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O Natal Segundo a Doutrina Espírita


Carla Silvério Barbosa


Estamos no mês de dezembro, época do ano que tradicionalmente “respira” os ares do natal e das festividades de final de ano.


Contudo, muitos comemoram esta data sem sequer imaginar as suas origens e o seu real significado, que vai muito mais além do que trocar presentes e compartilhar a ceia na madrugada do dia 24 para o dia 25.


Afinal, o que o natal?


Como surgiu essa data festiva na humanidade?


O natal como o conhecemos nos dias atuais tem sua origem no paganismo do Século II D.C., por volta de 274 D.C., quando o então imperador romano Aureliano determinou que se comemorasse o início do solstício de inverno com homenagens ao Deus-Sol Natalis Solis Invicti (Deus-Sol Invicto)[1].


O Cristianismo incorporou essa festividade pagã e a transformou na comemoração do nascimento de Jesus de Nazaré, considerado pelos cristãos até os dias atuais como o “Sol”, filho de Deus, a encarnação da justiça divina, personificação da “luz do mundo”[2].


Sabe-se que historicamente não há nenhuma comprovação de que Jesus de Nazaré tenha nascido numa noite de 25 de dezembro, até mesmo porque, à época de seu nascimento sequer existia o calendário e o sistema de datas utilizados hoje.


O decreto de que o nascimento de Jesus de Nazaré seria comemorado pelos cristãos no dia 25 de dezembro somente veio a ser estabelecido durante o papado de Julio I, no Século III D.C. e considerado feriado no Império Romano apenas com o Imperador Justiniano, no ano de 529 D.C.[3].


A Igreja Católica, no princípio do Cristianismo, percebeu que teria que usar de artifícios para cristianizar o povo romano, que até então era praticante do paganismo politeísta (religião oficial do Império Romano até 380 D.C., quando Teodósio I instituiu o Édito de Tessalônica [4], decretando a partir daí o Cristianismo como religião oficial de todo império) e usou de datas e divindades pagãs como ponto de partida para a introdução da nova doutrina que surgia naquele povo, a exemplo da figura de Jesus de Nazaré no lugar do Deus-Sol Invicto, e tantas outras incorporações da cultura pagã usada pelo Cristianismo primitivo como forma de se aproximar dos novos fiéis e conquistar a sua simpatia.


Desde a idade média até os dias atuais, o Cristianismo passou por diversas modificações e adaptações ao longo dos séculos, e com ele, transformou-se também o significado do Natal em meio à humanidade.


Como tempo surgiu a figura do presépio (inventado por Francisco de Assis), a árvore de natal (inventada por Martinho Lutero), papai noel (ou São Nicolau, bispo turco do Século IV que viveu em Mira, onde atualmente é a Turquia e que no seus aniversário dava presentes para as crianças locais), trenó com henas voadoras, presentes de natal (que remonta aos três reis magos que foram até Jesus de Nazaré em seu nascimento para lhes presentear) e toda a simbologia natalina da atualidade.


Em meio a toda a movimentação comercial e publicitária que hoje toma conta do natal e de toda a sua simbologia, muitos se perguntam qual seria o verdadeiro sentido do natal.


O natal não é apenas um dia festivo em que compartilhamos o jantar com familiares e amigos e trocamos presentes. Vai muito mais além!


Numa data em que lembramos e festejamos o nascimento de Jesus de Nazaré, nosso maior exemplo e grande governador espiritual do orbe terrestre devemos ter em mente o verdadeiro sentido do natal, revivendo em nossos corações as valiosas lições morais deixadas pelo Mestre enquanto esteve reencarnado no meio dos homens.


E o Espiritismo, comemora o natal?


Para a Doutrina Espírita, o natal é o momento de profunda reflexão, de ponderação de nossa conduta tanto vista intimamente como para com os demais, a respeito da mensagem que Jesus nos deixou e que até hoje temos dificuldade em entende-la e vivenciá-la.


Assim como ocorre em todo o mundo cristão do ocidente, todo dia 25 de dezembro é comemorado o nascimento de Jesus, e para o Espíritas não poderia ser diferente, haja vista que o Espiritismo é doutrina cristã, fundada por Jesus e apenas codificada por Allan Kardec.


Jesus de Nazaré, como dito, é considerado o grande Sol da humanidade e não por acaso foi escolhido o dia 25 de dezembro como marco para sua festividade natalícia.


Como grande Sol da humanidade, ele nos guia pelo caminho reto da porta estreia, rumo à depuração de nossas faltas e falhas, em direção à elevação máxima do Espírito.


Nas palavras ensinadas pelo próprio Jesus o “caminho, a verdade e a vida” (Jo 14:6, BÍBLIA SAGRADA) [5].


Como ensina Emmanuel[6]:

As comemorações do Natal conduzem-nos o entendimento à eterna lição de humildade de Jesus, no momento preciso em que a sua mensagem de amor felicitou o coração das criaturas, fazendo-nos sentir, ainda, o sabor de atualidade dos seus divinos ensinamentos. A Manjedoura foi o Caminho. A exemplificação era a Verdade. O Calvário constituía a Vida. Sem o Caminho, o homem terrestre não atingirá os tesouros da Verdade e da Vida.


Jesus desde o seu reencarne na Terra vem deixando valiosas lições à humanidade, por meio de palavras e por suas exemplares ações tomadas em meio aos homens distanciados da senda do bem pelos equívocos cometidos nas existências desajustadas e obscurecidas pela ignorância.


Na obra A Caminho da Luz Emmanuel [7] nos ensina que a passagem de Jesus de Nazaré pelo planeta Terra foi um marco para a maioridade espiritual da humanidade terrestre: “Começava a era definitiva da maioridade espiritual da Humanidade terrestre, de vez que Jesus, com a sua exemplificação divina, entregaria o código da fraternidade e do amor a todos os corações”.


Na época de natal, a solidariedade emerge no meio social e muitos aproveitam a data para realização de atos concretos de caridade, a exemplo do que Jesus nos ensinou.


Contudo, não podemos nos esquecer de que a caridade não deve ficar restrita tão somente à época natalina. A caridade, a exemplo de Jesus, deve fazer parte naturalmente do cotidiano dos homens.


Jesus nos exorta que fora da caridade não há salvação! [8] A Doutrina Espírita tem nas festividades natalinas um poderoso reforço de reavivamento desta valiosa lição para toda a humanidade.


Entretanto, é de fundamental importância a compreensão do significado correto da caridade ensinada por Jesus, que vai muito além dos bens materiais.


A caridade ensinada por Jesus deve ter origem no seio familiar, ensinada de pais para filhos (Q. 208, L.E) [9], na formação do caráter de seres humanos de bem conforme nos direciona o Evangelho Segundo o Espiritismo (Cap. XVII, item “3") [10], ensinando já às crianças a importância conjunta da elevação moral do ser humano e do trabalho de cada um para a melhoria de todos, tanto espiritual quanto do ponto de vista material.


Jesus, como Espírito de mais alto gabarito que é veio até o orbe terrestre para ensinar aos homens o amor verdadeiramente, mostrar o caminho da verdadeira felicidade que nada tem de material, mas sim decorrente justamente do desapego das coisas do mundo grosseiro em que nos encontramos reencarnados e ao mesmo tempo, conquista de elevação espiritual pela prática do amor e caridade por vivenciados.


A Doutrina Espírita nos orienta e refletirmos o momento do natal com esperança no amanhã, no desenvolvimento de uma consciência humana sintonizada com a mensagem do Grande Mestre Jesus.


O nascimento ocorrido na manjedoura há mais de dois mil anos trouxe à humanidade a mais alta esperança a se ter e mais inequívoca comprovação da grandiosidade do Criador e de seu amor, justiça e misericórdia infinitos.


Em Jesus personificou-se o maior exemplo de purificação máxima do Espírito, com ele recebemos a boa nova do Pai de que somos perfectíveis e após traçarmos a nossa marcha evolutiva chegaremos à elevação de Espíritos Puros, tal qual conquistada ao longos das multimilenárias existências por Jesus.


Ao olharmos o Grande Mestre percebemos o quanto já percorremos e nos depuramos com a prova amorosa do Criador de que, cientes do percurso que ainda nos resta, nosso destino final é inevitavelmente a perfeição, à sua imagem e semelhança.


O amor em sua mais pura essência que encontramos ao olharmos para a manjedoura, nos mostra Jesus que deve (e é perfeitamente possível) reverberar em todos os seres da criação, principalmente no coração dos homens.


A celebração do Natal para a Doutrina Espírita é a aclamação do amor de Deus por todos, concretizado no exercício da caridade para consigo (por meio da reforma íntima) e com o próximo por cada um de nós.


Este é o verdadeiro significado do natal para todo cristão, em especial para todo bom espírita.


Que sejamos a exemplo de Jesus, luz no mundo, não apenas no Natal mas em todos os dias do ano.

[1] Disponível em: https://mundoeducacao.uol.com.br/natal-1

[2] Disponível em: https://ensinarhistoria.com.br/linha-do-tempo/primeira-celebracao-de-natal/

[3] Andrew Alphonsus MacErlean. The Catholic Encyclopedia: An International Work of Reference on the Constitution, Doctrine, Discipline, and History of the Catholic Church. Robert Appleton Co.; 1912.

[4] Disponível em: https://cleofas.com.br/tag/edito-de-tessalonica/

[5] BÍBLIA SAGRADA, edição luxo – tradução da Vulgata Latina por Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, ed. DCL, 2006.

[6] XAVIER, Francisco Cândido. Antologia mediúnica do natal. Por diversos Espíritos. 6. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap. 21 (Mensagem de Emmanuel), p.57.

[7] XAVIER. Francisco Cândido. A Caminho da Luz – Pelo Espírito Emmanuel. Ed. FEB, cap. 12.

[8] KARDEC. Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. XIII – A Beneficência. Ed. IDE. 358ª edição, 2008.

[9] Q.208 L.E.: “Os Espíritos dos pais exercem alguma influência sobre os dos filhos, após o nascimento destes?

Muito grande. Conforme já dissemos, os Espíritos devem contribuir para o progresso uns dos outros. Pois bem, os Espíritos dos pais têm por missão desenvolver os de seus filhos pela educação. Isso constitui para eles uma tarefa: se falarem, serão culpados.”

[10] “3. O verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a lei de justiça, amor e de caridade em sua maior pureza. Se interroga a consciência sobre seus próprios atos, pergunta a si mesmo se não violou essa lei; se não fez o mal e se fez todo o bem que podia; se negligenciou voluntariamente uma ocasião de ser útil; se ninguém tem o que reclamar dele; enfim, se fez a outrem tudo o que quereria que se fizesse para com ele. Deposita fé em Deus, na Sua bondade, na Sua justiça e na Sua sabedoria. Sabe que sem a Sua permissão nada acontece e se Lhe submete à vontade em todas as coisas. Tem fé no futuro, razão por que coloca os bens espirituais acima dos bens temporais. Sabe que todas as vicissitudes da vida, todas as dores, todas as decepções são provas ou expiações e as aceita sem murmurar. Possuído do sentimento de caridade e de amor ao próximo, faz o bem pelo bem, sem esperar paga alguma; retribui o mal com o bem, toma a defesa do fraco contra o forte, e sacrifica sempre seus interesses à justiça. Encontra satisfação nos benefícios que espalha, nos serviços que presta, no fazer ditosos os outros, nas lágrimas que enxuga, nas consolações que prodigaliza aos aflitos. Seu primeiro impulso é para pensar nos outros, antes de pensar em si, é para cuidar dos interesses dos outros antes do seu próprio interesse. O egoísta, ao contrário, calcula os proventos e as perdas decorrentes de toda ação generosa.

O homem de bem é bom, humano e benevolente para com todos, sem distinção de raças, nem de crenças, porque em todos os homens vê irmãos seus. Respeita nos outros todas as convicções sinceras e não lança anátema aos que como ele não pensam. Em todas as circunstâncias, toma por guia a caridade, tendo como certo que aquele que prejudica a outrem com palavras malévolas, que fere com o seu orgulho e o seu desprezo a suscetibilidade de alguém, que não recua à idéia de causar um sofrimento, uma contrariedade, ainda que ligeira, quando a pode evitar, falta ao dever de amar o próximo e não merece a clemência do Senhor. Não alimenta ódio, nem rancor, nem desejo de vingança; a exemplo de Jesus, perdoa e esquece as ofensas e só dos benefícios se lembra, por saber que perdoado lhe será conforme houver perdoado. É indulgente para as fraquezas alheias, porque sabe que também necessita de indulgência e tem presente esta sentença do Cristo: “Atire-lhe a primeira pedra aquele que se achar sem pecado.” Nunca se compraz em rebuscar os defeitos alheios, nem, ainda, em evidenciá-los. Se a isso se vê obrigado, procura sempre o bem que possa atenuar o mal. Estuda suas próprias imperfeições e trabalha incessantemente em combatê-las. Todos os esforços emprega para dizer, no dia seguinte, que alguma coisa traz em si de melhor do que na véspera. Não procura dar valor ao seu espírito, nem aos seus talentos, a expensas de outrem; aproveita, ao revés, todas as ocasiões para fazer ressaltar o que seja proveitoso aos outros. Não se envaidece da sua riqueza, nem de suas vantagens pessoais, por saber que tudo o que lhe foi dado pode ser-lhe tirado. Usa, mas não abusa dos bens que lhe são concedidos, sabe que é um depósito de que terá de prestar contas e que o mais prejudicial emprego que lhe pode dar é o de aplicá-lo à satisfação de suas paixões. Se a ordem social colocou sob o seu mando outros homens, trata-os com bondade e benevolência, porque são seus iguais perante Deus; usa da sua autoridade para lhes levantar o moral e não para os esmagar com o seu orgulho. Evita tudo quanto lhes possa tornar mais penosa a posição subalterna em que se encontram. O subordinado, de sua parte, compreende os deveres da posição que ocupa e se empenha em cumpri-los conscienciosamente. (Cap. XVII, nº 9.) Finalmente, o homem de bem respeita todos os direitos que aos seus semelhantes dão as leis da Natureza, como quer que sejam respeitados os seus. Não ficam assim enumeradas todas as qualidades que distinguem o homem de bem; mas, aquele que se esforce por possuir as que acabamos de mencionar, no caminho se acha que a todas as demais conduz.”


REFERÊNCIAS


ANDREW. Alphonsus MacErlean. The Catholic Encyclopedia: An International Work of Reference on the Constitution, Doctrine, Discipline, and History of the Catholic Church. Robert Appleton Co.; 1912.

BÍBLIA SAGRADA, edição luxo – tradução da Vulgata Latina por Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, ed. DCL, 2006.

KARDEC. Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. XIII – A Beneficência. Ed. IDE. 358ª edição, 2008.

KARDEC. Allan. O Livro dos Espíritos – Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Ed. FEB. 2007

XAVIER. Francisco Cândido. A Caminho da Luz – Pelo Espírito Emmanuel. Ed. FEB, cap. 12.

XAVIER, Francisco Cândido. Antologia mediúnica do natal. Por diversos Espíritos. 6. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap. 21 (Mensagem de Emmanuel), p.57.

https://mundoeducacao.uol.com.br/natal-1. Acessado em 20/11/2021.

https://ensinarhistoria.com.br/linha-do-tempo/primeira-celebracao-de-natal/. Acessado em 20/11/2021

https://cleofas.com.br/tag/edito-de-tessalonica/. Acessado em 20/11/2021



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