos ensinam cada detalhe, mas a pergunta é, como lidar com o luto?


Vejamos essa confortadora história de Chico Xavier:


‘"Conta-se que o Apóstolo da Caridade, Francisco Cândido Xavier, o nosso Chico Xavier, estava passando por uma fase muito dura em sua vida.

Os problemas familiares se avolumavam, a incompreensão alheia se mostrava intensa e isso tudo lhe enchia o coração de inquietações e dores.

Um dia, em que as dores se mostravam mais profundas, recorreu Chico Xavier ao seu mentor espiritual, Emmanuel, a fim de fazer-lhe uma solicitação.

Rogou Chico se Emmanuel poderia fazer um pedido, solicitar um conselho a Maria Santíssima, a mãe de Jesus, que, com seu coração amoroso e materno, pudesse lhe dar um conselho em momento tão amargo de sua vida.

Emmanuel lhe respondeu que iria encaminhar sua solicitação. Passados alguns dias, retorna o Espírito venerável com a resposta de Maria, mãe de Jesus.

Chico, diz Emmanuel, Maria manda-lhe dizer o seguinte: "Tudo passa". E o sábio médium acolhe aquelas palavras curtas entendendo o seu significado.’’


Sim, até nosso querido Chico Xavier, mesmo com toda sua vasta experiência, sabedoria, tinha seus momentos de dores assim como todos nós, e ele procurava seu conforto em oração, pedindo conselhos, respeitando aquilo que lhe foi informado, acolhendo a mensagem de que tudo passa. Nenhuma dor é eterna. Assim como Chico, devemos acatar o que nos é passado, e ser cautelosos para lidar com o momento, pois, por falta de sabedoria, de fé, podemos mesmo sem intenção, atrapalhar o desencarne, a evolução daquele ente que se foi. A passagem após o desencarne exige paz, serenidade. Veja esse exemplo para o seu melhor entendimento:


Em uma família de pai, mãe e dois filhos, no qual essa família vive em desarmonia, brigas e conflitos constantes, falta de união, de fé, de princípios, respeito, inesperadamente o filho mais novo desencarna, desestruturando ainda mais essa família, que não possui instrução espiritual. Logo no velório, a reação dos familiares que não aceitam essa morte já se torna um ato que perturba o desencarnado. Passado um tempo, a mãe, que chora constantemente, se revolta com Deus, e a família que vive culpando um ao outro pelo fato ocorrido, gera ainda mais desordem ao desencarnado, pois este, se sente culpado pelas dores dos familiares que ficaram no plano terreno, atrasando completamente sua evolução.


Agora pense no cenário que se essa mesma família, independente da religião, possuísse a fé, Deus, sabedoria, no momento do desencarne inesperado, praticariam oração, procurariam se unir novamente, respeitar o desencarnado, aprender com os erros, assim, o luto com certeza seria menos doloroso para todos.


Enxergam a diferença? O modo como reagimos ao desencarne de alguém, influencia muito no progresso, tanto dele quanto nosso. A dor deve ser sentida, isso ninguém nos tira, mas a sabedoria deve ser aplicada, e isso teremos se estivermos em constante procura de Deus. Se você ama verdadeiramente o ente que se foi, saiba que você pode sim acalmar seu coração e o dele. A turbulência do desencarne afeta, debilita grandemente, sejamos cuidadosos. O que não falta são familiares que estão em depressão após o falecimento, que não entendem e não querem procurar entender, se atiram em álcool, drogas ou outros vícios por exemplo, a fim de diminuir seu luto. Tudo isso poderia ser evitado, se soubessem o quão destruidor isso é a quem se foi.


Allan Kardec, na questão 934, de ‘’O Livro dos Espíritos’’, questiona:


‘’A perda dos entes que nos são caros não constitui para nós legítima causa de dor, tanto mais legítima quanto é irreparável e independente da nossa vontade? Resposta: Das penas e gozos terrestres: Essa causa de dor atinge assim o rico, como o pobre: representa uma prova, ou expiação, e comum é a lei. Tendes, porém, uma consolação em poderdes comunicar-vos com os vossos amigos pelos meios que vos estão ao alcance, enquanto não dispondes de outros mais diretos e mais acessíveis aos vossos sentidos.”


Questão 936:


“Como as dores inconsoláveis dos sobreviventes afetam os Espíritos a que se dirigem? Resposta: O Espírito é sensível à lembrança e aos lamentos daqueles que amou, mas uma dor incessante e irracional o afeta penosamente, porque ele vê nessa dor excessiva uma falta de fé no futuro e de confiança em Deus e, por conseguinte, um obstáculo ao progresso e, talvez, ao reencontro.”

O espírito é sensível, mas ressalto, o luto é necessário, desde que não seja perturbador. Podemos chorar, recordar, nos emocionar, sentir saudade, porque isso é natural, temos emoções e sentimentos. Passar por isso é necessário para que coloquemos em prática tudo aquilo que ao longo dos anos de estudos absorvemos. Deus sabe de tudo.


Na obra ‘’Violetas na Janela’’, um romance escrito por Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho, tendo como exemplo, a história de Patrícia, que desencarnou jovem, de família espírita, seu processo de desencarne foi totalmente equilibrado e sereno, pois ela, enquanto encarnada, se preparou para isso através da doutrina, e seus familiares, através da sabedoria tinham esse conforto em seus corações. Patrícia não sofreu turbulências, pois sua família respeitou o processo de luto.


Vamos pensar em nosso cultural: na prática do luto, pelo menos em nosso país, considera-se ‘’normal’’ familiares terem a reação de chorar sem parar, vestirem-se de preto, gritar, terem reações ‘’inquietas’’ e ‘’desequilibradas’’ nos velórios. Pouco se vê pessoas em orações, e sim, conversando sobre alguma história que recorda do desencarnado, ou assuntos relativos, e isso é considerado ‘’normal’’, mas o normal não seria o silêncio? A paz? A oração? Reza? Será que alguns atos não inquietam o desencarnado? Fica a reflexão.


Não a nada mais intenso do que perder um filho(a), mãe, pai, avós, enfim, seja qual ente querido for. Lidar com a ausência de alguém reflete a saudade, mas quando se torna extrema dor, retrata a culpa por algo enquanto encarnado, de não vivenciar momento, de perder tempo, de não viajarem mais, de não falarem mais ‘’eu te amo’’, por exemplo.


Na obra ‘’Deixe-me partir’’ de Tânia Fernandes de Carvalho, temos um trecho que relata a importância do processo do luto:


‘’É um tempo entre duas fases da vida, a que se deixa, pela separação do ente querido, e a que vem depois. É preciso se soltar da relação que existia para construir uma verdadeira vida nova, sem esquecer a pessoa que se foi. O luto não vivenciado pode se tornar uma doença e muitas vezes um profissional da saúde deverá ser consultado para ajuda necessária. Muitas pessoas que não aceitam esse momento e não buscam esgotar todas as emoções daí advindas podem desenvolver mais tarde uma depressão, uma doença enfim, choque, negação, raiva, culpa, depressão, são as reações mais comuns que surgem no processo de luto.’’


Nessa mesma obra, nos explica o processo dos pensamentos:


‘’Sempre que um espírito pensa em outro encarnado ou desencarnado, um fio fluídico se estabelece entre ambos, servindo de canal de ligação de comunicação entre eles. É um canal de mão dupla de ida e volta. Os pensamentos, sentimentos e desejos de um como se fosse um telefone podem ser captados e interpretados pelo outro com maior ou menor intensidade, dependendo do vigor da fonte emissora do pensamento do sentimento do desejo. É como se de alguma forma os dois espíritos estivessem em contato íntimo, cada qual percebendo a presença do outro em espírito.’’


Não deixe a tristeza entrar em seu coração, se apegue em oração, em Deus, e não em álcool e drogas, pois isso não solucionará sua dor, e sim amenizará temporariamente, sem lhe ensinar o processo do luto. Para a culpa, é necessário se perdoar verdadeiramente, e entender o seguimento.


Atualmente, estamos passando por uma pandemia, no qual contamos com o número muito grande de desencanes diariamente, e isso nos exige tratar de assuntos como esse, assim como, conscientizar a quem está passando por isso. Não podemos nos abraçar, mas confortar com palavras, mensagens positivas aos nossos irmãos que se encontram perdidos no luto.


Em ‘’O evangelho segundo espiritismo’’ de Allan Kardec, podemos encontrar coletânea de preces, assim como diversas outras obras. Jamais vamos orar de maneira automática, e sim de forma espontânea, oração, conversa, com o ente que se foi, de todo nosso coração.


O luto deve ser vivido e não alimentado, ao longo do tempo a dor da separação ao desencarnado, vai diminuindo, devemos viver o luto de forma equilibrada, consciente. Busque praticar caridade para preencher seu coração, ler, estudar, se conhecer, meditar. Pelo luto, todos passarão. É preciso aprender que a morte faz parte da nossa vida, e ter maturidade de passar por isso. Lembre-se, logo estaremos todos juntos, trata-se de um até logo.

REFERÊNCIAS:

http://www.momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=2416&stat=3&palavras=tudo%20passa&tipo=t Acesso: 19/07/2021

Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 100. ed. Araras, SP: IDE, 1996. q. 936.

Kardec, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 2019. Edição 1. Editora FEB.

Fernandes de Carvalho, Tânia. Deixe-me partir. Editora: Petit. Ano: 2014

Lúcia Marinzeck de Carvalho. Vera. Violetas na Janela. Editora: Petit. Ano: 2013

https://www.pensador.com/frase/OTY2MjUz/ Acesso: 19/07/2021

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