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O Autoperdão


Ana Paula Martins


Na magnífica oração ensinada pelo Mestre, há uma parte que diz: Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. Em uma análise superficial, é possível dizer que há um pedido de perdão e um comprometimento em perdoar quem cometeu uma ofensa. Sem dúvida, essa orientação é muito valiosa, mas não se pode esquecer que neste contexto está o perdão a si próprio.

 

Na estrada “erro-autoperdão” existem diversas paradas, como culpa, reconhecimento da culpa e reparação do erro. É importante lembrar que para ir de um ponto a outro, não é possível pular estas paradas. Quando se sai do “ponto erro” para chegar ao “ponto perdão”, obrigatoriamente é preciso passar pelos pontos culpa e reconhecimento da culpa. O que se quer dizer com isso? O autoperdão é um destino que não tem caminho expresso, não é algo que se alcance pulando etapas. 

 

Deve ser ressaltado que só é necessário autoperdão quando há culpa. Se a pessoa não percebe a culpa, não sente nenhuma necessidade de se perdoar.

 

Quando a pessoa não lida com a culpa de forma correta, esta assume imensas proporções, levando ao remorso, à estagnação do processo evolutivo e, até mesmo, à autodestruição. É muito comum a pessoa criar uma resistência mental ao autoperdão, revivendo continuadamente o erro cometido, gerando grande desequilíbrio emocional e espiritual.

 

Necessário se faz destacar que o perispírito registra toda vida terrena e quando ocorre o desencarne, esse registro não é apagado. O perispírito é o corpo imperecível da alma, serve à sua individualização e identificação. Uma identidade que se refere à sua própria história, às suas características evolutivas. Essa identidade, que diz de suas qualidades positivas e negativas, transmite-se, quando em estado de encarnação, ao corpo físico (ZIMMERMANN, 2017, p. 70). Os erros cometidos em vida permanecem após o desencarne. Por isso, se não forem reparados na vida onde ocorrem, acompanharão o Espírito e precisarão ser reparados em encarnações futuras (KARDEC, 2022, p. 357).  

 

Ao desencarnar, tudo que foi registrado no perispírito durante a encarnação acompanha o Espírito ao Mundo Espiritual. Toda a culpa vivida em uma encarnação fica muito mais evidenciado quando se desencarna, criando, muitas vezes, uma culpa maior por não ter resolvido o problema quando ainda encarnado. E esse “problema” pode assumir proporções ainda maiores. Se o Espírito atormentado aceita a ajuda de Espíritos Amigos do Mundo Espiritual, conseguirá avançar em sua evolução. Contudo, se não consente neste auxílio, fica à mercê das sugestões de criaturas inferiores do Umbral, das Trevas e do Abismo, formando uma simbiose espiritual muito maléfica.

 

A evolução de um Espírito rebelde, que não aceita conselhos ou ajuda de irmãos mais esclarecidos, pode evoluir em um caminho muito prejudicial a si próprio, com anos e anos de sofrimento.  

 

É muito mais benéfico, e até mesmo fácil, resolver os erros e culpas na encarnação atual, com o autoperdão finalizando esta etapa. Frequentemente, a pessoa que comete um erro até o repara, mas permanece se culpando pelo erro cometido. A culpa e o remorso são os maiores adversários do autoperdão. Através de Divaldo Franco, Joanna de Ângelis diz que o perdão é um dos antídotos para a culpa; a coragem de pedir perdão e a capacidade de perdoar são dois mecanismos terapêuticos liberadores da culpa (FRANCO, 2014, p. 54).

 

Muitas vezes, a pessoa fica presa a culpa por achar que já errou muito e, por isso, não merece ser perdoada. Porém, Jesus ensinou: Não vos digo que perdoeis até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes. É preciso estar sempre disposto a perdoar, a se perdoar!

 

A pessoa que não se liberta da culpa e do remorso, se envolve em uma energia negativa que a acorrenta ao passado, impedindo-a de evoluir e de ficar em paz consigo mesma.

 

Concluindo que o autoperdão é essencial, é feita a pergunta: Como alcançar o autoperdão? Os ensinamentos espíritas são valiosas ferramentas para guiar ao perdão.


Perdoar a si mesmo inicia com a compreensão de que todos os encarnados no planeta Terra são Espíritos imperfeitos em evolução, que cometem erros no processo de aprendizagem, sem exceção. Um erro do passado não define para sempre uma pessoa. É necessário entender que a culpa gerada por um erro é de grande valia, pois sinaliza a compreensão do erro e a possibilidade de reparação. Isto feito, o que resta é a transformação em lição e a necessidade de se autoperdoar.

 

Inicialmente, pode parecer difícil alcançar o autoperdão, mas conforme é exercido, mais natural se torna. A pessoa tem que entender que se ela é capaz de perdoar o outro, por que não perdoar a si própria? É preciso que tenha consigo a mesma compaixão que tem para com o outro. Não há sentido em carregar uma culpa por toda sua existência.

 

O caminho mais simples para se perdoar é reconhecer o erro cometido, compreender os motivos que fizeram a pessoa a errar, é o exercício do autoconhecimento em toda a sua extensão. É importante que nesse processo não haja julgamentos e condenações, apenas conhecimento.  

 

O segundo passo é reparar, de todas as formas possíveis, o erro cometido, quitando o débito contraído com essa falha. E um dos melhores caminhos para essa reparação é a caridade, máxima do ensinamento espírita: fora da caridade não há salvação. Quando a caridade é praticada, cria-se uma atmosfera de amor, compreensão e compaixão, além de tornar a pessoa mais humilde e grata pelas oportunidades recebidas. Muitos pensam que a prática da caridade ajuda o próximo. Isso é verdade, mas, além disso, auxilia muito mais a quem pratica.

 

O autoperdão tem que ser visto como uma oportunidade de crescimento. Deus deu a cada um o mérito de elevar-se pelo próprio esforço e livre iniciativa, lhe concedendo moratória para que corrija e aperfeiçoe suas instituições (CALLIGARIS, 2016, p. 118). A partir do momento que a pessoa refletiu sobre o erro cometido e o reparou, é chegada a hora de abandonar o passado, de curar as feridas da alma, buscando um futuro melhor. É a construção de um futuro pleno de paz e conhecimento.

 

O ser humano tem um grande potencial de transformar defeito em potencial a ser desenvolvido. A pessoa que compreende suas dificuldades e limitações tem maior oportunidade de crescimento, pois pode transformar erros em acertos. Conhecido o caminho do erro, há uma nova estrada a ser percorrida.

 

Muitas vezes, a dificuldade que a pessoa tem de se perdoar é por entender que agiu contrário às Leis Divinas, achando que não merece perdão. Todas as pessoas são amadas incondicionalmente por Deus, que as conhece profundamente. Deus sabe das limitações e potenciais de cada um, assim como vê claramente o desejo de mudança e de aperfeiçoamento.

 

Entretanto, não se deve esperar um “perdão gratuito”. Perdoar-se é consequência do esforço contínuo de enriquecimento moral, de aceitação e comunhão com as Leis Divinas.

 

Conclui-se que a culpa não compreendida como oportunidade de aprendizado será apenas uma âncora em um mar de mágoas e ressentimentos. Porém, se considerada uma experiência de conhecimento, será asas para voar rumo a evolução, ao aperfeiçoamento.

 

Rossandro Kinjey diz que se você ainda não começou mudanças significativas, pode estar se lamentando pelo tempo que julga ter desperdiçado. Mas saiba que você não desperdiçou nada: foi o tempo necessário para o seu processo” (KLINJEY, 2016).

 

O Apóstolo Pedro negou o Mestre Jesus, não uma, mas três vezes, negou Aquele que lhe deu tantas provas de carinho e afeto. Em consequência, foi assolado com culpa e remorso avassaladores. Entretanto, Pedro se arrependeu, se perdoou e seguiu o caminho que o fez alcançar patamares muito maiores do que se encontrava antes da queda. O Apóstolo Pedro nos ensina que o perdão é um caminho para um futuro magnífico. Ensinou Jesus que o reino dos Céus está dentro de nós.

 

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Referências:

 

1- CALLIGARIS, Rodolfo. As Leis Morais. 15. ed. Brasília-DF: FEB, 2016.

2- FRANCO, Divaldo, ditado pelo Espírito Joana de Ângelis. Conflitos Existenciais. 6. ed. Salvador-BA: Centro Espírita Caminho da Redenção, 2014, p. 54.

3- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, tradução Guillon Ribeiro. 1. ed. Campos de Goytacazes-RJ: Editora Letra Espírita, 2022.

4- KLINJEY, Rossandro. As Cinco Faces do Perdão. 1. Ed. São Paulo-SP: Intelitera Editora, 2016.

5- ZIMMERMANN, Zalmino. Perispírito. 4 ed. Campinas-SP: Editora Allan Kardec, 2017.



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