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Um olhar espírita para os transtornos de personalidade


Geane O. Lanes


De acordo com o Código Internacional de Doenças (CID), os transtornos de personalidade são distúrbios que “representam modalidades de comportamento profundamente enraizadas e duradouras, que se manifestam sob a forma de reações inflexíveis a situações pessoais e sociais de natureza muito variada”. Ainda segundo o CID, “eles representam desvios extremos ou significativos das percepções, dos pensamentos, das sensações e particularmente das relações com os outros”.


Geralmente acompanhados de angústia pessoal e desorganização social, esses transtornos habitualmente aparecem durante a infância ou a adolescência e persistem de modo duradouro na idade adulta. Como os transtornos de personalidade não estão diretamente associados a uma doença, uma lesão ou um transtorno psiquiátrico, os tratamentos medicamentosos não costumam alterá-los, mas podem ajudar a reduzir os sintomas angustiantes. Segundo os psiquiatras, a psicoterapia seria a melhor forma de conscientizar os pacientes da necessidade de modificar o comportamento socialmente indesejável. Contudo, os pacientes com transtornos de personalidade geralmente não reconhecem o problema que possuem e, portanto, dificilmente aceitam aderir a uma psicoterapia.


Os transtornos de personalidade são subdivididos pelo CID em 10 categorias. O mais conhecido pela população geralmente está associado ao que a comunidade psiquiátrica nomeia como personalidade dissocial, sendo caracterizada pelo desprezo das obrigações sociais, pela falta de empatia para com o próximo, pela baixa tolerância à frustração e, muitas vezes, por atitudes agressivas e violentas. Conhecidos, sobretudo, como psicopatas e sociopatas, os portadores de personalidade dissocial já foram temas de vários livros, filmes e séries, o que, por um lado, ajudou as pessoas a reconhecerem os traços dessa personalidade nas pessoas ao seu redor, mas, em contrapartida, estimulou a criação de um estigma social, o qual traz sérios prejuízos àqueles que buscam mudar de comportamento.


Ainda que a Codificação Espírita não trate desse assunto de forma direta, visto que a compreensão acerca dos transtornos mentais e de personalidade ainda eram incipientes na época da publicação das Obras Básicas, a Espiritualidade nos trouxe, por meio de Kardec, bases sólidas para analisarmos tais condições com respeito e caridade, entendendo suas raízes e, principalmente, os aprendizados a elas atrelados. Entretanto, precisamos entender que, embora a Doutrina Espírita tenha acrescentado um novo olhar às questões ligadas à saúde mental, ela não descarta ou menospreza as influências psíquicas e físicas, apenas inclui o componente espiritual à equação, elucidando algumas questões até então incompreendidas acerca dos transtornos mentais e espirituais.

Nesse contexto, CHAVES et al. (2022) defendem o modelo biopsicossocioespiritual, o qual determina que o comportamento humano é gerado pela interação de fatores espirituais, biológicos e socioculturais, além das influências de desencarnados (obsessão espiritual). Segundo esse modelo, em um quadro de transtorno mental ou de personalidade, o Espírito traz marcas psíquicas ou tendências instintivas disfuncionais, construídas em experiências prévias, na dimensão física e na dimensão espiritual, associadas a uma persistente atitude mental desfavorável. O corpo, em especial o cérebro, contribui com uma fisiologia disfuncional, a qual pode ser resultante do planejamento reencarnatório (predisposições ou anomalias genéticas) ou de lesões ocorridas durante a vida material. Já o fator sociocultural interfere por meio das influências e traumas advindos do ambiente, no qual são incluídas questões sociais (poder aquisitivo, posição social, etc.), culturais (tradições familiares, preconceitos, padrões de comportamento preestabelecidos, etc.) e também a interação com a família e outros indivíduos da sociedade. O modelo de CHAVES et al. (2022) acrescenta a interação entre o encarnado e os desencarnados, apontando que uma ligação íntima com forças perturbadoras pode responder, em grande parte, pelos transtornos mentais dos encarnados.

No caso específico dos transtornos de personalidade, em especial dos transtornos de personalidade antissocial ou dissocial, CHAVES et al. (2022) pontuam que são condições em que as questões morais e a criminalidade estão fortemente relacionadas, sendo óbvia a predominância do Espírito, pois “as qualidades da alma são as do Espírito que está encarnado; assim, o homem de bem é a encarnação de um bom Espírito, o homem perverso a de um Espírito impuro” (KARDEC, 2022, p. 25). Em contrapartida, amparados por dados que mostram remissão de alguns indivíduos originalmente considerados como psicopatas e diagnósticos que evidenciam causas físicas para esse comportamento (lesões e anomalias em determinadas regiões do cérebro), CHAVES et al. (2022) explicam que nesses indivíduos existe algo mais do que manifestações de um Espírito impuro, havendo também influências biológicas e sociais. Ademais, devemos lembrar que comportamentos moralmente inadequados atraem indivíduos desencarnados em sintonia, de forma que, embora não justifiquem a ação antissocial de alguns portadores de transtornos de personalidade, a influência de desencarnados pode amplificar alguns comportamentos.


Dessa forma, percebemos que, como apontado pelo modelo biopsicossocioespiritual, os transtornos de personalidade têm influência do ambiente, do corpo biológico e de irmãos desencarnados, mas que são as tendências espirituais que se sobressaem, evidenciando questões pessoais que devem ser trabalhadas. Todavia, precisamos compreender que as tendências espirituais dos indivíduos não devem ser utilizadas como rótulos negativos ou como justificativas para extirpá-los do convívio social, pois, embora possam trazer prejuízos àqueles ao seu redor, esses comportamentos geram valiosas oportunidades de aprendizado e demonstram sérias fragilidades emocionais. De acordo com o CID, portadores de transtorno “bordeline”*, por exemplo, são irmãos com tendências nítidas a agir de modo imprevisível e sem consideração pelas consequências, passíveis de frequentes acessos de cólera e da incapacidade de controlar os comportamentos impulsivos. Por outro lado, caracterizam-se por perturbações da autoimagem, uma sensação crônica de vazio, por relações interpessoais intensas e instáveis e por uma tendência a adotar um comportamento autodestrutivo e suicida.


O Espiritismo não defende, de forma alguma, os comportamentos moralmente equivocados ou exime as pessoas de lidarem com as consequências materiais e espirituais de suas ações. Entretanto, a doutrina nos leva a refletir sobre a necessidade de olharmos para os nossos irmãos de forma mais caridosa. Nesse contexto, precisamos compreender que, assim como todos nós, os portadores de transtornos de personalidade são irmãos em processo de aperfeiçoamento, os quais, embora possam agir de forma impulsiva e violenta, precisam de auxílio para enxergarem a possibilidade de mudança. Em resumo, cabe a cada um de nós colocar em prática os ensinamentos cristãos, reconhecendo as atitudes antissociais que ainda portamos e trabalhando o respeito para com aqueles que ainda agem de forma destrutiva ou inadequada, entendendo que cada um tem o seu tempo, mas que todos somos merecedores e capazes de encontrar o equilíbrio e evoluirmos enquanto Espíritos e irmãos.


*“Borderline” é um subtipo do Transtorno de Personalidade com Instabilidade Emocional (CID).


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Referências:


CHAVES, Chrystian Barroso, MATOS, Ely Edison da Silva, OLIVEIRA, Ricardo Baesso. Personalidades enfermas: Um modelo espírita dos transtornos mentais. Ed, virtual O Consolador (EVOC). 2022.


CID - Código Internacional de Doenças. Disponível em:

http://www2.datasus.gov.br/cid10/V2008/WebHelp/f60_f69.htm (Visualizado em 20/05/2023)

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro: Editora Letra Espírita. 2022.



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